Por Adu Verbis
Uma coisa que sempre me intrigou, e da qual ando sentindo falta, é ouvir, entre mulheres, a paradoxal frase: “me apaixonei à primeira vista”. Falo entre as mulheres porque nunca ouvi um homem dizer que se apaixonou à primeira vista. E juro que, antes, eu ouvia esse tipo de fala com mais facilidade e ficava impressionado com quem dizia, quase sem constrangimento, que havia amado alguém à primeira vista. Ou seja, bastava um olhar, um gesto, uma presença atravessando o espaço e pronto: estava fundada uma história de amor.
Hoje, porém, essa afirmação é mais rara de se escutar e soa deslocada, quase ingênua. Não porque o ser humano deixou de sentir, mas porque talvez tenha passado a duvidar do que sente. A pergunta que me faço não é apenas se o amor à primeira vista morreu, mas se perdeu sua credibilidade romântica num mundo que aprendeu a desconfiar de tudo o que é imediato, justamente porque funciona por meio do imediatismo, sempre a vender ou dissimular uma verdade.
O amor à primeira vista sempre pertenceu mais ao campo do mito do que ao da experiência verificável. Desde Eros lançando suas flechas até os encontros fulminantes da literatura romântica, esse amor foi narrado como destino, reconhecimento e fatalidade. Amar à primeira vista era menos uma escolha e mais um acontecimento, um fenômeno psíquico, algo que tomava o eu antes que o eu pudesse decidir se era amor ou não. Durante um bom tempo, o ser humano acreditou na narrativa do amor à primeira vista porque ela oferecia sentido: transformava o acaso em necessidade, o desejo em destino e, às vezes, em uma história com final feliz.
Mas algo mudou. Ou talvez nós tenhamos mudado. Vivemos em tempos líquidos, como já descreveu Zygmunt Bauman, em que as relações são frágeis, reversíveis e provisórias. A tecnologia intensificou esse estado: hoje vemos mais rostos em uma semana do que nossos antepassados viam em uma vida inteira. O olhar, que antes era raro, carregado de expectativa e rico em significados, tornou-se abundante, descartável, e perdeu o encantamento. Deslizamos por imagens. Não permanecemos nelas.
Nesse cenário, o amor à primeira vista não desaparece. Penso que ele se multiplica e, justamente por isso, se esvazia. Estamos impregnados de imagens, de rostos vazios de encantamento, decorados por uma subjetividade artificial e sem segurança emocional.
Eu nunca acreditei nem desacreditei no impacto do amor à primeira vista, até porque já fui acometido pela flecha de Eros, e a experiência é excitante, impacta o psíquico como uma febre. Ainda reconheço aquele instante em que algo se desloca internamente, em que o corpo responde antes da linguagem, em que o outro parece carregar uma familiaridade inexplicável.
O que já não consigo sustentar, com a mesma convicção de antes, é a ideia de que o impacto do amor à primeira vista ainda contém a carga de um acontecimento raro. Talvez continue acontecendo, mas já não se apresenta como promessa ou como raridade.
Talvez o que tenha morrido não seja o amor, mas a autoridade simbólica do primeiro olhar. Hoje sabemos demais: sobre projeção, idealização, química cerebral, performances identitárias. Sabemos que o que vemos é editado, mediado, ensaiado em seus processos de desconstrução. Sabemos que o desejo pode nascer rápido e desaparecer com a mesma velocidade. Essa consciência não impede que sintamos, mas pode impedir que acreditemos plenamente na ideia do amor à primeira vista. E o fato de não acreditar também pode enfraquecer a entrega ao olhar e aos seus enigmas.
Há também um deslocamento ético. Amar à primeira vista exigia entrega, risco, exposição. Nos tempos atuais, o cuidado de si frequentemente se confunde com autoproteção excessiva, em que tudo se torna sinônimo de perigo. Sentir demais passou a ser considerado arriscado, e o que é intenso logo é tido como abusivo ou inadequado. Sustentar uma intensidade passou a parecer imprudente.
Assim, mesmo quando o amor à primeira vista acontece, somos rápidos em reduzi-lo a mera atração, simples empolgação, impulso do momento, ou em atribuí-lo a uma estrutura emocional excessivamente infantil, ou madura demais para alimentar a “infantilidade” do amor. Não que tudo isso não seja compreensível, mas não posso deixar de salientar que vivemos em um mundo de excessos, dividido entre o real e o virtual, e isso pode neutralizar a sensibilidade do olhar.
No entanto, há um paradoxo que me chama atenção. Justamente por vivermos num mundo de conexões rápidas e vínculos frágeis, quando o amor à primeira vista insiste, quando alguém decide ficar, aprofundar, desacelerar, ele se torna mais radical do que nunca. Amar, hoje, não é apenas um impulso inevitável; é também uma escolha pragmática, uma junção de ideias estética e política.
Nesse sentido, o amor à primeira vista não perdeu apenas credibilidade: perdeu inocência. Há também um excesso de filtros epistêmicos, e a autoestima, que centra o indivíduo no que se chama amor-próprio, acaba funcionando como espelho referencial. O olhar está muito voltado para si mesmo.
Talvez eu deva reformular a pergunta. Não se trata de saber se o amor à primeira vista morreu, mas se estamos dispostos a levar a sério aquilo que é captado pela sensorialidade e que, não obstante, pode sequestrar o eu. O problema não é o instante; é nossa dificuldade de sustentá-lo no tempo, num mundo que pede dispersão e fragmentação e, ao mesmo tempo, valoriza o eu de maneira excessiva. E o amor à primeira vista rapta o eu. Portanto, o primeiro olhar ainda pode abrir uma história, mas já não pode encerrá-la sozinho, porque o amor-próprio não antecipa as consequências.
