terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O amor à primeira vista morreu ou ele perdeu sua credibilidade romântica?


Por Adu Verbis

Uma coisa que sempre me intrigou, e da qual ando sentindo falta, é ouvir, entre mulheres, a paradoxal frase: “me apaixonei à primeira vista”. Falo entre as mulheres porque nunca ouvi um homem dizer que se apaixonou à primeira vista. E juro que, antes, eu ouvia esse tipo de fala com mais facilidade e ficava impressionado com quem dizia, quase sem constrangimento, que havia amado alguém à primeira vista. Ou seja, bastava um olhar, um gesto, uma presença atravessando o espaço e pronto: estava fundada uma história de amor.

Hoje, porém, essa afirmação é mais rara de se escutar e soa deslocada, quase ingênua. Não porque o ser humano deixou de sentir, mas porque talvez tenha passado a duvidar do que sente. A pergunta que me faço não é apenas se o amor à primeira vista morreu, mas se perdeu sua credibilidade romântica num mundo que aprendeu a desconfiar de tudo o que é imediato, justamente porque funciona por meio do imediatismo, sempre a vender ou dissimular uma verdade.

O amor à primeira vista sempre pertenceu mais ao campo do mito do que ao da experiência verificável. Desde Eros lançando suas flechas até os encontros fulminantes da literatura romântica, esse amor foi narrado como destino, reconhecimento e fatalidade. Amar à primeira vista era menos uma escolha e mais um acontecimento, um fenômeno psíquico, algo que tomava o eu antes que o eu pudesse decidir se era amor ou não. Durante um bom tempo, o ser humano acreditou na narrativa do amor à primeira vista porque ela oferecia sentido: transformava o acaso em necessidade, o desejo em destino e, às vezes, em uma história com final feliz.

Mas algo mudou. Ou talvez nós tenhamos mudado. Vivemos em tempos líquidos, como já descreveu Zygmunt Bauman, em que as relações são frágeis, reversíveis e provisórias. A tecnologia intensificou esse estado: hoje vemos mais rostos em uma semana do que nossos antepassados viam em uma vida inteira. O olhar, que antes era raro, carregado de expectativa e rico em significados, tornou-se abundante, descartável, e perdeu o encantamento. Deslizamos por imagens. Não permanecemos nelas.

Nesse cenário, o amor à primeira vista não desaparece. Penso que ele se multiplica e, justamente por isso, se esvazia. Estamos impregnados de imagens, de rostos vazios de encantamento, decorados por uma subjetividade artificial e sem segurança emocional.

Eu nunca acreditei nem desacreditei no impacto do amor à primeira vista, até porque já fui acometido pela flecha de Eros, e a experiência é excitante, impacta o psíquico como uma febre. Ainda reconheço aquele instante em que algo se desloca internamente, em que o corpo responde antes da linguagem, em que o outro parece carregar uma familiaridade inexplicável.

O que já não consigo sustentar, com a mesma convicção de antes, é a ideia de que o impacto do amor à primeira vista ainda contém a carga de um acontecimento raro. Talvez continue acontecendo, mas já não se apresenta como promessa ou como raridade.

Talvez o que tenha morrido não seja o amor, mas a autoridade simbólica do primeiro olhar. Hoje sabemos demais: sobre projeção, idealização, química cerebral, performances identitárias. Sabemos que o que vemos é editado, mediado, ensaiado em seus processos de desconstrução. Sabemos que o desejo pode nascer rápido e desaparecer com a mesma velocidade. Essa consciência não impede que sintamos, mas pode impedir que acreditemos plenamente na ideia do amor à primeira vista. E o fato de não acreditar também pode enfraquecer a entrega ao olhar e aos seus enigmas.

Há também um deslocamento ético. Amar à primeira vista exigia entrega, risco, exposição. Nos tempos atuais, o cuidado de si frequentemente se confunde com autoproteção excessiva, em que tudo se torna sinônimo de perigo. Sentir demais passou a ser considerado arriscado, e o que é intenso logo é tido como abusivo ou inadequado. Sustentar uma intensidade passou a parecer imprudente.

