Por Adu Verbis
A Copa de 2026 chegou ao fim e deixa muitas coisas para refletir, principalmente sobre a equipe da Seleção Argentina, que confunde deslealdade com garra. No entanto, não sei se, de fato, houve gols bonitos nesta Copa que entrarão para a história das Copas.
Talvez o gol mais bonito da Copa de 2026 tenha sido o da Seleção de Cabo Verde. Um gol que começou a ser gestado nos pés do goleiro Vozinha: a bola passou pelos pés de vários jogadores em uma construção coletiva e terminou com um chute de longa distância de Sidny Lopes Cabral.
Mas o que eu quero mesmo abordar é o que define um golaço. Sempre me questionei a respeito do que é, de fato, um golaço. Muitas vezes me perguntei, com receio de estar sendo estúpido: o que é um golaço?
Na vida como no futebol, tem hora que parece pura magia, e tem hora que é de um realismo ululante; assim como há momentos que parecem suspender o tempo. Um toque inesperado, um drible que desafia a lógica, uma bola que beija a rede depois de uma trajetória improvável e, então, o grito de gol explode como se emergíssemos de um mundo sem oxigênio, respirássemos e voltássemos à vida.
Mas o que exatamente é um golaço? De onde vem essa palavra que carrega tamanha carga estética e emocional, que é extravasada por meio de um gol? O que faz um gol ultrapassar a barreira do comum e entrar no reino da arte dos golaços?
Pois quero compartilhar esta reflexão que não é apenas teórica, mas também afetiva. Falo como quem cresceu ouvindo histórias de gols lendários narradas com uma reverência quase mítica, como quem já vibrou com um chute improvável no campinho de terra batida e, anos depois, se emocionou diante da televisão e num estádio com jogadas que pareciam coreografadas por deuses.
Quero entender como nasceu o conceito de golaço, por que ele mexe tanto com a gente e quais jogadores e jogadas ajudaram a esculpir essa ideia do golaço na alma do futebol e no torcedor que vibra por qualquer gol do seu time, sendo golaço ou não, pois o que importa para o torcedor, geralmente, é o gol e a vitória em uma partida.
Bem, perguntar como se deu a origem do termo golaço é desnecessário, porque o surgimento de algo é resultado de todo um estrato cultural. Mas a palavra golaço, segundo os dicionários, é um aumentativo de gol, formada pela junção de gol + o sufixo aço. E, em português, esse sufixo pode indicar algo grande, impactante ou feito com força. Assim, um golaço pode significar um gol espetacular, fenomenal, daqueles que fazem a gente levantar do sofá, aplaudir e querer ver o replay, ou um gol que faz a torcida ficar extasiada.
Contudo, o termo gol vem do inglês goal (meta, objetivo, propósito) e foi incorporado ao vocabulário do futebol com a popularização do esporte. Assim, golaço não representa somente um gol maior, de acordo com o seu sufixo, mas pode também traduzir um gol especial, marcado pela beleza, pela dificuldade ou pelo impacto causado aos diletantes do futebol.
O termo golaço, para mim, é relativamente recente. Pois tenho em mim que o termo passou a despertar minha curiosidade a partir das décadas de 1980 e 1990, impulsionado pela cobertura esportiva da televisão e pela linguagem efusiva dos narradores. Antes disso, eu ouvia narradores gritarem: belo gol, gol bonito, gol antológico ou mesmo um gol de placa. Portanto, fica claro que não existia uma palavra única que resumisse a força simbólica de um gol gritado com toda a força dos pulmões dos narradores e da torcida.
No entanto, o golaço, como conceito, é muito mais antigo do que o vocabulário que o nomeia. Ele nasce junto com o próprio futebol como entretenimento, propósito e espetáculo. Desde os primeiros registros do esporte na Inglaterra vitoriana, o gol sempre foi o ápice do jogo. Contudo, em países como o Brasil, o gol ganhou contornos de arte. E foi nesse momento que penso que o golaço passou a se distinguir do simples gol enquanto propósito do jogo: não bastava marcar um gol, era preciso encantar pela beleza.
