terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Protocolo Nosso de Cada Dia



Por Adu Verbis

Outro dia precisei ir a uma rede odontológico franqueada, porque uma resina odontológica - a obturação - havia se soltado e eu precisava fazer a sua reposição. Ao chegar à rede, que prefiro chamar de centro odontológico, fui encaminhado ao setor de raio-X. Depois, segui para o setor financeiro, onde tive que trocar uma ideia sobre os custos do procedimento e suas camadas de valores embutidos. Entre explicações e caras e bocas, percebi que o preço apresentado estava acima do que eu poderia assumir naquele momento. Questionei, então, que minha intenção era apenas repor a resina - e somente a resina.

A moça do setor financeiro, porém, explicou que existia um protocolo a ser seguido e que ela não poderia simplesmente quebrá-lo. Naquele momento, percebi que aquele protocolo não era apenas uma orientação técnica ou administrativa; ele também organizava uma lógica de funcionamento que favorecia a própria estrutura do centro odontológico, mas não necessariamente atendia ao meu interesse imediato: somente repor a resina sem outros custos. O protocolo protegia os procedimentos internos, mas deixava em segundo plano a minha necessidade específica como cliente. O protocolo tinha como objetivo proteger as questões financeiras do centro.

Fiquei incomodado por me sentir uma peça secundária naquela engrenagem e argumentei com a moça do setor financeiro que ela estava conduzindo a situação por uma regra rígida que não considerava a minha necessidade. Em meio à discussão, utilizei uma expressão equivocada e disse que aquilo parecia um "ato moral". A moça, por sua vez, respondeu prontamente, um tanto irritada, que não se tratava de uma questão moral, mas sim de um protocolo.

Aquela situação cotidiana permaneceu comigo. Percebi que, por trás daquela diferença de interpretação sobre uma necessidade, havia uma questão muito maior, chamada protocolo. Fiquei a pensar em protocolos, cocei a cabeça e pensei que eu nunca antes havia pensado sobre os protocolos nosso de cada dia. E por isso me perguntei: quando um protocolo é aplicado, ele representa apenas uma organização técnica de segurança ou também uma regra de vida social? Ele também expressa interesses, prioridades e relações de poder?

E, de forma ingênua e "nu" diante da situação, cheguei a me perguntar: quem define um protocolo? A quem ele serve? Quando seguimos uma regra institucional, médica ou empresarial, estamos apenas obedecendo a uma norma ou estamos participando de uma forma organizada de viver em sociedade, que nem mesmo sabemos quando foi pensada e foi sancionada?

Contudo, foi a partir dessa experiência no centro odontológico, aparentemente simples e rotineira para centenas de pessoas, que comecei a estudar e a refletir sobre o papel dos protocolos na minha vida e na construção dos comportamentos, do funcionamento social e das relações humanas em geral, em cada época.

Ao observar a minha insignificante história no episódio do centro odontológico, a projetei como parte de uma camada da história humana, e assim percebi que cada época possui seus próprios protocolos. Eles nem sempre aparecem escritos em documentos oficiais ou organizados em manuais e, quando aparecem, talvez nem mesmo sejam lidos ou mesmo refletidos; mas estão presentes nos gestos, nas palavras, nos rituais, nas formas de vestir, nos modos como cada grupo pensa seu lugar no mundo e nas maneiras pelas quais os indivíduos reconhecem uns aos outros. Posso estar enganado, mas nada me impede de entender um protocolo como uma linguagem silenciosa: ele revela aquilo que cada período histórico considera adequado, aceitável e legítimo às relações de poder.

Lendo sobre o assunto, comecei a perceber que o protocolo não está somente nos grandes acontecimentos ou nas instituições formais. Pois ele aparece também nas pequenas situações do cotidiano - e justamente como aconteceu comigo no centro odontológico. Uma simples conversa sobre uma resina odontológica revelou uma estrutura muito maior: uma maneira de organizar ações, definir caminhos e estabelecer aquilo que pode ou não pode ser feito e como eu posso ter acesso às coisas. A novidade foi eu ter tomado consciência dos protocolos depois de muito tempo sendo conduzido por protocolos em todos os lugares que tive o direito de acessar.

Quando se entra em uma instituição, ou qualquer outro espaço, não se entra apenas em um espaço físico, se entra num mundo simbolicamente arquitetado por toda uma história. Ao entrar no centro odontológico, eu entrei em um sistema de regras, expectativas e procedimentos que já existiam antes mesmo de eu chegar. De certa forma, o indivíduo passa a participar de uma lógica que foi construída anteriormente, sem a sua participação, e que orienta a maneira como aquela relação deve acontecer.

Ao me aprofundar no conceito que institui um protocolo, passei a vê-lo não apenas como um conjunto de regras formais. Passei a vê-lo como uma construção social que organiza a experiência humana e que tem uma boa intenção por trás. O protocolo está presente desde os pequenos encontros cotidianos até as grandes estruturas políticas, econômicas, de saúde pública e tecnológicas. O protocolo é aquilo que permite que pessoas diferentes convivam dentro de uma mesma realidade compartilhada, mas também pode gerar seus poréns.

Posso então pensar que todo protocolo nasce de uma necessidade, mas também nasce de uma determinada visão sobre como as coisas devem funcionar e, portanto, há protocolos que podem não funcionar. Por isso, quando seguimos um protocolo, não estamos apenas seguindo uma sequência de ações; estamos participando de uma forma específica de compreender um mundo e seu conjunto de regras preestabelecidas que servem como mapas socioculturais.

Como toda palavra não vem do nada e sempre tem uma origem, a linguagem também é uma semente cuja origem às vezes é controversa. A palavra protocolo é uma dessas que vem do grego antigo e tem uma origem bem estranha e também interessante. Na sua origem, ela juntava as palavras prôtos, que significa primeiro, e kólla, que significa tanto cola, de colar, como adesivo. Naturalmente que, na época, o termo se referia à primeira folha colada em um documento ou rolo de papiro, onde eram colocadas informações importantes para identificar e validar um registro. Com o tempo, a palavra ganhou novos significados, mas manteve o sentido de registro, organização de informações ou conjunto de regras que orienta uma ação. Então, a coisa mais natural é ouvirmos alguém falar, de modo pomposo: "precisamos seguir o protocolo!"

Por isso, o que em determinado momento histórico pode ser visto como educado, racional ou civilizado pode, em outra época e contexto, parecer estranho ou ultrapassado. Isso demonstra que os protocolos não são naturais ou absolutos: eles são produzidos pelas relações humanas e carregam valores adesivados na testa de cada um.

Quando penso em uma situação comum, muitas vezes não percebo que estou seguindo orientações preestabelecidas e construídas historicamente. Um cumprimento, uma forma de tratamento, uma maneira de se apresentar ou até mesmo o modo como ocupo um espaço são atitudes que parecem espontâneas, mas carregam aprendizados sociais. Antes mesmo de entender completamente o mundo, já estou inserido em uma rede de comportamentos preestabelecidos e esperados.

Nessa jornada ulissiana na Odisseia do protocolo, li o sociólogo Norbert Elias e percebi, em sua análise, por mais que sua análise seja óbvia, que muitos comportamentos que hoje parecem naturais foram, na verdade, construídos ao longo do tempo. O controle das emoções, as regras de convivência, as maneiras e os padrões de comportamento foram sendo incorporados pelos indivíduos até se tornarem parte da própria personalidade coletiva. Tudo isso, sob a luz da consciência, parece uma obviedade ululante, mas não podemos esquecer que passamos boa parte da vida no modo inconsciente. E, não obstante, hoje o conflito entre conservar e desconstruir os padrões rege a sociedade, o que gera polarização no mundo das ideias.

Já o sociólogo Erving Goffman, com sua teoria da apresentação do eu, aprofunda a compreensão do protocolo ao analisar a vida cotidiana como uma espécie de representação teatral. A partir de sua perspectiva, percebo que todos nós participamos de diferentes situações sociais nas quais apresentamos determinadas versões de nós mesmos. Não significa que estamos fingindo ser nós mesmos, mas que ajustamos nossas atitudes de acordo com os protocolos e com o ambiente em que estamos ou habitamos.