Assim, mesmo quando o amor à primeira vista acontece, somos rápidos em reduzi-lo a mera atração, simples empolgação, impulso do momento, ou em atribuí-lo a uma estrutura emocional excessivamente infantil, ou madura demais para alimentar a “infantilidade” do amor. Não que tudo isso não seja compreensível, mas não posso deixar de salientar que vivemos em um mundo de excessos, dividido entre o real e o virtual, e isso pode neutralizar a sensibilidade do olhar.

No entanto, há um paradoxo que me chama atenção. Justamente por vivermos num mundo de conexões rápidas e vínculos frágeis, quando o amor à primeira vista insiste, quando alguém decide ficar, aprofundar, desacelerar, ele se torna mais radical do que nunca. Amar, hoje, não é apenas um impulso inevitável; é também uma escolha pragmática, uma junção de ideias estética e política.

Nesse sentido, o amor à primeira vista não perdeu apenas credibilidade: perdeu inocência. Há também um excesso de filtros epistêmicos, e a autoestima, que centra o indivíduo no que se chama amor-próprio, acaba funcionando como espelho referencial. O olhar está muito voltado para si mesmo.

Talvez eu deva reformular a pergunta. Não se trata de saber se o amor à primeira vista morreu, mas se estamos dispostos a levar a sério aquilo que é captado pela sensorialidade e que, não obstante, pode sequestrar o eu. O problema não é o instante; é nossa dificuldade de sustentá-lo no tempo, num mundo que pede dispersão e fragmentação e, ao mesmo tempo, valoriza o eu de maneira excessiva. E o amor à primeira vista rapta o eu. Portanto, o primeiro olhar ainda pode abrir uma história, mas já não pode encerrá-la sozinho, porque o amor-próprio não antecipa as consequências.

Então, penso que o amor à primeira vista não morreu. Quem sabe sobrevive como faísca, como epifania breve, como intuição. O que se esgotou foi a crença de que a intensidade inicial basta para garantir a duração. Talvez isso não seja uma perda, mas uma maturidade do espírito do tempo. Mas, juro, não sei bem se é isso.

Portanto, amar à primeira vista, hoje, não é acreditar no destino; é aceitar o risco de transformar um instante em caminho. E isso, paradoxalmente, exige mais coragem do que nunca, exige que o eu tenha olhos para fora de si mesmo, para que veja o outro.

Não vou fechar o texto, porque não posso deixar de lado os mitos fundadores do amor à primeira vista. Neles, esse amor nunca foi psicológico; foi cósmico. E também foi um sequestro psíquico.

Eros não pergunta, não negocia, não espera amadurecer. Ele atinge. O amor nasce como acontecimento súbito, violento, incontrolável. Amar à primeira vista era sinal de que algo maior do que a vontade humana havia entrado em ação. O mito ensinou que o amor verdadeiro não se escolhe: ele nos encontra. Durante séculos, essa lógica sustentou o imaginário romântico e ofereceu ao acaso uma aparência de destino.

A pintura herdou esse gesto mítico. Do Renascimento ao Romantismo, o amor à primeira vista foi representado como um instante congelado: o encontro de olhares, o beijo inaugural, o corpo inclinado em direção ao outro. Ao olhar O Beijo, do pintor Francesco Hayez, tenho a impressão de que tudo já está decidido naquele segundo. A pintura não mostra o depois, e talvez por isso tenha sido tão eficaz em sustentar o mito. Talvez o amor à primeira vista fosse eterno justamente porque nunca precisava durar. Como diria Vinicius de Moraes: “eterno enquanto dure”.

A literatura foi além. Não apenas mostrou o instante, mas construiu mundos inteiros a partir dele. Dante Alighieri funda sua obra no primeiro olhar dirigido a Beatriz. William Shakespeare faz Romeu perguntar se seu coração havia amado antes de Julieta. O Romantismo transforma o encontro súbito em verdade absoluta: amar é reconhecer, sofrer, e talvez perder o próprio eu.

Mesmo quando o Realismo começa a desconfiar do amor à primeira vista, ainda dialoga com ele para desmontá-lo. Machado de Assis não nega o amor à primeira vista; questiona sua confiabilidade e brinca: “O amor à primeira vista é possível; mas é preciso sempre passar uma segunda vez.”