Mas também existe a construção cultural do golaço. Nessa seara, tem o estudioso Simoni Lahud Guedes, referência na antropologia do esporte no Brasil. Em seu livro O Futebol Brasileiro: instituição zero, ele destaca como o futebol é uma linguagem carregada de significados sociais e simbólicos. O golaço, dentro dessa perspectiva cultural, pode ser entendido como uma forma de expressão estética que transcende a funcionalidade do gol. Para Guedes, o futebol encena narrativas de improviso, intuição, criatividade e resistência, nas quais o gol é um elemento que incorpora todo um potencial de significado transcendental, emocional, estético e social.
Outro pesquisador importante, que analisa o futebol como construtor de identidades nacionais, é Ronaldo Helal. Em seu livro O que é Sociologia do Esporte, ele argumenta que lances espetaculares reforçam mitos culturais e que os golaços ajudam a perpetuar a ideia do jogador brasileiro como artista, reforçando a identidade do futebol-arte. Portanto, podemos colocar Pelé e Ronaldinho Gaúcho, entre outros, na categoria de jogadores artistas.
Nessa busca por encontrar contexto e resposta para o que seja um golaço, cheguei ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, que criou o conceito de Capital Simbólico, que pode significar o reconhecimento e o prestígio que uma pessoa ou instituição possui. Nesse caso, Pelé é um capital simbólico. Bourdieu, ao tratar do esporte como um campo de produção simbólica, oferece ferramentas para entender o golaço como capital simbólico dentro do universo futebolístico: um momento de consagração que legitima a genialidade de um jogador diante da comunidade esportiva e midiática.
Em contraste com a efusividade latina, especialmente a brasileira e a argentina, vale notar como diferentes culturas futebolísticas reagem a um golaço. Em outros países, por exemplo, os narradores mantêm, em geral, uma postura mais contida e formal diante de jogadas espetaculares. Mesmo quando reconhecem a beleza de um lance, é comum que façam isso com um vocabulário técnico e uma descrição mais sóbria, sem exageros emocionais. Essa diferença de tom contribui para entendermos como a ideia de golaço também é mediada pela linguagem e pelos códigos culturais e emocionais de cada narrador e, consequentemente, pelo povo de cada país.
Ao longo do século XX e agora no século XXI, o futebol deixou de ser apenas uma prática esportiva para se tornar uma linguagem cultural e econômica com seu capital simbólico. Dentro dessa linguagem, o golaço se firmou como o símbolo máximo da genialidade em campo, e podemos colocar Messi como representante dos golaços para as novas gerações. No entanto, o futebol do século XXI não produz tantos craques como produzia antes, mas não perdeu seu capital simbólico. A concepção de craque também sofreu mudanças; porém, Pelé ainda é uma referência de craque completo. Não obstante, Messi rivaliza com Pelé como referência do que é ser um craque completo.
No Brasil, por exemplo, a ideia de futebol-arte surgiu por meio de Leônidas da Silva, Garrincha, Pelé e Didi, consolidando o entendimento de um futebol que vai além da disciplina e do esquema tático, mostrando que o gol também pode ser uma expressão estética de uma atitude do jogador. Dribles desconcertantes, jogadas improvisadas e finalizações improváveis, que misturam gestos de samba e capoeira, tornaram-se parte do imaginário nacional. Nos campos de terra batida, o golaço era e continua sendo também o gol impossível do menino descalço. Já nos estádios lotados, era e continua sendo o momento em que o craque silencia multidões com uma jogada de gênio e faz outra parte da multidão se extasiar pela jogada e soltar o grito de gol com a redonda no filó.