A ideia de Goffman, a apresentação do eu, ajuda a compreender que a vida social depende dessas pequenas combinações, por assim dizer protocolares. Muitas vezes pensamos que estamos apenas agindo naturalmente, mas existe uma série de acordos invisíveis que tornam possível uma convivência. Quando duas pessoas compartilham determinadas expectativas, conseguem estabelecer uma relação mais compreensível e previsível. Alguns podem morrer de tédio com certas conformidades protocolares, enquanto outros se sentem seguros dentro das conformidades.

Entretanto, penso que a previsibilidade dos protocolos também pode apresentar problemas. Ao mesmo tempo em que os protocolos facilitam a convivência, eles podem criar padrões que excluem aqueles que não conseguem ou não desejam seguir determinadas regras, isso por muitos fatores: tanto cognitivos quanto de percepção de mundo. A questão deixa de ser apenas como organizar a sociedade e passa a ser também quem define, ou como definir, aquilo que será considerado correto para uma época, e se a sociedade é capaz de perceber, também, os abusos que há por trás de um modelo de organização social.

Mas aqui entra uma pergunta: quem veio primeiro, o protocolo ou o contrato social? Do ponto de vista sociológico, penso que contrato social e protocolo talvez não sejam a mesma coisa, mas são vizinhos que, volta e meia, entram em conflito, fazem as pazes e novamente se afastam. A paz entre eles nunca parece totalmente duradoura, porque o contrato social é uma ideia que procura dar fundamento a uma organização, enquanto o protocolo é um conjunto de normas que orienta como se deve agir em determinadas situações. São próximos, mas existe entre eles um espaço de tensão. Talvez seja justamente nesse espaço de tensão que pensadores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau tenham deixado suas perguntas: como uma sociedade se organiza e como os indivíduos aprendem a viver dentro dela sem uma permanente tensão?

Como a minha mente funciona melhor por meio das metáforas do que propriamente pela habilidade em análises analíticas, digo que uma imagem comparativa entre contrato social e protocolo seria: contrato social é a arquitetura da sociedade, já o protocolo é o manual de uso dessa arquitetura. Portanto, metaforicamente, o protocolo pode funcionar como um anexo vivo do contrato social, porque pode ajudar a entender princípios abstratos de convivência em comportamentos concretos diante das tensões. Mas, historicamente e sociologicamente, o protocolo não é um anexo oficial: é uma camada cultural que acompanha, interpreta e às vezes até modifica o contrato social, sem que se perceba essa modificação.

Nesse ponto, percebo uma dimensão política mais complexa dos protocolos. Eles não apenas instrumentalizam organizações; eles também revelam relações de poder. E nesse caso tenho que recorrer a Michel Foucault, que mostrou que muitas instituições funcionam através de mecanismos de normalização protocolar. Portanto, a diferença entre uma organização dita progressista e uma conservadora pode ser mera percepção de mundo; ambas trabalham no processo de instrumentalizar ideias que acreditam ser melhores para a sociedade e as organizam para um objetivo, por assim dizer, protocolar. Escolas, hospitais, empresas e governos utilizam procedimentos, classificações e regras para organizar os indivíduos. Esses mecanismos não atuam apenas proibindo comportamentos, mas também produzindo formas consideradas adequadas de agir e baseadas numa percepção de mundo.

Voltando à situação no centro odontológico, percebo que o conflito entre mim e a moça do setor financeiro e sua aplicação do protocolo, não era simplesmente um conflito de classe. Pois, ela era, ela própria, uma operária do protocolo, submetida a ele tanto quanto eu. O meu conflito era com o protocolo que ela representava: um procedimento que foi desenhado longe daquela sala, na qual a moça era uma autoridade parda, e designada para proteger o setor financeiro e o próprio faturamento da rede odontológica. O protocolo não me protegia. Ele protegia os interesses da rede franqueada.

Contudo, o protocolo, nesse sentido, muitas vezes não precisa necessariamente aparecer como uma imposição. Muitas vezes ele atua de maneira silenciosa, através dos hábitos, interesses e das expectativas compartilhadas. Ele está presente justamente porque foi incorporado por classes dominantes e passou a fazer parte da maneira como estas classes protegem seus interesses e enxergam o mundo.

O sociólogo Max Weber mostrou que os protocolos ganharam uma nova dimensão através da burocracia. A sociedade moderna passou a depender cada vez mais de procedimentos formais, documentos, normas e sistemas organizados. Penso que essa racionalização permitiu que grandes instituições funcionassem de maneira mais eficiente, mas também criou o risco de transformar a vida humana em uma sequência de procedimentos instrumentalizados para favorecer somente alguns.

Portanto, talvez esse seja um dos grandes dilemas da sociedade contemporânea: quanto mais complexa a vida se torna, mais se fortalece a ideia de que precisamos de protocolos para organizar a complexidade. Entretanto, quanto mais dependemos deles, maior também é o risco de que eles não existam apenas para servir às pessoas, mas também para manipular e instrumentalizar regras de poder que fortalecem uma classe em detrimento de outras.

O mundo contemporâneo é profundamente protocolar. Bancos, sistemas digitais, redes de comunicação, plataformas tecnológicas e a inserção social funcionam através de protocolos visíveis e invisíveis que orientam nossas ações e, não obstante, há também um controle. Hoje, muitas relações passam por sistemas que definem como devemos interagir, comunicar, trabalhar e até construir nossa identidade em seus processos de subjetividade e na adequação de classes.

A tecnologia ampliou essa presença dos protocolos. Se antes eles estavam mais visíveis em documentos, instituições e cerimônias, hoje muitos deles estão escondidos em sistemas digitais, algoritmos e plataformas. Continuamos seguindo protocolos, mas agora muitos deles não são percebidos diretamente por nós.

Posso pensar que, filosoficamente, o protocolo apresenta uma questão profunda e, por isso, abre uma pergunta: ele representa liberdade ou restrição? Por um lado, sem protocolos, parece que seria difícil construir uma sociedade pelo nível de complexidade e problematizações sistêmicas que estruturam o mundo? Talvez precisemos de regras compartilhadas para confiar uns nos outros, estabelecer compromissos e viver coletivamente, já que viver coletivamente é um ato político que expõe os interesses de classes.

Por outro lado, quando os protocolos se tornam rígidos demais, eles também podem limitar ou fortalecer os micropoderes, transformar diferenças em problemas e, ao mesmo tempo, problematizar as diferenças. O desafio está em compreender que uma regra precisa manter uma relação com a realidade que pretende organizar: a vida humana, em constante conflito de percepção de mundo.

O filósofo Kant pensou na tensão entre liberdade e regras ao mostrar que a liberdade não significa ausência completa de regras, mas a capacidade de agir segundo princípios que possam ser reconhecidos racionalmente. Por isso penso, paradoxalmente, que um protocolo legítimo seria aquele que organiza racionalmente a convivência sem eliminar a autonomia. Contudo, pergunto: temos condições cognitivas de reconhecer racionalmente o mundo?

Essa reflexão retorna novamente à situação do centro odontológico. O problema não era simplesmente a existência de um protocolo. O problema era perceber até que ponto aquele protocolo conseguia dialogar racionalmente com a minha necessidade e a minha situação. Uma regra pode ser necessária, mas ela precisa continuar sendo interpretada por seres humanos diante de necessidades que precisam ser resolvidas racionalmente, sem eliminar a dita autonomia.

Assim, o protocolo é uma realidade criada pela humanidade para organizar sua própria existência. Ele não é uma coisa material, mas possui efeitos concretos. Ele modifica comportamentos, estrutura instituições e influencia a maneira como percebemos o mundo. O protocolo medieval expressava uma sociedade baseada em ordens e privilégios; o protocolo moderno expressou uma busca pela racionalização, eficiência e controle; o protocolo contemporâneo revela uma sociedade conectada, acelerada e mediada por tecnologias.

Mas essa mesma sociedade conectada também apresenta uma contradição: estamos cada vez mais próximos por meio dos sistemas tecnológicos e, ao mesmo tempo, muitas vezes, irracionalmente, mais distantes das experiências humanas diretas. Até essa distância também segue protocolos, pois aprendemos novas formas de comunicar, demonstrar sentimentos e estabelecer as inter-relações, por mais que sejam mediadas por uma irracionalidade e por uma autonomia frágil.

No final, posso pensar que a pequena situação envolvendo uma simples reposição de resina odontológica mostrou algo muito maior. Um momento cotidiano revelou que, por trás de cada regra, existe uma história, uma intenção e uma maneira de organizar o acesso ao mundo.