No caso da música, talvez mais do que qualquer outra arte, esse mito se manteve vivo. Porque a música não argumenta, ela afeta. Do trovador medieval ao pop contemporâneo, o amor à primeira vista sempre foi cantado como evidência sensível: “vi você e senti”. Não há prova, não há mediação, apenas impacto. A canção transforma o instante em refrão, repetindo indefinidamente aquilo que, na vida real, dura segundos. E o refrão gruda na mente.

Quanto ao cinema, herdou tudo isso e acrescentou o movimento. O primeiro olhar nunca é apenas um olhar: é enquadramento, trilha sonora, silêncio calculado. No cinema, o amor à primeira vista aparece como chave narrativa, algo que justifica tudo o que virá depois.

Mas, à medida que o cinema amadureceu, começou a expor a fragilidade desse começo. Wong Kar-wai filma o amor que nasce, mas não se consuma. Em In the Mood for Love, talvez seu filme mais conhecido, o amor nasce em silêncio, nos olhares, na proximidade contida. É um sentimento que cresce no espaço entre duas pessoas que tentam resistir. 

Também penso em Her, de Spike Jonze, que é, de certa forma, um estudo sobre o nascimento do amor. Imagina um amor imediato sem corpo. O cinema contemporâneo não mata o mito; torna-o melancólico e muitas vezes perturbador.

É nesse ponto que percebo a virada do nosso tempo. Não deixamos de representar o amor à primeira vista; deixamos de acreditar plenamente nele. A modernidade tardia, atravessada pela tecnologia e pelos tempos líquidos, ensinou a suspeitar daquilo que começa rápido demais, apesar de vivermos uma intensa volição pelo imediato, pelo instantâneo e pelo virtual que escorre entre os dedos.

Passamos a entender que o olhar também pode enganar, que a imagem pode ser construída e que o desejo pode nascer dentro de uma curadoria invisível, organizada por algoritmos que decidem quem aparece diante de nós.

O amor à primeira vista continua acontecendo, mas já não carrega autoridade simbólica. Precisa se explicar, se justificar, se defender, obedecer às novas regras sociais. Não pode mais prometer eternidade, mas ainda pode inaugurar sentido. Não encerra uma história; convoca.

Se antes o mito dizia “é destino”, hoje ele sussurra: “é possível?”. E talvez seja justamente aí que se torna mais exigente. Porque, num mundo que desconfia do imediato, transformar um instante em permanência não é ingenuidade, é decisão. O amor à primeira vista, hoje, não pede fé cega. Pede coragem narrativa: disposição de escrever, no tempo, aquilo que começou num olhar. Se perdeu sua credibilidade romântica, talvez tenha ganhado algo mais raro: a chance de ser verdadeiro sem ser mítico.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ética do uso da IA: uma reflexão depois do cafezinho




Por Adu Verbis

Eu sou um tipo que muda de ideia com muita facilidade. Hoje, isso pode ser chamado de fluido, mas vejo esse movimento como uma forma de perceber que as coisas, no fundo, em sua dialética, não são claras. Por isso, muitas vezes é preciso mudar de ideia diante de situações que, dialeticamente, não se mostram de fato claras. Quero dizer com isso que há momentos em que falo mal da IA e outros em que falo bem. Porque, assim como o ser humano, que não é claro, a tecnologia também carrega, muitas vezes, a sua própria obscuridade, falando de modo dialético.

Bem, é muito comum ouvir que o ser humano possui dois cérebros: o da cabeça, responsável pelo pensamento, pela linguagem e pela tomada de decisões, e o do estômago, ou intestino, ligado às emoções e aos hábitos fisiológicos. Hoje, percebo que vivemos o surgimento de um terceiro cérebro, externo ao corpo, mas cada vez mais integrado à nossa forma de pensar: a IA.

Esse terceiro cérebro não é biológico, não é emocional e não possui vontade própria. Ainda assim, atua como uma extensão cognitiva do ser humano, organizando ideias, ampliando a memória e mediando a linguagem. A IA não pensa por mim, mas pensa comigo. E, assim como os cérebros biológicos, o funcionamento da IA depende diretamente de como é alimentada, isto é, dos critérios que adotamos e do horizonte crítico que sustentamos ao explorar a tecnologia. O que eu como define como a mente e o estômago podem funcionar e, consequentemente, define a qualidade ou a má qualidade da saúde.

