Por Adu Verbis
Sei que não posso ficar fora do foco da lupa crítica, isso porque há comparações que parecem injustas à primeira vista e, justamente por isso, é possível que revelem algo incômodo. Quando penso em Pôncio Pilatos, lembro do gesto simbólico de lavar as mãos. E não foi ele quem gritou: “Crucifica-o! Crucifica-o!”, “Seja crucificado!”, “O sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos”, para que um homem, considerado santo (Cristo), fosse crucificado. Da mesma forma, não foi ele quem ergueu o chicote, assim como não foi ele quem fez a cruz. Mas não posso negar que foi Pôncio Pilatos quem autorizou a crucificação de Cristo.
Portanto, posso até afirmar, de modo simbólico, que a história da crucificação de Cristo tornou Pôncio Pilatos o arquétipo do homem que finge neutralidade enquanto legitima a violência e, dessa forma, criou a simbologia e a dialética das mãos limpas.
E, quando penso em Ben-Gurion, eu vejo um gesto semelhante ao de Pôncio, só que ampliado em outro contexto histórico, onde o ato de lavar as mãos desloca a culpa para a contingência, a guerra, a necessidade, a sobrevivência, a inevitabilidade, como se o que aconteceu em 1948, na Palestina, tivesse sido um efeito colateral, um acidente da história, um êxodo natural de um povo para que outro pudesse habitar a terra. E as consequências de 1948 são o retrato do que é hoje na Palestina.
No entanto, quanto mais me aproximo das palavras do próprio Ben-Gurion e de outros líderes sionistas, menos a narrativa do efeito colateral se sustenta. Porque ali não havia apenas reação. Havia cálculo. Havia projeto. Havia método. Havia organizações que ajudaram a estruturar uma metodologia de ações que vai além de contingências. Portanto, essa é a diferença fundamental que me leva a dizer e a escrever: Pilatos ajudou a criar um mártir; Ben-Gurion, um genocídio com método. E, por isso, vejo Ben-Gurion como o Pôncio Pilatos do sionismo.
Quando se fala do Plano Peel (proposta britânica de 1937 para dividir a Palestina do Mandato em um Estado judeu e outro árabe), costuma-se repetir que os sionistas o aceitaram com ressalvas e os árabes o rejeitaram por completo. Mas essa frase, repetida como se fosse um dado neutro, esconde o peso do que estava em jogo. Os árabes rejeitaram porque eram a maioria demográfica, porque viviam ali, porque tinham aldeias, memória, pertencimento, cultura e mortos enterrados na terra. Rejeitaram porque entendiam que partilhar o território sob tutela britânica significava transformar o nativo em obstáculo e o recém-chegado em projeto de Estado, e também porque não viam nessa aceitação um simples gesto de civilidade, mas uma renúncia forçada diante de uma reorganização imposta pelo imperialismo que favorecia mais ao judeu europeu recém-chegado.
E, claro, o movimento sionista aceitou parcialmente o Plano Peel, mas esse parcialmente não deixa de ser retórica, pois via no plano um sinal decisivo: pela primeira vez, um poder imperial reconhecia a possibilidade concreta de um Estado sionista. Mas o ponto central não era o espaço a ser habitado, e sim o precedente. A aceitação parcial era, na verdade, uma aceitação estratégica. O que importava era o início de uma legitimidade internacional. O território poderia ser pequeno naquele momento; no futuro, seria maior, como vemos hoje.
É nesse ponto que a figura de Ben-Gurion deixa de ser apenas um líder e passa a ser uma consciência histórica do projeto. Ele não falava como um improvisador. Falava como alguém que entendia que a política não é feita apenas de princípios declarados, mas de engenharia populacional e de inter-relações com o poder vigente.
As palavras de Ben-Gurion são diretas: “Em várias partes do país, novos assentamentos judaicos não serão possíveis a menos que haja a transferência dos camponeses árabes.” E então ele completa, com a frieza de quem compreende a psicologia da propaganda: “É importante que esse plano tenha vindo da Comissão (Plano Peel) e não de nós.” Aqui encontro o elo simbólico de lavar as mãos entre Pôncio e Ben.
Pois não se trata de uma solução neutra; trata-se de uma estratégia discursiva. Não se trata de uma tragédia inevitável; trata-se de uma tragédia politicamente útil para o sionismo. Não se trata de uma guerra que expulsou pessoas; trata-se de um projeto que viu na expulsão a condição do sucesso, da ampliação territorial e da fundação de um Estado em uma região sensível e vulnerável.
Quando Ben-Gurion fala em “método”, ele destrói a narrativa do acaso. Ele afirma: “A transferência de população é o que torna possível um programa abrangente de colonização.” Ele não está descrevendo um fenômeno espontâneo; ele está descrevendo uma técnica, com apoio do Reino Unido, dos EUA e da Rússia. E, quando completa que “o crescente poder judaico (ele usa ‘poder judaico’, mas prefiro o termo poder sionista, já que ser judeu é mais plural e vai além das intenções sionistas) no país aumentará nossas possibilidades de realizar uma grande transferência”, ele revela o vínculo íntimo entre força e expulsão: a transferência não é um resultado, é uma possibilidade que cresce conforme cresce o poder sionista, respaldado por parceiros.