A mídia sempre teve um papel fundamental na amplificação da ideia do golaço e do futebol em si. Com o rádio, a televisão e agora com a internet, o golaço ganhou uma dimensão supra-global. Programas esportivos, locutores empolgados e muitas vezes exagerados, com gritos de gol que buscam emocionar a audiência, sem falar nas edições de melhores momentos e nos recortes nas redes sociais, criaram e continuam criando uma memória coletiva na qual certos gols se tornaram e se tornam eternos. A repetição dessas jogadas em replays e rankings dos gols mais bonitos da semana, do ano e da história contribuiu e contribui para fixar a ideia de que existe uma estética própria do golaço, construída por meio da interação cinética entre jogador e bola.
Mas o golaço não aconteceu do nada; aconteceu porque houve jogadores talentosos, como Di Stéfano, Ferenc Puskás, Leônidas da Silva, Didi, Garrincha e Pelé, que ajudaram a definir o conceito de golaço. Diversos craques ajudaram a elevar o padrão do que passou a ser chamado de golaço. Eles são os verdadeiros artistas e arquitetos que modelaram o futebol moderno, pois criaram os primeiros grandes momentos de genialidade dentro de campo.
Outra coisa que penso é se é possível listar, categoricamente, os golaços que marcaram época. Pois seria um trabalho árduo tentar listar todos, mas alguns golaços são possíveis de destacar porque se tornaram marcos incontestáveis da história do futebol. Por meio da internet, alguns golaços estão disponíveis. Eu poderia relatar somente os gols de Pelé, mas, para não parecer que sou apenas um puxa-saco do Pelé, não posso deixar de fora os outros craques, pois eles ampliam a percepção do que seja um golaço.
Leônidas da Silva: conhecido como Diamante Negro, foi um dos primeiros a transformar movimentos acrobáticos em gols memoráveis. Sua execução perfeita o tornou pioneiro na arte do golaço no Brasil.
Diamante Negro, na Copa do Mundo de 1938, foi o jogador que popularizou a bicicleta, uma jogada que hoje é sinônimo de golaço. Mas são poucos os jogadores que, de fato, são capazes de realizar esse movimento com precisão e arte, sustentando o corpo no ar, acertando a bola e mandando a redonda balançar a rede.
O argentino Di Stéfano é considerado o símbolo do futebol total, aquele que os antigos diziam combinar inteligência, técnica e movimentação, marcando gols que uniam estética e eficiência.
Enquanto o húngaro Ferenc Puskás, conhecido pela potência e precisão do chute de esquerda, capaz de transformar qualquer oportunidade em gol. Artilheiro extraordinário, marcou gols que combinavam força, técnica e inteligência, o que o tornou um dos símbolos do futebol ofensivo e uma das referências do futebol.
Didi, o criador da folha seca, onde a bola faz uma curva lateral, contornando a barreira. A folha seca de Didi é uma das técnicas mais famosas da história das cobranças de falta.
Pelé, em 1958, na Suécia, fez um gol de cobertura contra o goleiro sueco, após chapelar o zagueiro. Esse gol é considerado um dos primeiros golaços televisionados da história do futebol. Não podemos esquecer que Pelé não cansava de chapelar zagueiros e goleiros.
Pelé, com sua elegância, capacidade de criação, improvisação e execução perfeita, faz parte do clube dos pioneiros na arte do golaço. Pelé, em campo, não era somente um jogador; era também um bailarino clássico, com sua postura vertical, e ao mesmo tempo um bailarino moderno, que rompia regras e explorava o corpo.
Penso que Garrincha não tinha o charme de Pelé, mas ele era um sambista e um capoeirista em campo. Sua irreverência e seus dribles transformavam simples momentos de grande prazer antes mesmo da bola atingir a meta: o gol.
Temos Diego Maradona, em 1986, no jogo Argentina x Inglaterra, com o chamado "Gol do Século". É um golaço icônico. Diego deu uma arrancada com dribles em cinco jogadores. E também temos o gol de mão, "A Mão de Deus", feito por Maradona contra essa mesma Inglaterra. O gol de mão é um gesto político e simbólico. O gol de mão quer dizer que a Inglaterra passou a mão em terras da Argentina, que a Inglaterra afanou aquilo que era dos argentinos.