O protocolo é mais do que uma regra. É uma narrativa social que busca mostrar uma eficiência sociocultural. É a maneira pela qual uma época diz aos indivíduos: "é assim que vivemos, é assim que nos reconhecemos, é assim que construímos juntos a realidade que habitamos e é assim que vamos agir".

E talvez a grande questão não seja viver sem protocolos - pois penso que isso seria impossível -, mas aprender a olhar para eles com consciência. Entender quem os criou, a quem servem e quando precisam ser transformados. Afinal, os protocolos são criados pelos seres humanos e, por isso mesmo, devem permanecer sempre abertos à reflexão e à necessidade humana diante da própria complexidade do mundo que, não obstante, precisa ser racionalizada. E aqui racionalizar não quer dizer somente compreender e explicar, mas também organizar para que todos possam se beneficiar de maneira prática. Porque, sem um benefício geral a todos, não há autonomia.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O que é um golaço?


Por Adu Verbis


A Copa de 2026 chegou ao fim e deixa muitas coisas para refletir, principalmente sobre a equipe da Seleção Argentina, que confunde deslealdade com garra. No entanto, não sei se, de fato, houve gols bonitos nesta Copa que entrarão para a história das Copas.

Talvez o gol mais bonito da Copa de 2026 tenha sido o da Seleção de Cabo Verde. Um gol que começou a ser gestado nos pés do goleiro Vozinha: a bola passou pelos pés de vários jogadores em uma construção coletiva e terminou com um chute de longa distância de Sidny Lopes Cabral.

Mas o que eu quero mesmo abordar é o que define um golaço. Sempre me questionei a respeito do que é, de fato, um golaço. Muitas vezes me perguntei, com receio de estar sendo estúpido: o que é um golaço?

Na vida como no futebol, tem hora que parece pura magia, e tem hora que é de um realismo ululante; assim como há momentos que parecem suspender o tempo. Um toque inesperado, um drible que desafia a lógica, uma bola que beija a rede depois de uma trajetória improvável e, então, o grito de gol explode como se emergíssemos de um mundo sem oxigênio, respirássemos e voltássemos à vida. 

Mas o que exatamente é um golaço? De onde vem essa palavra que carrega tamanha carga estética e emocional, que é extravasada por meio de um gol? O que faz um gol ultrapassar a barreira do comum e entrar no reino da arte dos golaços?

Pois quero compartilhar esta reflexão que não é apenas teórica, mas também afetiva. Falo como quem cresceu ouvindo histórias de gols lendários narradas com uma reverência quase mítica, como quem já vibrou com um chute improvável no campinho de terra batida e, anos depois, se emocionou diante da televisão e num estádio com jogadas que pareciam coreografadas por deuses.

Quero entender como nasceu o conceito de golaço, por que ele mexe tanto com a gente e quais jogadores e jogadas ajudaram a esculpir essa ideia do golaço na alma do futebol e no torcedor que vibra por qualquer gol do seu time, sendo golaço ou não, pois o que importa para o torcedor, geralmente, é o gol e a vitória em uma partida.

Bem, perguntar como se deu a origem do termo golaço é desnecessário, porque o surgimento de algo é resultado de todo um estrato cultural. Mas a palavra golaço, segundo os dicionários, é um aumentativo de gol, formada pela junção de gol + o sufixo aço. E, em português, esse sufixo pode indicar algo grande, impactante ou feito com força. Assim, um golaço pode significar um gol espetacular, fenomenal, daqueles que fazem a gente levantar do sofá, aplaudir e querer ver o replay, ou um gol que faz a torcida ficar extasiada.

Contudo, o termo gol vem do inglês goal (meta, objetivo, propósito) e foi incorporado ao vocabulário do futebol com a popularização do esporte. Assim, golaço não representa somente um gol maior, de acordo com o seu sufixo, mas pode também traduzir um gol especial, marcado pela beleza, pela dificuldade ou pelo impacto causado aos diletantes do futebol.

O termo golaço, para mim, é relativamente recente. Pois tenho em mim que o termo passou a despertar minha curiosidade a partir das décadas de 1980 e 1990, impulsionado pela cobertura esportiva da televisão e pela linguagem efusiva dos narradores. Antes disso, eu ouvia narradores gritarem: belo gol, gol bonito, gol antológico ou mesmo um gol de placa. Portanto, fica claro que não existia uma palavra única que resumisse a força simbólica de um gol gritado com toda a força dos pulmões dos narradores e da torcida.

No entanto, o golaço, como conceito, é muito mais antigo do que o vocabulário que o nomeia. Ele nasce junto com o próprio futebol como entretenimento, propósito e espetáculo. Desde os primeiros registros do esporte na Inglaterra vitoriana, o gol sempre foi o ápice do jogo. Contudo, em países como o Brasil, o gol ganhou contornos de arte. E foi nesse momento que penso que o golaço passou a se distinguir do simples gol enquanto propósito do jogo: não bastava marcar um gol, era preciso encantar pela beleza.

Mas também existe a construção cultural do golaço. Nessa seara, tem o estudioso Simoni Lahud Guedes, referência na antropologia do esporte no Brasil. Em seu livro O Futebol Brasileiro: instituição zero, ele destaca como o futebol é uma linguagem carregada de significados sociais e simbólicos. O golaço, dentro dessa perspectiva cultural, pode ser entendido como uma forma de expressão estética que transcende a funcionalidade do gol. Para Guedes, o futebol encena narrativas de improviso, intuição, criatividade e resistência, nas quais o gol é um elemento que incorpora todo um potencial de significado transcendental, emocional, estético e social.

Outro pesquisador importante, que analisa o futebol como construtor de identidades nacionais, é Ronaldo Helal. Em seu livro O que é Sociologia do Esporte, ele argumenta que lances espetaculares reforçam mitos culturais e que os golaços ajudam a perpetuar a ideia do jogador brasileiro como artista, reforçando a identidade do futebol-arte. Portanto, podemos colocar Pelé e Ronaldinho Gaúcho, entre outros, na categoria de jogadores artistas.

Nessa busca por encontrar contexto e resposta para o que seja um golaço, cheguei ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, que criou o conceito de Capital Simbólico, que pode significar o reconhecimento e o prestígio que uma pessoa ou instituição possui. Nesse caso, Pelé é um capital simbólico. Bourdieu, ao tratar do esporte como um campo de produção simbólica, oferece ferramentas para entender o golaço como capital simbólico dentro do universo futebolístico: um momento de consagração que legitima a genialidade de um jogador diante da comunidade esportiva e midiática.

Em contraste com a efusividade latina, especialmente a brasileira e a argentina, vale notar como diferentes culturas futebolísticas reagem a um golaço. Em outros países, por exemplo, os narradores mantêm, em geral, uma postura mais contida e formal diante de jogadas espetaculares. Mesmo quando reconhecem a beleza de um lance, é comum que façam isso com um vocabulário técnico e uma descrição mais sóbria, sem exageros emocionais. Essa diferença de tom contribui para entendermos como a ideia de golaço também é mediada pela linguagem e pelos códigos culturais e emocionais de cada narrador e, consequentemente, pelo povo de cada país.

Ao longo do século XX e agora no século XXI, o futebol deixou de ser apenas uma prática esportiva para se tornar uma linguagem cultural e econômica com seu capital simbólico. Dentro dessa linguagem, o golaço se firmou como o símbolo máximo da genialidade em campo, e podemos colocar Messi como representante dos golaços para as novas gerações. No entanto, o futebol do século XXI não produz tantos craques como produzia antes, mas não perdeu seu capital simbólico. A concepção de craque também sofreu mudanças; porém, Pelé ainda é uma referência de craque completo. Não obstante, Messi rivaliza com Pelé como referência do que é ser um craque completo.

No Brasil, por exemplo, a ideia de futebol-arte surgiu por meio de Leônidas da Silva, Garrincha, Pelé e Didi, consolidando o entendimento de um futebol que vai além da disciplina e do esquema tático, mostrando que o gol também pode ser uma expressão estética de uma atitude do jogador. Dribles desconcertantes, jogadas improvisadas e finalizações improváveis, que misturam gestos de samba e capoeira, tornaram-se parte do imaginário nacional. Nos campos de terra batida, o golaço era e continua sendo também o gol impossível do menino descalço. Já nos estádios lotados, era e continua sendo o momento em que o craque silencia multidões com uma jogada de gênio e faz outra parte da multidão se extasiar pela jogada e soltar o grito de gol com a redonda no filó.