Mas há algo ainda mais profundo do que o método. E é aqui que surge a verdadeira questão: não é apenas o que foi feito, mas como foi justificado. E essa justificativa se dá por meio do que chamo de ontologia moral do sionismo.
O que quero dizer com isso é que o mais chocante não é apenas defender a transferência; é chamá-la de ética. Em debates internos, a ideia de deslocar dezenas de milhares de famílias palestinas aparece como se fosse uma forma elevada de virtude política. Um dirigente afirma que o Yishuv (comunidades judaicas na Palestina antes de 1948) deveria buscar uma “transferência máxima”. Outro líder declara que não há nada de imoral em transferir 60 mil famílias árabes: “É a coisa mais moral a fazer.” E Ben-Gurion, com brutal clareza, conclui: “Apoio a transferência compulsória. Não vejo nisso nada de imoral.”
Essas frases não são um detalhe. Não são uma nota de rodapé. São o núcleo de uma estrutura ideológica. O que emerge delas é aquilo que chamo de ontologia moral do sionismo: um modo de existência política em que a violência deixa de ser exceção e passa a ser narrada como virtude. Nessa ontologia, deslocar populações é “humano”, expulsar famílias é “moral”, colonizar territórios é “necessário”, e a própria existência palestina aparece como um erro histórico a ser corrigido, como se Deus tivesse errado ao criá-los.
Essa ontologia moral não é apenas um conjunto de frases; é uma gramática do ser político que opera como dispositivo de legitimação. Não serve para limitar o poder, mas para santificá-lo. Não pergunta “o que é justo para todos?”, mas “o que é justo para nós, mesmo que custe a existência do outro?”. Mesmo porque a existência do outro não tem o selo do povo escolhido, e assim confirma essa ontologia moral.
O resultado é uma moralidade invertida: o sofrimento palestino não aparece como crime, mas como preço inevitável de um destino considerado superior. A ética deixa de ser universal e se torna teleológica, fechada, interna. Se o objetivo é sagrado, o método se torna aceitável. Se o Estado é redenção, a expulsão vira necessidade.
Essa ontologia moral cria também uma ontologia política do existir: existir não é apenas viver, é cumprir uma missão. E cumprir essa missão autoriza reorganizar o mundo de acordo com uma teleologia interna, com uma interpretação de mundo muito particular.
É por isso que, quando hoje se repete a frase “o exército mais moral do mundo”, eu não ouço um elogio. Eu ouço um sistema de linguagem. Porque o problema não é apenas o discurso moral, mas a definição de moralidade. Quando a moral serve para justificar supremacia, ela deixa de ser moral e se torna uma teologia política de Estado.
E aqui preciso voltar a Pilatos. Pilatos, nesse sentido, não é apenas um personagem histórico, mas uma figura ontológica da responsabilidade política. Ao lavar as mãos, ele não apenas evita uma decisão; ele produz uma forma de existência política baseada na negação da autoria. Ele transforma a violência em acontecimento sem sujeito, como se o poder pudesse agir sem agente. Essa neutralização é o mesmo gesto, em outra escala, da ontologia moral que legitima a expulsão.
Pilatos, ao lavar as mãos, criou um símbolo eterno: a falsa neutralidade diante do crime. Mas, paradoxalmente, sua violência gerou um mártir. O homem que ele condenou tornou-se sagrado para bilhões. O império que o julgou caiu. A memória do crucificado cresceu e floresceu.
Ben-Gurion, ao contrário, não criou um mártir individual; ajudou a produzir uma catástrofe coletiva. Essa catástrofe não se limitou ao sofrimento físico, mas implicou também um processo de apagamento político, não absoluto, já que o palestino não desapareceu, mas potencialmente aprofundado pela sua própria sistematização. Trata-se da transformação de uma população em refugiados, em números, em problema humanitário, em ameaça demográfica, em questão árabe, e em questões não resolvidas que se arrastam.
Portanto, penso que a palavra “método”, aplicada por Ben-Gurion, muda tudo. Porque ela não permite que a história seja contada como acidente. Ela obriga a olhar para o processo como intencionalidade. E, quando se soma a isso o fato de que parte da imprensa sionista evitou registrar esses debates explicitamente, fica claro que não se tratava apenas de discutir: tratava-se também de ocultar. Não por vergonha moral, mas por cálculo político. Então o tema era tratado internamente, mas diluído publicamente. A violência não era negada; era administrada, como parte manifesta do paradigma de Pilatos: fingir neutralidade enquanto legitima a violência.