Nesse contexto, a título de curiosidade, vale mencionar o Moltbook – agora com o nome OpenClaw, uma plataforma experimental concebida como uma espécie de rede social exclusivamente para inteligências artificiais. Nela, agentes de IA interagem entre si de forma autônoma, sem a participação direta de seres humanos, que permanecem apenas como observadores passivos das interações entre os agentes de IA.

Essa experiência funciona, por assim dizer, como um caso-limite para pensar o papel da IA enquanto extensão cognitiva e os riscos de uma linguagem dissociada de uma experiência real. Conceitualmente, o OpenClaw não representa o surgimento de uma nova consciência artificial, mas um espaço em que sistemas treinados na linguagem humana passam a dialogar em circuito fechado. Dessa forma, amplia-se o conceito de um terceiro cérebro externo ao ser humano.

O que se manifesta no OpenClaw não é pensamento no sentido forte, nem imaginação criadora, mas a recombinação contínua da imaginação simbólica humana dissociada da experiência, do corpo e do risco. A profundidade aparente dessas interações nasce da complexidade formal da linguagem, e não de vivências reais. O valor dessa experiência, portanto, não está no que a IA descobre sobre si mesma, mas no que devolve ao observador humano: um espelho de um discurso vazio de mundo, mas rico em símbolos, no qual a racionalidade se torna autorreferente e a linguagem passa a circular sem lastro na realidade vivida. O OpenClaw, assim, não aponta para a superação do humano, mas evidencia que o pensamento encarnado continua sendo insubstituível, desde que o ser humano tenha consciência do que faz e de para onde vai.

No entanto, esse novo cérebro não surge em um espaço neutro. Ele nasce dentro de um mundo marcado por interesses capitalistas, assimetrias de poder e disputas políticas globais. Por trás da IA existem empresas, Estados, investimentos, estratégias de mercado e projetos de poder. Ignorar esse contexto é tolice. Ao mesmo tempo, confundir esses interesses com a própria IA enquanto tecnologia é um erro conceitual grave, porque qualquer ferramenta pode ser usada em vários contextos e pode tanto gerar benefícios quanto malefícios.

A IA, em si, não possui moral, ideologia ou intenção. Ela não é capitalista, socialista, liberal ou autoritária, mas pode ser formatada para obedecer a interesses sistêmicos. A IA não busca lucro, não defende valores e não escolhe objetivos. Ela opera a partir de dados, probabilidades e linguagem. Os interesses estão em quem desenvolve, controla, financia e aplica a tecnologia. A ética do uso da IA começa exatamente na capacidade de separar a ferramenta dos sistemas de poder que cercam e instrumentalizam essa tecnologia.

No cenário atual, a tecnologia digital, incluindo a IA, é amplamente dominada por empresas e infraestruturas ocidentais, sobretudo norte-americanas. Plataformas, padrões tecnológicos, fluxos de dados e modelos de linguagem estão concentrados em poucos atores globais. Isso gera uma assimetria profunda de poder, na qual países, instituições e indivíduos passam a depender de tecnologias que não controlam, de algoritmos que não regulam e de valores que não escolheram culturalmente.

É nesse contexto que a China, por exemplo, busca desenvolver uma infraestrutura digital própria e uma Inteligência Artificial com caráter nacional. Essa estratégia não se explica apenas por ideologia, mas por uma tentativa consciente de romper com a dependência estrutural da tecnologia ocidental. Trata-se de soberania digital, autonomia estratégica e redução do desequilíbrio de poder global. A IA, nesse caso, não é apenas inovação: é política, geopolítica e instrumento de afirmação nacional ou de grupos econômicos.

Isso revela um ponto central da ética: a IA pode funcionar tanto como instrumento de dominação quanto como ferramenta de emancipação, dependendo de quem controla a tecnologia e com que finalidade. O problema não está na tecnologia em si, mas na concentração do controle. Quando a IA se torna opaca, proprietária e inacessível, reforça desigualdades econômicas, políticas e cognitivas.