A mídia sempre teve um papel fundamental na amplificação da ideia do golaço e do futebol em si. Com o rádio, a televisão e agora com a internet, o golaço ganhou uma dimensão supra-global. Programas esportivos, locutores empolgados e muitas vezes exagerados, com gritos de gol que buscam emocionar a audiência, sem falar nas edições de melhores momentos e nos recortes nas redes sociais, criaram e continuam criando uma memória coletiva na qual certos gols se tornaram e se tornam eternos. A repetição dessas jogadas em replays e rankings dos gols mais bonitos da semana, do ano e da história contribuiu e contribui para fixar a ideia de que existe uma estética própria do golaço, construída por meio da interação cinética entre jogador e bola.

Mas o golaço não aconteceu do nada; aconteceu porque houve jogadores talentosos, como Di Stéfano, Ferenc Puskás, Leônidas da Silva, Didi, Garrincha e Pelé, que ajudaram a definir o conceito de golaço. Diversos craques ajudaram a elevar o padrão do que passou a ser chamado de golaço. Eles são os verdadeiros artistas e arquitetos que modelaram o futebol moderno, pois criaram os primeiros grandes momentos de genialidade dentro de campo. 

Outra coisa que penso é se é possível listar, categoricamente, os golaços que marcaram época. Pois seria um trabalho árduo tentar listar todos, mas alguns golaços são possíveis de destacar porque se tornaram marcos incontestáveis da história do futebol. Por meio da internet, alguns golaços estão disponíveis. Eu poderia relatar somente os gols de Pelé, mas, para não parecer que sou apenas um puxa-saco do Pelé, não posso deixar de fora os outros craques, pois eles ampliam a percepção do que seja um golaço.

Leônidas da Silva: conhecido como Diamante Negro, foi um dos primeiros a transformar movimentos acrobáticos em gols memoráveis. Sua execução perfeita o tornou pioneiro na arte do golaço no Brasil.

Diamante Negro, na Copa do Mundo de 1938, foi o jogador que popularizou a bicicleta, uma jogada que hoje é sinônimo de golaço. Mas são poucos os jogadores que, de fato, são capazes de realizar esse movimento com precisão e arte, sustentando o corpo no ar, acertando a bola e mandando a redonda balançar a rede.

O argentino Di Stéfano é considerado o símbolo do futebol total, aquele que os antigos diziam combinar inteligência, técnica e movimentação, marcando gols que uniam estética e eficiência.

Enquanto o húngaro Ferenc Puskás, conhecido pela potência e precisão do chute de esquerda, capaz de transformar qualquer oportunidade em gol. Artilheiro extraordinário, marcou gols que combinavam força, técnica e inteligência, o que o tornou um dos símbolos do futebol ofensivo e uma das referências do futebol.

Didi, o criador da folha seca, onde a bola faz uma curva lateral, contornando a barreira. A folha seca de Didi é uma das técnicas mais famosas da história das cobranças de falta.

Pelé, em 1958, na Suécia, fez um gol de cobertura contra o goleiro sueco, após chapelar o zagueiro. Esse gol é considerado um dos primeiros golaços televisionados da história do futebol. Não podemos esquecer que Pelé não cansava de chapelar zagueiros e goleiros.

Pelé, com sua elegância, capacidade de criação, improvisação e execução perfeita, faz parte do clube dos pioneiros na arte do golaço. Pelé, em campo, não era somente um jogador; era também um bailarino clássico, com sua postura vertical, e ao mesmo tempo um bailarino moderno, que rompia regras e explorava o corpo.

Penso que Garrincha não tinha o charme de Pelé, mas ele era um sambista e um capoeirista em campo. Sua irreverência e seus dribles transformavam simples momentos de grande prazer antes mesmo da bola atingir a meta: o gol.

Temos Diego Maradona, em 1986, no jogo Argentina x Inglaterra, com o chamado "Gol do Século". É um golaço icônico. Diego deu uma arrancada com dribles em cinco jogadores. E também temos o gol de mão, "A Mão de Deus", feito por Maradona contra essa mesma Inglaterra. O gol de mão é um gesto político e simbólico. O gol de mão quer dizer que a Inglaterra passou a mão em terras da Argentina, que a Inglaterra afanou aquilo que era dos argentinos.

Da mesma forma que penso que Maradona não tinha a nobreza de bailarino clássico do Pelé, mas sua expressão corporal era elegante. Seu drible curto, controle de bola e coragem definiam seus golaços ousados e inesquecíveis. 

Não posso deixar de falar do gol científico de Roberto Carlos, em 1997, no jogo Brasil x França. A famosa falta de três dedos, em que a bola faz uma curva matematicamente calculada.

E Zinedine Zidane, que em 2002, na final da Champions, entre Real Madrid x Bayer Leverkusen, fez um voleio de canhota e pintou sua obra-prima com técnica e elegância. Elegância que anda em falta no futebol atual. O craque Messi, no quesito elegância, é nulo. O deus e a deusa da elegância não gostam do Messi.

Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar possuem coleções de golaços, seja em jogos da Champions, La Liga ou Copa do Mundo. Messi, com dribles curtos e precisão cirúrgica; Cristiano, com potência e plasticidade; e Neymar, com sua capacidade de se mover como estivesse tirando coelho de uma cartola.

Já Ronaldinho Gaúcho misturava magia, improviso e genialidade fortuita. Seu gol contra o Chelsea, em 2005, é um exemplo claro dessa fortuidade. Naquele dia, Ronaldinho recebeu a bola próximo à entrada da área, pelo lado esquerdo do ataque. Em vez de avançar ou procurar um companheiro, ele parou praticamente no lugar, cercado por defensores. Sem uma grande preparação física, fez um movimento inesperado: bateu de bico, com a ponta do pé, dando um leve efeito e mandando a bola rasteira no canto do goleiro.

Mas não estou esquecendo alguma coisa? Sim, estou deixando de lado o futebol feminino, como se nele não existissem golaços. Contudo, acredito que não seja exatamente um esquecimento, mas talvez uma falta de acompanhamento mais próximo. Apesar de já ter assistido, in loco, a partidas de futebol feminino, reconheço que acompanho pouco o futebol femenino, talvez por machismo ou falta de interesse.

Entretanto, não posso deixar de mencionar a craque Marta, a maior jogadora da história do futebol feminino. Com seus gols, dribles, técnica e habilidade em lances individuais, ela encantou e ainda encanta. Marta é, de fato, uma referência para o futebol mundial, assim como Pelé é uma referência para o futebol masculino. Saída de Dois Riachos (AL), ela construiu uma trajetória internacional e tornou-se um dos maiores símbolos da evolução e da valorização do futebol feminino no mundo.

Bem, o golaço sempre esteve entre o povo, na várzea, e também nas grandes competições e campeonatos. O golaço não pertence apenas aos grandes palcos. Nos campos de várzea, nas peladas e nas quadras de futsal, milhares de golaços acontecem sem câmeras ou narradores. São esses momentos anônimos que mantêm viva a essência do futebol como arte e paixão popular.

É importante lembrar que o golaço também guarda uma carga de subjetividade. O gol mais bonito da vida de alguém pode ter sido feito por um parente, por um amigo ou até pela própria pessoa, ou pelo craque do time que torce. E é aí que o golaço transcende o esporte e se transforma em memória afetiva.

Afinal, o golaço é uma expressão da beleza. O golaço é, acima de tudo, uma celebração da beleza no futebol. Ele não se mede apenas por estatísticas, mas pelo impacto emocional que causa em quem assiste. É arte, é surpresa, é instinto, é emoção pura. É parte de uma identidade cultural, especialmente nos países onde o futebol é mais do que um jogo: é paixão, é sonho, é símbolo de superação e é protesto político.