O que aconteceu e acontece com os palestinos não pode ser explicado apenas como “perderam uma guerra” ou saíram de suas terras por vontade própria. Essa frase, repetida como fatalidade, serve para naturalizar a injustiça. Porque guerras são apresentadas como jogos de azar históricos: quem perde paga o preço. Mas aqui não estamos diante de um simples preço da derrota. Estamos diante de uma lógica de substituição demográfica que antecede a guerra, atravessa a guerra e sobrevive após a guerra. A guerra foi o contexto, mas o método era anterior a ela, e muitas vezes foi aplicado de modo a violar e desrespeitar os direitos dos palestinos.
E isso me leva ao ponto central: não basta indignação. É preciso epistemologia. Ou seja, é preciso buscar justiça por meio da verdade. Não uma verdade abstrata, mas uma verdade construída com documentos, falas, estratégias, decisões, instituições. A justiça sem verdade vira propaganda; a verdade sem justiça vira cinismo institucional. A dignidade palestina exige que o mundo encare o que os próprios líderes do projeto sionista disseram e o que os seus defensores atuais fazem, e ainda assim tentam ressignificar essas ações para se afastar da responsabilização.
Por isso, quando ouço que “os palestinos foram embora por causa da guerra”, lembro do cinismo embutido na frase: “É importante que tenha vindo da Comissão e não de nós.” A transferência precisava parecer neutra, técnica, externa. Como se a violência fosse legítima quando assinada por um carimbo britânico. Como se a moral pudesse ser terceirizada e o carimbo britânico livrasse o sionismo das responsabilidades pelos atos cometidos no passado e no presente.
E é exatamente aí que a comparação entre Pilatos e Ben-Gurion deixa de ser exagero e se torna clareza histórica: ambos se escondem atrás da legitimidade do poder vigente. Um atrás do Império Romano, outro atrás do Mandato Britânico e da diplomacia internacional. Ambos se beneficiam de uma violência que fingem não comandar.
Mas, enquanto Pilatos condenou um homem e ajudou a produzir um símbolo de redenção, Ben-Gurion ajudou a produzir um processo histórico de mortes, de deslocamento e fragmentação de um povo. Por isso não canso de repetir: Pilatos ajudou a criar um mártir; Ben-Gurion ajudou a produzir uma catástrofe com método, que ainda está em curso e só vai acabar quando os objetivos do sionismo forem plenamente alcançados. Boa parte desses objetivos já foi realizada: a criação do Estado. E o processo continua, com apoio silencioso de instituições que lavam as mãos.
E preciso falar da “catástrofe” de 1948 como data. Como também falar de sua continuidade: a ocupação, o bloqueio, os assentamentos, a punição coletiva, a desumanização repetida em discursos e ações. Falar de um mundo que assiste, calcula, negocia e tolera. Falar de um sistema internacional que se comove com vítimas quando isso é conveniente e se cala quando isso é perigoso para não expor aliados.
O mais trágico é que a moral que justifica a expulsão se apresenta como moralidade superior. É uma moral que não pede desculpas; exige reconhecimento. Uma moral que não se vê como agressora; se vê como vítima eterna autorizada a agir. E é por isso que a crítica precisa ser dura e precisa ao mesmo tempo: não basta dizer que é injusto; é preciso mostrar como a injustiça foi racionalizada em nome do projeto de Estado do sionismo.
Não escrevo isso para transformar história em ódio. Escrevo porque existe um povo que foi tratado como objeto, assim como o povo do Sudão e outros tantos, assim como o nazismo tratou os judeus. E porque existe um método que continua sendo aplicado. E porque, se a justiça deve existir, ela precisa começar pelo conhecimento, pelo que chamo de epistemologia aplicada à justiça.
A comparação com Pilatos não é para simplificar. É para revelar a estrutura: o poder que mata e depois finge que apenas autorizou, ou esconde que autorizou, ou, em outros momentos, autoriza em nome de uma ontologia moral. O poder que desloca e depois diz que foi a guerra, e ainda justifica que os nativos eram selvagens e incivilizados. É como se o sionismo, em sua moral, dissesse: custava aos nativos serem dóceis e facilitarem as coisas? O poder que mata, expulsa e depois chama isso de “humano” e de “ato moral”.
A história não deveria e não deve absolver quem lava as mãos. E também não deveria absolver quem chama a morte e a expulsão de nativos de moralidade. Se a catástrofe teve método, então a justiça também precisa ter e precisa ser aplicada.
Referências explícitas de autores e obras que o texto dialoga:
Benny Morris (especialmente sobre 1948, expulsões e a lógica da transferência)
Ilan Pappé (sobre limpeza étnica, planejamento e a Nakba como projeto)
Nur Masalha (sobre a ideia de “transferência” no pensamento sionista)
Edward Said (sobre colonialismo, apagamento e narrativa histórica)
Hannah Arendt (sobre banalidade do mal, burocratização da violência e moralidade política)
Frantz Fanon (sobre colonização como reorganização ontológica do mundo e violência estrutural)
Michel Foucault (biopolítica: poder sobre vida, território e populações)