Então, penso que o amor à primeira vista não morreu. Quem sabe sobrevive como faísca, como epifania breve, como intuição. O que se esgotou foi a crença de que a intensidade inicial basta para garantir a duração. Talvez isso não seja uma perda, mas uma maturidade do espírito do tempo. Mas, juro, não sei bem se é isso.
Portanto, amar à primeira vista, hoje, não é acreditar no destino; é aceitar o risco de transformar um instante em caminho. E isso, paradoxalmente, exige mais coragem do que nunca, exige que o eu tenha olhos para fora de si mesmo, para que veja o outro.
Não vou fechar o texto, porque não posso deixar de lado os mitos fundadores do amor à primeira vista. Neles, esse amor nunca foi psicológico; foi cósmico. E também foi um sequestro psíquico.
Eros não pergunta, não negocia, não espera amadurecer. Ele atinge. O amor nasce como acontecimento súbito, violento, incontrolável. Amar à primeira vista era sinal de que algo maior do que a vontade humana havia entrado em ação. O mito ensinou que o amor verdadeiro não se escolhe: ele nos encontra. Durante séculos, essa lógica sustentou o imaginário romântico e ofereceu ao acaso uma aparência de destino.
A pintura herdou esse gesto mítico. Do Renascimento ao Romantismo, o amor à primeira vista foi representado como um instante congelado: o encontro de olhares, o beijo inaugural, o corpo inclinado em direção ao outro. Ao olhar O Beijo, do pintor Francesco Hayez, tenho a impressão de que tudo já está decidido naquele segundo. A pintura não mostra o depois, e talvez por isso tenha sido tão eficaz em sustentar o mito. Talvez o amor à primeira vista fosse eterno justamente porque nunca precisava durar. Como diria Vinicius de Moraes: “eterno enquanto dure”.
A literatura foi além. Não apenas mostrou o instante, mas construiu mundos inteiros a partir dele. Dante Alighieri funda sua obra no primeiro olhar dirigido a Beatriz. William Shakespeare faz Romeu perguntar se seu coração havia amado antes de Julieta. O Romantismo transforma o encontro súbito em verdade absoluta: amar é reconhecer, sofrer, e talvez perder o próprio eu.
Mesmo quando o Realismo começa a desconfiar do amor à primeira vista, ainda dialoga com ele para desmontá-lo. Machado de Assis não nega o amor à primeira vista; questiona sua confiabilidade e brinca: “O amor à primeira vista é possível; mas é preciso sempre passar uma segunda vez.”
No caso da música, talvez mais do que qualquer outra arte, esse mito se manteve vivo. Porque a música não argumenta, ela afeta. Do trovador medieval ao pop contemporâneo, o amor à primeira vista sempre foi cantado como evidência sensível: “vi você e senti”. Não há prova, não há mediação, apenas impacto. A canção transforma o instante em refrão, repetindo indefinidamente aquilo que, na vida real, dura segundos. E o refrão gruda na mente.
Quanto ao cinema, herdou tudo isso e acrescentou o movimento. O primeiro olhar nunca é apenas um olhar: é enquadramento, trilha sonora, silêncio calculado. No cinema, o amor à primeira vista aparece como chave narrativa, algo que justifica tudo o que virá depois.
Mas, à medida que o cinema amadureceu, começou a expor a fragilidade desse começo. Wong Kar-wai filma o amor que nasce, mas não se consuma. Em In the Mood for Love, talvez seu filme mais conhecido, o amor nasce em silêncio, nos olhares, na proximidade contida. É um sentimento que cresce no espaço entre duas pessoas que tentam resistir.
Também penso em Her, de Spike Jonze, que é, de certa forma, um estudo sobre o nascimento do amor. Imagina um amor imediato sem corpo. O cinema contemporâneo não mata o mito; torna-o melancólico e muitas vezes perturbador.
É nesse ponto que percebo a virada do nosso tempo. Não deixamos de representar o amor à primeira vista; deixamos de acreditar plenamente nele. A modernidade tardia, atravessada pela tecnologia e pelos tempos líquidos, ensinou a suspeitar daquilo que começa rápido demais, apesar de vivermos uma intensa volição pelo imediato, pelo instantâneo e pelo virtual que escorre entre os dedos.
Passamos a entender que o olhar também pode enganar, que a imagem pode ser construída e que o desejo pode nascer dentro de uma curadoria invisível, organizada por algoritmos que decidem quem aparece diante de nós.
O amor à primeira vista continua acontecendo, mas já não carrega autoridade simbólica. Precisa se explicar, se justificar, se defender, obedecer às novas regras sociais. Não pode mais prometer eternidade, mas ainda pode inaugurar sentido. Não encerra uma história; convoca.
Se antes o mito dizia “é destino”, hoje ele sussurra: “é possível?”. E talvez seja justamente aí que se torna mais exigente. Porque, num mundo que desconfia do imediato, transformar um instante em permanência não é ingenuidade, é decisão. O amor à primeira vista, hoje, não pede fé cega. Pede coragem narrativa: disposição de escrever, no tempo, aquilo que começou num olhar. Se perdeu sua credibilidade romântica, talvez tenha ganhado algo mais raro: a chance de ser verdadeiro sem ser mítico.