Cada geração tem seus golaços inesquecíveis, e cada torcedor tem seu gol preferido. Isso acontece porque o golaço não é apenas o que se vê, mas aquilo que se sente também. É a poesia que nasce de um passe torto ou perfeito, de um drible desconcertante, de um chute inesperado. É o momento em que o futebol toca o sublime e nos lembra por que amamos tanto esse esporte, que está sempre em constante mudança e que, no fundo, reflete os aspectos da vida e de uma sociedade.

terça-feira, 7 de julho de 2026

O Gol melancólico do Neymar contra a Noruega retrata o que foi a era Neymar



Por Adu Verbis

É possível pensar na Seleção Brasileira como um organismo vivo, algo que respira em ciclos, que muda de pele, mas não deveria mudar completamente sua essência. Isso porque, antes de Neymar, essa Seleção trocou de pele muitas vezes e funcionou como uma máquina: com arte, com pragmatismo e também de forma caótica, mas mantinha a cadência. Com a era Neymar, a Seleção passou a ser complexa e, ao mesmo tempo, frágil e sem cadência: um espelho emocional de uma geração que não conseguiu sustentar o próprio brilho. A Seleção acabou sofrendo uma mutação e mudando de essência.

Antes da chegada de Neymar, existia uma Seleção que não dependia de um único jogador. Era uma estrutura em que o coletivo sustentava o talento, e o talento, por sua vez, apenas refinava o coletivo e fortalecia o indivíduo. A Seleção de 2002 é o exemplo mais claro disso: Ronaldo decidia, Rivaldo criava, Ronaldinho flutuava pelo campo como uma luz que, de forma quase metafórica, iluminava toda a equipe, e a defesa sustentava tudo com uma serenidade comparável a um barco atravessando um mar revolto. Não havia um centro emocional absoluto. Havia distribuição de funções e objetivo.

Depois dessa troca de pele, algo começou a se dissolver. A geração seguinte tentou manter a ordem, mas perdeu o instinto e a cadência do futebol dito brasileiro. Em 2006 e 2010, a Seleção parecia jogar sob o peso de uma história que já não conseguia sustentar. Havia eficiência em alguns momentos, mas faltava cadência para o jogo fluir. O conceito de Seleção forte deixou de ser absoluto e passou a ser relativo. Nesse intervalo entre o passado de força coletiva e a busca por uma nova identidade, Neymar apareceu não apenas como jogador, mas como elemento que poderia ocupar o protagonismo de jogadores das Seleções anteriores, que construíram a história e deram peso à camisa da Seleção Brasileira.

Neymar chega à Seleção como uma promessa e um possível ponto de virada. Ele passou a ocupar o centro. Isso muda tudo, porque, em uma Seleção onde o centro não é o coletivo, o individual pode tanto fragilizar a equipe quanto a si mesmo. Isso acontece porque, sem um coletivo forte, o individual também se fragiliza.

Com Neymar, a Seleção deixou de ser um sistema equilibrado e passou a ser uma extensão do seu talento. Ele não apenas jogava; ele organizava o ambiente emocional do time. Quando jogava bem, o Brasil parecia acreditar em si mesmo. Quando não estava bem, o time perdia direção, como se a ausência de brilho central desorganizasse o coletivo. Poucos jogadores conseguem carregar esse tipo de responsabilidade sem afetar o clima geral do grupo. Essa centralização, sem uma estrutura emocional e intelectual sólida, cobrou um preço alto.

A pressão, antes dividida, passou a se concentrar. E essa concentração criou uma nova Seleção: brilhante em momentos individuais, mas mais frágil como organismo coletivo. O exemplo da Copa de 2014 reflete o trauma da lesão de Neymar, que expôs de forma brutal a fragilidade dessa centralidade. O 7 a 1 não foi apenas uma derrota; foi uma desintegração emocional de um time sem eixo. Em 2018, o problema se repetiu, mesmo com discursos de mudança. Em 2022, havia sinais de maturidade, mas a dependência estrutural de Neymar permanecia. Em 2026, o ciclo Neymar parece chegar ao fim, marcado por uma última Copa carregada de expectativa acumulada. E Neymar chega à sua quarta Copa mais fragilizado do que nas anteriores.

É preciso olhar para o aspecto psicológico dos períodos vitoriosos e fracassados da Seleção Brasileira. Pelé jogava como se o mundo não pudesse tocá-lo. Ronaldo oscilava como um vulcão, capaz de destruição e redenção em igual intensidade. Neymar viveu outra realidade: a era da hiperexposição. Ele passou a jogar não apenas contra adversários, mas contra narrativas, redes sociais, expectativas e um país inteiro projetando nele aquilo que não conseguia resolver.

Neymar parece encerrar sua passagem com a camisa da Seleção. O gol melancólico, de pênalti, contra a Noruega, soa menos como um lance e mais como símbolo de fim de ciclo. Não foi um gol de glória nem de redenção. Foi um gol com peso e silêncio ao mesmo tempo. Um momento que não explode, mas suspende, como se o próprio jogo reconhecesse que algo maior estava terminando ali. Talvez o pênalti contra a Noruega resuma a trajetória de Neymar na Seleção: foi uma passagem melancólica.

Pelé representou a continuidade de uma supremacia natural. Ronaldo representou explosão e redenção. Neymar representou a tensão constante entre expectativa e expectativa. Ao olhar em retrospecto, a Seleção não apenas mudou com ele; ela também não encontrou um novo eixo sólido. Ao mesmo tempo, Neymar acabou ocupando o papel de símbolo central e de carga emocional negativa dessa era. Ganhou brilho individual, mas perdeu sustentação coletiva. Ganhou criatividade fugaz, mas perdeu estrutura. Ainda assim, a Seleção permanece como a maior do futebol mundial, única com cinco títulos. E esse fato a era Neymar não apagará.

Por isso, o gol de pênalti de Neymar contra a Noruega não representa um fim triste da Seleção Brasileira. Representa um ciclo que se fecha. A Seleção entra em um processo de troca de pele. O desafio agora é saber se conseguirá renascer com a essência do futebol brasileiro construída por gerações anteriores à de Neymar. Que Neymar deixe a Seleção Brasileira em paz e vá viver sua vida.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Neymar: o cabeça de bagre mais estigmatizado do futebol



Por Adu Verbis

Enquanto torcedor que sempre se decepciona com os jogadores que o meu time, o Santos, contrata ou sobe da base com a fama de mais um raio, passei a classificar esses jogadores como bagre ou meio-boca. Com o tempo, passei a classificar certos jogadores como cabeça de bagre, principalmente depois de entrevistas em que o jogador fala, fala e não diz coisa com coisa; ou diante de fatos envolvendo um jogador que me fizeram pensar sobre a condição cognitiva desse atleta.

Bem, existe algo que me deixa perplexo: não sei quando passei a chamar Neymar de cabeça de bagre, no sentido de falar, falar e não dizer coisa com coisa, e também em relação à postura dele enquanto jogador e ser humano, apesar de que, desde a estreia no futebol profissional, sempre o considerei um craque em campo.

Contudo, fora de campo, o cabeça de bagre do Neymar não só me incomoda, enquanto torcedor santista, como também incomoda um batalhão de gente por mil e um motivos. Ele é um dos jogadores cabeça de bagre que mais geram controvérsia, e jogador bagre e cabeça de bagre é o que não falta, mas parece que Neymar supera qualquer outro jogador cabeça de bagre nesse aspecto.

Tenho que assumir que cabeça de bagre no futebol não é uma exclusividade do Neymar. Mas penso que, talvez, o Neymar seja um dos jogadores cabeça de bagre mais estigmatizados da história do futebol. Posso dizer que Pelé tinha uma cabeça de bagre, da mesma maneira o Messi, assim como o Cristiano Ronaldo tem uma cabeça de bagre, e outros tantos jogadores também.

No entanto, o cabeça de bagre do Neymar é o mais estigmatizado, a ponto de ser criticado tanto dentro de campo, mesmo em seu auge como craque, quanto fora de campo, com sua cabeça vazia e muitas vezes sem nenhum sentido, como se sofresse de alguma desconexão interna ou que ainda vivesse num estado mental de um menino.

Penso, sem me aprofundar no conceito, que talvez o termo latino puer aeternus, expressão que significa menino eterno e que é um conceito que descreve um padrão de personalidade, não uma doença, possa ser aplicado ao Neymar.

Pois, a expressão tem origem na Roma Antiga: era um epíteto, uma alcunha, dado a divindades jovens, especialmente ao deus Dionísio, ou seja, uma figura que simbolizava a juventude eterna. Sem falar que Zeus gesta Dionísio na própria coxa, o que simbolicamente é bem interessante, por significar uma coisa feita sem precaução. O estudioso Carl Jung incorporou o conceito de juventude eterna à sua teoria dos arquétipos, entendidos como padrões psicológicos universais presentes no inconsciente coletivo.