Da mesma forma que penso que Maradona não tinha a nobreza de bailarino clássico do Pelé, mas sua expressão corporal era elegante. Seu drible curto, controle de bola e coragem definiam seus golaços ousados e inesquecíveis.
Não posso deixar de falar do gol científico de Roberto Carlos, em 1997, no jogo Brasil x França. A famosa falta de três dedos, em que a bola faz uma curva matematicamente calculada.
E Zinedine Zidane, que em 2002, na final da Champions, entre Real Madrid x Bayer Leverkusen, fez um voleio de canhota e pintou sua obra-prima com técnica e elegância. Elegância que anda em falta no futebol atual. O craque Messi, no quesito elegância, é nulo. O deus e a deusa da elegância não gostam do Messi.
Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar possuem coleções de golaços, seja em jogos da Champions, La Liga ou Copa do Mundo. Messi, com dribles curtos e precisão cirúrgica; Cristiano, com potência e plasticidade; e Neymar, com sua capacidade de se mover como estivesse tirando coelho de uma cartola.
Já Ronaldinho Gaúcho misturava magia, improviso e genialidade fortuita. Seu gol contra o Chelsea, em 2005, é um exemplo claro dessa fortuidade. Naquele dia, Ronaldinho recebeu a bola próximo à entrada da área, pelo lado esquerdo do ataque. Em vez de avançar ou procurar um companheiro, ele parou praticamente no lugar, cercado por defensores. Sem uma grande preparação física, fez um movimento inesperado: bateu de bico, com a ponta do pé, dando um leve efeito e mandando a bola rasteira no canto do goleiro.
Mas não estou esquecendo alguma coisa? Sim, estou deixando de lado o futebol feminino, como se nele não existissem golaços. Contudo, acredito que não seja exatamente um esquecimento, mas talvez uma falta de acompanhamento mais próximo. Apesar de já ter assistido, in loco, a partidas de futebol feminino, reconheço que acompanho pouco o futebol femenino, talvez por machismo ou falta de interesse.
Entretanto, não posso deixar de mencionar a craque Marta, a maior jogadora da história do futebol feminino. Com seus gols, dribles, técnica e habilidade em lances individuais, ela encantou e ainda encanta. Marta é, de fato, uma referência para o futebol mundial, assim como Pelé é uma referência para o futebol masculino. Saída de Dois Riachos (AL), ela construiu uma trajetória internacional e tornou-se um dos maiores símbolos da evolução e da valorização do futebol feminino no mundo.
Bem, o golaço sempre esteve entre o povo, na várzea, e também nas grandes competições e campeonatos. O golaço não pertence apenas aos grandes palcos. Nos campos de várzea, nas peladas e nas quadras de futsal, milhares de golaços acontecem sem câmeras ou narradores. São esses momentos anônimos que mantêm viva a essência do futebol como arte e paixão popular.
É importante lembrar que o golaço também guarda uma carga de subjetividade. O gol mais bonito da vida de alguém pode ter sido feito por um parente, por um amigo ou até pela própria pessoa, ou pelo craque do time que torce. E é aí que o golaço transcende o esporte e se transforma em memória afetiva.
Afinal, o golaço é uma expressão da beleza. O golaço é, acima de tudo, uma celebração da beleza no futebol. Ele não se mede apenas por estatísticas, mas pelo impacto emocional que causa em quem assiste. É arte, é surpresa, é instinto, é emoção pura. É parte de uma identidade cultural, especialmente nos países onde o futebol é mais do que um jogo: é paixão, é sonho, é símbolo de superação e é protesto político.
Cada geração tem seus golaços inesquecíveis, e cada torcedor tem seu gol preferido. Isso acontece porque o golaço não é apenas o que se vê, mas aquilo que se sente também. É a poesia que nasce de um passe torto ou perfeito, de um drible desconcertante, de um chute inesperado. É o momento em que o futebol toca o sublime e nos lembra por que amamos tanto esse esporte, que está sempre em constante mudança e que, no fundo, reflete os aspectos da vida e de uma sociedade.