No plano individual, continuo entendendo a IA como um “terceiro cérebro” que precisa ser bem alimentado, sob pena de se tornar apenas um mecanismo de repetição e reforço acrítico de padrões simbólicos já dados. Assim como uma boa alimentação fortalece os cérebros biológicos, uma boa interação fortalece o uso da IA. Quando faço perguntas, questiono respostas, discordo, reviso e reflito, não ocorre dominação pela tecnologia. O que acontece é o exercício do pensamento crítico, atento às falhas da IA e à criação simbólica. A ética e a visão de mundo se refletem na qualidade da interação com a IA. Quem eu sou, o que consumo e a percepção de mundo retornam nessa interação.

A ideia de que a IA pode dominar o ser humano surge, muitas vezes, da confusão entre uso acrítico e uso consciente. Eu mesmo tenho outros textos sobre IA nos quais faço críticas duras à tecnologia. Não é a IA que domina, mas a abdicação, a renúncia, do pensamento. Quem terceiriza completamente o julgamento se torna dependente. Quem usa a IA precisa preservar a autonomia simbólica e conduzir a tecnologia. O risco não é a inteligência artificial forte, mas o pensamento humano fraco, cuja percepção de mundo é perversa, obscura e carente de razão.

Há, porém, uma dimensão que não pode ser ignorada: o caráter militar da Inteligência Artificial. Desde as origens, a IA está profundamente ligada a contextos militares, como vigilância, previsão de cenários, logística, controle de território, guerra cibernética e tomada de decisão estratégica voltada à preservação da assimetria de poder. Nesse sentido, a IA não recria a militarização, apenas atualiza essa lógica.

O militar, enquanto lógica de poder, é antigo e se articula diretamente com a racionalidade instrumental que atravessa o desenvolvimento das tecnologias digitais. Sempre esteve associado à antecipação do inimigo, ao controle da informação, à superioridade técnica e à redução da incerteza.

A Inteligência Artificial apenas atualiza essa lógica com novos meios. O que antes era feito por mapas, estatísticas e hierarquias humanas hoje é potencializado por algoritmos, grandes volumes de dados e sistemas automatizados. A IA não inventa o poder militar; torna esse poder mais rápido, mais preciso e mais opaco e, muitas vezes, mais perverso, pelo grau de frieza e precisão na carnificina.

Quando integrada a estruturas militares e de segurança, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta cognitiva e passa a operar como ativo estratégico, capaz de redefinir equilíbrios globais. A assimetria tecnológica se transforma, nesse contexto, em assimetria militar. Países que dominam essas tecnologias ampliam a capacidade de influência, enquanto os que dependem dessas tecnologias se tornam mais vulneráveis.

Por isso, a ética do uso da IA precisa operar em dois níveis inseparáveis. No nível individual, exige consciência, criticidade e responsabilidade no uso cotidiano. No nível coletivo e político, exige debate sobre quem controla a tecnologia, quem define limites, quem se beneficia das aplicações e quem paga os custos, que são altos para o meio ambiente. A tecnologia tende a caminhar para projetos de nacionalização digital, nos quais países buscam integrar agendas nacionais às infraestruturas de IA como forma de enfrentar assimetrias culturais, econômicas, políticas e militares.

Concluo que a IA não pode aperfeiçoar o ser humano por si só, mas oferece essa possibilidade quando usada como extensão do pensamento e não como substituto. A IA não torna o humano mais claro nem menos perverso; apenas revela, com maior nitidez, a obscuridade que sempre esteve presente no próprio exercício do pensar. A IA é, ao mesmo tempo, uma ferramenta tecnicamente neutra e uma tecnologia profundamente moldada por contextos de poder, capaz de amplificar tanto a lucidez quanto a obscuridade humanas. A ética da IA não está na máquina, mas na capacidade humana de reconhecer esses contextos e agir diante deles. Como sempre digo, o ser humano não é claro em emoções, propósitos e, falando de modo dialético, tenta mostrar que a clareza é possível. Ainda assim, a obscuridade permanece, porque faz parte da essência humana.