Por isso acredito que, ao falar de celebridades na era da economia da atenção, como o Neymar, o termo puer aeternus faz sentido, e a alcunha Menino Ney reforça que ele se comporta sem precaução como uma divindade que tem o direito à juventude eterna e a amoralidade.

Como todos sabem, no futebol, o que a torcida preza é a vitória, não importa se ela veio por meio de um bagre ou de um cabeça de bagre e se o autor do gol é ético ou não. Talvez a torcida seja o maior cabeça de bagre na história do futebol, que briga como animais primitivos ou mata por pura diversão e demarca espaço como primatas.

Assim como também existe a torcida cabeça, que preza pela inteligência ou é reflexiva, principalmente a torcida de classe média, que gosta de jogadores que soam comprometidos com causas sociais e filosóficas, jogadores que herdaram o estilo do Sócrates ou do Tostão. Dois jogadores que vêm da classe média, muito diferente da maioria dos jogadores brasileiros, que vêm dos rincões da pobreza e que os descasos da elite e do Estado estruturalmente os deixaram na pobreza.

Bem, o assunto deste texto é o bagre mais estigmatizado do futebol, o Neymar, mas não posso deixar de falar dos outros cabeças de bagre. Pelé, por exemplo, foi um craque incomparável dentro de campo e um cabeça de bagre fora dele. A vida pública do Pelé sempre deu o que falar, principalmente por causa da relação meio ambígua com a ditadura militar no Brasil (1964 -1985). Isso numa época em que alguns artistas, intelectuais e até poucos atletas de classe média criticavam o regime, o Pelé quase sempre preferiu ficar num discurso mais neutro, evitando bater de frente com o governo militar. Isso fez muita gente enxergá-lo como alguém “acima da política”, meio que vivendo num espaço da dividade, onde o futebol estaria separado dos problemas da vida real. Só que, na prática, o futebol nunca esteve fora da realidade social, ele também faz parte dela e acaba refletindo a estrutura de uma sociedade.

Quem criticava Pelé argumentava que sua enorme popularidade poderia ter sido utilizada para defender valores democráticos e denunciar violações de direitos humanos. Por outro lado, seus defensores lembram que ele era um atleta, não um líder político, e que pessoas negras e pobres que alcançavam projeção pública enfrentavam riscos concretos ao desafiar o sistema. O que não deixa de ser verdade.

Ao longo da vida, Pelé reforçou uma visão baseada no mérito individual, no trabalho duro e na disciplina, o que levou muitos a interpretar suas falas como conservadoras ou excessivamente otimistas em relação às oportunidades existentes no Brasil. Soma-se a isso a preocupação constante com a própria imagem pública - o caso do reconhecimento tardio de sua filha Sandra Regina reforçou essa impressão por muitos anos.

E o Messi? O jogador que muitos já colocam como o maior da história e acima de Pelé. Dentro de campo, é praticamente consensual como um dos maiores talentos de sua geração; mas sua atuação como figura pública fica muito aquém dessa dimensão. Messi nunca assumiu um papel intelectual ou político relevante, preferindo uma postura extremamente discreta e ambígua diante dos grandes debates que cercam o futebol e a sociedade - o que, para mim, o coloca também na categoria de cabeça de bagre fora de campo.

Acredito que a ascensão de Messi ocorre em um momento em que o futebol passa por profundas transformações: preparação física, nutrição, medicina esportiva e análise de desempenho ganharam um peso muito maior do que em gerações anteriores. Posso até dizer que Ronaldinho Gaúcho marcou a fronteira entre o futebol lúdico e o futebol representado por Messi, no qual o que importa são as estatísticas, um esporte mais científico, no qual os talentos passaram a ser desenvolvidos em estruturas especializadas.

A personalidade de Messi sempre foi marcada pela discrição, e a discrição, em si, não é um problema. Mas vejo nisso também um certo narcisismo discreto: ele sempre se coloca acima dos outros, apesar da aparente humildade, e por trás dessa imagem há um sujeito complexo que não se revela por inteiro. No campo político, praticamente não construiu uma trajetória relevante - uma escolha pela neutralidade, porém ambígua, semelhante à de Pelé, ainda que desenvolva atividades filantrópicas por meio da Fundação Leo Messi, raramente acompanhadas de discursos políticos ou ideológicos relevantes.

Vale lembrar que Messi foi diagnosticado com deficiência do hormônio do crescimento na infância, e que o Barcelona assumiu os custos do tratamento em suas categorias de base, um acompanhamento fundamental para seu desenvolvimento físico. Isso não explica sozinho sua carreira, mas ajuda a entender o contexto científico que sustentou o talento. Já falei em outro texto meu que a expressão corporal de Messi em campo carece da elegância divina de um Pelé ou de um Maradona. Ele se move como uma pulga. E a torcida o chama assim: la pulga.

Saio do Messi e penso no Cristiano Ronaldo. Sei que classificá-lo como cabeça de bagre pode até parecer um contrassenso, mas eu o coloco também no rol dos craques cabeças de bagre.

Ele se comporta como um jogador que faz palestra motivacional em campo, uma espécie de versão melhorada de um coach falastrão e narciso, demonstrando aos seus colaboradores e à torcida o que devem fazer para superar limites.

Cristiano talvez seja o caso mais evidente de um atleta que transformou a própria imagem em uma marca global - o extremo da construção da personalidade esportiva como espetáculo permanente. Seus gestos, comemorações, entrevistas e presença nas redes sociais transmitem uma imagem de autoconfiança levada ao limite, com pitadas de arrogância e, ao mesmo tempo, de insegurança. Por isso, assim como Neymar e Messi, ele também entra na categoria do menino eterno, de celebridades que servem de produto simbólico para a economia da atenção.

Sua percepção de vida gira em torno da superação individual: talento, sozinho, não basta, é o esforço diário, o treinamento obsessivo, os sacrifícios pessoais. Uma ética meritocrática segundo a qual o sucesso depende fundamentalmente da dedicação de cada um. No campo político, praticamente não existe como personagem público, e suas campanhas humanitárias - saúde, combate à fome, doação de sangue -acabam sempre centralizadas em sua própria imagem, evitando qualquer posicionamento que possa dividir sua audiência global. Essa centralidade no culto pessoal, para mim, colabora para torná-lo um cabeça de bagre a serviço da exploração comercial da própria imagem. E o mundo não se torna melhor ao cultuar Cristiano Ronaldo, Neymar, o Messi, ou mesmo ao Rei Pelé.

Voltando ao Neymar: eu o acompanho, esportivamente falando, desde que era moleque, ungido como “o novo Pelé” antes mesmo de completar a maioridade. Isso talvez já fosse uma sentença. Pelé carregou o peso de ser Pelé; Neymar recebeu, de saída, o peso de substituir um mito. Fomos nós, eu como torcedor, os jornalistas, os patrocinadores, que colocamos essa coroa na cabeça de Neymar antes do tempo, ansiosos por reviver uma glória. Quando o ídolo chega pronto na imaginação antes de chegar pronto no campo e para a vida, qualquer deslize deixa de ser apenas erro de jogador e passa a parecer traição a uma promessa, que não foi abortada, mas gestada na coxa.

Neymar foi o primeiro grande craque brasileiro formado sob a vigilância permanente das redes sociais. Pelé viveu sob o olhar dos jornais. Ronaldo Fenômeno, sob o da televisão. Neymar viveu sob o olhar incessante da internet. Cada queda virou meme. Cada festa virou debate internacional. Cada relacionamento virou julgamento e linchamento virtual. Cada declaração virou manchete antes mesmo de virar contexto e as circunstâncias reveladas.

Ao longo da carreira, Neymar falou sobre dinheiro, sobre fé, muitas vezes de modo dúbio. Falou sobre a importância da família, sobre aproveitar a vida e sobre a dificuldade de lidar com a pressão permanente. Ao fazer isso, deixou de ser apenas um atacante e passou a ser tratado como um personagem político e cultural. Para alguns, é autenticidade; para outros, sinal de imaturidade. Mas talvez seja simplesmente a forma como ele escolheu viver.

Não sei o que se esperava de Neymar. Talvez se esperasse que envelhecesse como um líder maduro, quase solene, à maneira de outros capitães históricos. Em vez disso, continuou parecendo um garoto que teve talento, tentando sobreviver a um mundo que exigia dele uma postura que ele não é capaz de sustentar plenamente. Quando sorri demais, é acusado de não levar o futebol a sério. Quando reclama, é visto como mimado. Quando responde às críticas, é considerado arrogante. Quando se cala, talvez revele sua verdadeira essência, intelectualmente vazia.

O que me intriga é: por que as falhas de Neymar ganharam um peso tão maior do que falhas semelhantes de outros grandes jogadores? Em que momento deixei de criticar o atleta Neymar para transformá-lo na personificação de tudo aquilo que considero errado? Não sei. Talvez porque nunca tenha julgado Neymar apenas pelo que fazia com a bola nos pés, e via nele o que não era para ser visto, porque não havia nada a esperar dele. Talvez tenha esperado mais do que, de fato, deveria.

Em torno de Neymar, o debate quase sempre deixou de ser sobre futebol e passou a ser sobre um ideal. Esperava-se não apenas um craque, mas um modelo de cidadão, de líder, de homem maduro. E Neymar jamais pareceu interessado em representar esse papel, mas isso porque ele não era e não é capaz, e nunca teve estrutura para isso. Talvez seja justamente aí que esteja a origem da régua implacável com que sempre escolhemos medi-lo.

Mas não quero terminar fingindo que toda a cobrança é injusta. Existe, sim, uma diferença real de postura: Neymar reclamou de forma mais visível, caiu mais vezes, se machucou em momentos decisivos e pareceu menos blindado emocionalmente em jogos de Copa do que outros jogadores. Isso é fato, não é só perseguição. A questão não é dizer que ele nunca errou; é perguntar por que o erro dele pesa mais do que o erro de outros, craques em campo e cabeças de bagre fora dele.

Ainda que pareça haver uma diferença entre criticar um jogador e transformar esse jogador em símbolo de tudo o que deu errado. Com Neymar, muitas vezes fiz a segunda coisa: o tornei símbolo de tudo o que deu errado. E, por isso, talvez nenhum jogador brasileiro tenha carregado uma expectativa tão pesada quanto ele, a ponto de se tornar um dos jogadores mais estigmatizados da história do futebol, quem sabe até mais estigmatizado do que Barbosa, o goleiro da Seleção Brasileira na final do Maracanãço, em 1950, que viveu injustamente responsabilizado por aquele resultado durante décadas. Mas Barbosa foi esquecido, e talvez Neymar, e Cristiano também, sejam esquecidos um dia. Enquanto isso, Pelé e Messi possam permanecer eternos.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Polarização ou o Terrorismo Intelectual da direita domina o século XXI?




No Brasil, teremos mais uma eleição para presidente da República em 2026, e o que mais se ouve é sobre a tal polarização. No debate público, frequentemente se associa esse fenômeno ao embate entre Lula/Petismo e o bolsonarismo, mas suas raízes antecedem a disputa entre os dois líderes, Lula e Bolsonaro. Ainda assim, foi a partir da eleição de 2018 e, sobretudo, da acirrada disputa de 2022 que a divisão entre petistas e bolsonaristas passou a ocupar o centro da vida política no Brasil, influenciando debates, relações sociais e a forma como grande parte do eleitorado enxerga o país. O termo polarização não somente tomou conta das pessoas mais simples, como também passou a fazer parte do discurso do jornalismo e dos especialistas em política.

Geralmente, a explicação mais difundida para definir a crise política e cultural do nosso tempo é a de que vivemos em uma era de polarização. A palavra polarização se tornou onipresente. Ela aparece para explicar eleições, conflitos ideológicos, disputas culturais, discussões familiares e até a forma como nos relacionamos nas redes sociais. Dessa forma, a polarização tornou-se um mote na narrativa do século XXI. Isso não quer dizer que, em séculos anteriores, não tenha havido polarizações. Porém, não existiam as redes sociais, que potencializam ideias inúteis.

Eu observo o mundo contemporâneo como um baiacu que reage a qualquer estímulo, e tudo diante desse baiacu parece ser polarizável. Contudo, não me convenço de que a polarização seja a explicação para o problema do século XXI. Talvez ela descreva uma parte do fenômeno, mas não sua essência. Penso que a polarização pressupõe a existência de dois polos radicais em disputa. E, no caso do Brasil, há uma questão relacionada ao bolsonarismo, que considero essencialmente contraditório: defende a liberdade, mas viola direitos, o que revela uma contradição interna. Já o petismo trabalha para que os direitos sejam mantidos e para que a liberdade seja coerente com as leis constitucionais. Logo, no caso da disputa política entre bolsonarismo e petismo, não caberia o termo polarização, mas os conceitos de coerência interna e falta de coerência interna.

O que vejo, porém, não é apenas a coexistência de opiniões opostas. O que vejo é uma disputa permanente para definir quais opiniões podem existir legitimamente no espaço público e quais devem ser excluídas dele. Por isso, penso que o verdadeiro fenômeno político e cultural do nosso tempo não seja a polarização, mas algo mais profundo: uma luta contínua pelo controle do discurso, seja ele coerente ou não. Por isso, acredito que o conceito de terrorismo intelectual oferece uma chave de interpretação mais apurada e adequada para compreender a realidade que o Brasil enfrenta com o fenômeno do bolsonarismo.

A expressão terrorismo intelectual se tornou conhecida graças ao jornalista francês Jean Sévillia, autor do livro "O Terrorismo Intelectual", publicado em 2000. Mas a ideia é muito mais antiga do que o livro. Sévillia foi herdeiro de uma tradição intelectual que remonta aos conflitos do pós-guerra e que procurava compreender como sociedades formalmente livres poderiam produzir formas de conformismo tão eficazes quanto aquelas encontradas em regimes considerados autoritários.

Nos anos 1940, George Orwell demonstrava preocupação com aquilo que chamava de ortodoxia intelectual. O problema não era apenas a censura estatal. O problema era a existência de ambientes culturais nos quais determinadas ideias se tornavam impensáveis. Orwell observava que a liberdade de expressão não desaparece apenas quando o Estado proíbe uma opinião. Ela também desaparece quando o custo social de expressar essa opinião se torna excessivo.

Essa preocupação também foi explorada por Hannah Arendt. Ao analisar os totalitarismos do século XX, ela mostrou que a dominação política não depende exclusivamente da violência física. Ela também depende da capacidade de moldar a percepção da realidade. O poder mais profundo não é aquele que controla corpos, mas aquele que controla as categorias por meio das quais as pessoas interpretam o mundo.

O tempo passa, e a voz pode continuar a mesma, mas os cabelos e as ideias não. Nos anos 1950, Raymond Aron aprofundou essa reflexão no livro "O Ópio dos Intelectuais". Ele observava que parte significativa da intelectualidade francesa aplicava critérios morais diferentes a regimes políticos diferentes. Para ele, muitos intelectuais denunciavam, com razão, os crimes do fascismo, mas demonstravam uma tolerância surpreendente diante dos crimes cometidos por regimes comunistas. O problema identificado por Aron não era apenas político. Era intelectual. Certas ideias eram submetidas ao escrutínio constante, enquanto outras eram protegidas por uma espécie de imunidade moral, como hoje vemos nas ações de Israel na Palestina. Israel, nesse contexto, seria protegido por uma imunidade moral que vai além do campo intelectual.

Não posso esquecer Karl Popper, que alertou para os perigos das sociedades intelectualmente fechadas, incapazes de submeter suas próprias crenças à crítica. Esses alertas de Popper se aproximam, na minha interpretação, do sionismo, que não toleraria ser submetido à crítica. Jean-François Revel, por sua vez, retomaria essa tradição ao denunciar a complacência de parte das elites intelectuais ocidentais com regimes autoritários de esquerda. Contudo, hoje, a direita também é vista por muitos como complacente com ações sionistas e com o fascismo. Portanto, em todos esses autores existe uma preocupação comum: o desaparecimento gradual do livre debate, não por meio da força, mas através da pressão cultural, moral e simbólica.

Foi nesse contexto que Sévillia utilizou a expressão "terrorismo intelectual". Seu argumento era relativamente simples. Na França do pós-guerra, uma determinada elite intelectual teria adquirido o poder de definir quais opiniões eram respeitáveis e quais deveriam ser marginalizadas. Não era necessário prender dissidentes. Bastava ridicularizá-los, desqualificá-los ou expulsá-los simbolicamente da comunidade dos interlocutores legítimos. Nesse sentido, podemos encontrar, na expulsão simbólica, alguma semelhança com a cultura do cancelamento ou do linchamento virtual.

Portanto, entendo terrorismo intelectual como a utilização de mecanismos simbólicos, morais, reputacionais ou institucionais destinados a elevar o custo da discordância até o ponto em que a autocensura se torne mais racional do que o debate. Trata-se de um fenômeno que não elimina formalmente a liberdade de expressão, mas reduz seu exercício prático ao transformar a divergência em risco e em tensões políticas, que hoje passaram a ser chamadas de polarização.

Durante décadas, a crítica ao que se chamava de terrorismo intelectual esteve associada principalmente à direita. Segundo os intelectuais de direita, o terrorismo intelectual consistia em uma prática exercida por intelectuais de esquerda, jornalistas, professores universitários e produtores culturais para constranger ou silenciar opiniões divergentes. Talvez essa descrição tenha capturado parte da realidade daquele período histórico. Não obstante, a própria direita frequentemente relativizava ou ignorava os elementos opressivos presentes em suas próprias demandas e práticas políticas e intelectuais.

Mas o problema é que, passado aquele período de predominância intelectual da esquerda, muitos dos intelectuais de direita que denunciaram esse mecanismo, e o denominaram terrorismo intelectual, passaram a reproduzi-lo quando conquistaram poder cultural e influência intelectual.

É aqui que vejo que a discussão se torna particularmente relevante para compreender o presente por meio do termo polarização. Pois existe uma diferença fundamental entre o mundo analisado por Aron, Revel e Sévillia e o mundo em que vivemos hoje.

Os autores do pós-guerra observavam formas de conformidade intelectual produzidas por instituições relativamente delimitadas. Universidades, editoras, jornais e círculos intelectuais funcionavam como filtros de legitimidade. O poder de definir quais ideias seriam pautadas e consideradas respeitáveis encontrava-se concentrado em grupos relativamente pequenos, mas suas ideias reverberavam para além dos próprios grupos, o que servia de combustível para a guerra cultural.

Mas o século XXI alterou radicalmente essa estrutura. As redes sociais não destruíram os mecanismos descritos por esses autores. Ao contrário, multiplicaram sua escala e sua velocidade. O que antes dependia da autoridade de um professor, de um editor, de um jornalista ou de um intelectual midiático passou a ser exercido por milhões de indivíduos simultaneamente conectados. A coerção simbólica deixou de ser um monopólio das elites intelectuais para se tornar uma prática distribuída em massa, que alimenta o que se chama de polarização, que, no fundo, é o velho terrorismo intelectual.

Essa transformação produziu um fenômeno paradoxal. Nunca houve tanta liberdade formal de expressão. Nunca foi tão fácil publicar uma opinião, alcançar uma audiência global ou contestar uma narrativa dominante, mesmo sem se ter um conhecimento profundo. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil organizar campanhas de constrangimento, linchamentos reputacionais, boicotes ou processos coletivos de estigmatização, que se assemelham ao que a direita chamava de terrorismo intelectual. Hoje, é possível chamar isso de linchamento intelectual ou cancelamento cultural, sem falar no poder dos algoritmos, que podem favorecer sicrano ou beltrano.

Hoje vivemos sob uma forma de vigilância difusa. As opiniões são registradas, arquivadas e permanecem acessíveis. Qualquer declaração pode ser retirada de contexto, reinterpretada e utilizada como evidência moral contra seu autor. O julgamento deixou de ser episódico e tornou-se contínuo. Muitas vezes, ideias intelectualmente frágeis tornam-se perigosas pela falta de aprofundamento dos interlocutores quanto aos riscos das próprias ideias.

A palavra terrorismo, utilizada por Sévillia em sentido metafórico, torna-se relevante justamente porque descreve um mecanismo baseado no medo e no perigo atribuído às ideias. O terrorismo clássico busca alterar comportamentos por meio do medo da violência física. O terrorismo intelectual busca alterar comportamentos por meio do medo da exclusão simbólica, da destruição reputacional, da marginalização profissional ou do ostracismo social. Em ambos os casos, o objetivo não é convencer, mas condicionar certas condutas em detrimento de outras.

Isso não significa que toda crítica pública constitua terrorismo intelectual. A crítica é parte essencial da democracia. A crítica não é polarização; é maturidade de quem a faz e de quem reconhece quando está errado. O problema surge quando a finalidade deixa de ser examinar ideias e passa a ser aumentar o custo de sustentá-las. A diferença é decisiva. Uma sociedade livre depende do confronto de argumentos. Uma sociedade dominada pelo terrorismo intelectual depende da produção de medo ou da disseminação de inverdades para manipular o debate e conduzi-lo de forma favorável àqueles que produzem medo e apresentam falsidades como verdades.

Talvez a maior ironia histórica seja que os mecanismos denunciados por Aron, Revel e Sévillia não permaneceram confinados ao campo ideológico que eles criticavam. A esquerda e a direita passaram a utilizar estratégias semelhantes. Ambas aprenderam a transformar adversários em categorias morais. Ambas aprenderam a substituir o debate pela rotulação. Ambas descobriram que controlar a linguagem é uma forma de controlar a realidade. E denominar a realidade como polarizada é uma forma intelectual e política de não explicar os próprios atos.

Quando um indivíduo deixa de ser refutado e passa a ser definido por um rótulo, o diálogo cede lugar à disciplina. A pergunta deixa de ser "o que você pensa?" e passa a ser "quem você é?". A consequência é que conceitos políticos deixam de funcionar como instrumentos de análise e passam a operar como mecanismos de exclusão, porque o objetivo passa a ser a ocupação de espaço político e cultural.

Vou tomar como exemplo o debate sobre a classificação de organizações criminosas como grupos terroristas. Independentemente da posição que cada um adote sobre a questão, é impossível ignorar que a disputa não é apenas jurídica. Ela é também política e simbólica. Quando uma categoria deixa de ser objeto de investigação e passa a funcionar como teste de lealdade ideológica, o debate se estreita. A questão deixa de ser "qual definição descreve melhor a realidade?" e passa a ser "de que lado você está?". Do lado do polo A ou do polo B? E assim se cria a atmosfera de polarização política sem a devida explicação dos atos e das ideias.

É exatamente nesse momento que o terrorismo intelectual se manifesta. O aspecto mais inquietante dessa transformação é que ela não pertence mais a uma ideologia específica. A crítica formulada por Aron, Revel e Sévillia contra determinados setores da esquerda tornou-se, paradoxalmente, uma crítica aplicável a qualquer grupo que consiga acumular poder cultural suficiente para transformar discordância em heresia e em capital político.

Penso que essa seja, talvez, a principal característica do nosso tempo. Não estamos apenas diante de uma sociedade polarizada. Estamos diante de uma sociedade que disputa incessantemente o monopólio da legitimidade moral. Uma sociedade em que diferentes grupos procuram determinar quais opiniões podem circular sem punição e quais devem ser punidas e excluídas do espaço público.

O verdadeiro conflito contemporâneo gira em torno do poder de definir a realidade. Quem controla as categorias controla os julgamentos. Quem controla os julgamentos controla os limites do discurso legítimo. E quem controla os limites do discurso legítimo exerce uma das formas mais sofisticadas de poder político.

Por isso, acredito que o conceito de terrorismo intelectual permanece atual. Mais do que isso: acredito que ele se tornou mais relevante hoje do que na época em que foi formulado. Os intelectuais do pós-guerra observavam mecanismos de conformidade presentes em círculos relativamente restritos. Nós vivemos em um ambiente em que esses mecanismos foram ampliados por tecnologias capazes de atingir bilhões de pessoas simultaneamente.

Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que estamos apenas polarizados. A polarização é apenas a manifestação superficial. O fenômeno mais profundo é a luta permanente pelo controle das categorias por meio das quais pensamos, julgamos e interpretamos a realidade, transformando-a em bem simbólico e cultural.

É possível pensar que o terrorismo intelectual talvez seja a essência do conflito político e cultural atual. Porém, o nome dado hoje é polarização. O que, por si só, demonstra uma perda da consciência das próprias ideias e dos próprios atos.


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