sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A Moral Epistemológica do Jornalismo Progressista dianto do gol

 


Por Adu Verbis

Texto a partir do artigo de Guga Chacra: “O regime do Irã e a causa palestina” – 15/01/2026

Ao ler o artigo de Guga Chacra, publicado em 15 de janeiro de 2026, reconheço imediatamente um esforço, tanto em seus textos quanto no jornalismo contemporâneo: o de fazer malabarismo para evitar o maniqueísmo. Mas nem todos conseguem evitar o maniqueísmo. O autor critica o regime iraniano, mas não absolve Israel da ocupação da Cisjordânia; reconhece a legitimidade da causa palestina, mas separa essa causa da instrumentalização feita por grupos armados e por uma teocracia autoritária. Esse esforço em equilibrar o texto para não deixá-lo com cara maniqueísta é real e merece reconhecimento. O mérito está no esforço. Vamos ler um trecho do artigo escrito pelo jornalista Guga Chacra:

"A queda do regime do Irã seria uma das melhores notícias para palestinos, libaneses e israelenses. As ações da ditadura iraniana afetaram a soberania libanesa através do Hezbollah, prejudicaram a justa causa palestina e apavoraram Israel com ameaças de destruição do país. Pode parecer um contrassenso quando falo do Líbano e da Palestina para quem acompanha pouco o cenário geopolítico do Oriente Médio e imagina equivocadamente que os aiatolás ajudaram essas duas nações árabes."

Ainda assim, é justamente nesse ponto, entre esforço e equilíbrio, que identifico o que considero o problema central do texto. Não se trata de erro factual, nem de alinhamento ideológico grosseiro, mas de algo mais profundo: o artigo está contaminado pelo que chamo de moral epistemológica, muito comum no jornalismo que deixa transparecer uma veia progressista, como se ser progressista fosse coisa de seres especiais, cujas percepções estariam além do tempo e do espaço. Pois bem, contei a piada, e agora preciso explicá-la.

Entendo por moral epistemológica o regime de conhecimento no qual valores morais previamente definidos, como civilidade, progresso, direitos humanos e democracia liberal, passam a organizar quais fatos históricos são considerados relevantes, quais experiências são relativizadas e quais consequências são tratadas como aceitáveis ou temporárias. Trata-se da ética de quem acredita que possuir a resposta moral correta autoriza antecipar o futuro, mesmo quando o passado insiste em demonstrar que essa moral epistemológica não é capaz de produzir um mundo maravilhoso.

Voltemos ao artigo de Guga Chacra. O texto parte de uma tese sedutora, muito peculiar ao jornalismo dito progressista: a queda do regime iraniano seria uma boa notícia para palestinos, libaneses, israelenses e, sobretudo, para os próprios iranianos. A crítica ao papel do Irã no apoio ao Hamas e ao Hezbollah é consistente. O regime iraniano, de fato, não promove soberania palestina nem estabilidade libanesa; instrumentaliza causas legítimas para fins ideológicos e geopolíticos, frequentemente à custa das populações. Até aqui, acompanho o argumento sem reservas, mas não posso deixar de acrescentar que o mundo árabe também não promove soberania palestina nem estabilidade para os palestinos.

Veja este trecho do artigo, que carrega toda uma aura de neutralidade analítica, mas que, no fundo, revela apenas um alinhamento com ideias de civilidade do Ocidente:

"Não houve nenhuma ação da ditadura de Teerã que tenha beneficiado os palestinos. Aliás, a teocracia dos aiatolás nunca quis ajudar a construir uma nação palestina e, sim, teve como objetivo pregar a destruição de Israel, muitas vezes adotando tons antissemitas."

Vejo, então, que o problema do artigo surge quando essa crítica flutua no vácuo de ideias e de histórico. Em nenhum momento o texto confronta, de maneira central, a pergunta que deveria ser incontornável para qualquer jornalismo progressista: quando a queda de regimes ditos hostis aos Estados Unidos e a Israel trouxe benefícios reais aos povos do Oriente Médio?

A Líbia não é um exemplo isolado, mas uma evidência estrutural. Antes de 2011, não era uma democracia, mas era um Estado funcional, com indicadores sociais elevados para os padrões regionais. Após a intervenção liderada pelos Estados Unidos e pela OTAN, o país foi reduzido a um território fragmentado, dominado por milícias, tráfico humano e guerra civil permanente. Não houve liberdade, não houve democracia, não houve reconstrução institucional. Houve colapso.

O mesmo padrão se repete no Iraque, no Afeganistão e, em graus diferentes, na Síria. Em todos esses casos, a retórica da libertação conviveu com a destruição do Estado, a erosão da soberania e a multiplicação do sofrimento humano. Quando esse padrão se repete de forma tão consistente, deixa de ser contingência e passa a ser aprendizado histórico. Ignorá-lo não é neutralidade analítica; é uma escolha epistemológica com implicações morais profundas.

É aqui que aparece a contradição do jornalismo progressista (seja de esquerda ou de direita): ele é corretamente implacável com ditaduras não alinhadas ao Ocidente, mas estranhamente indulgente com o histórico destrutivo das democracias liberais quando estas projetam poder fora de suas fronteiras. O autor menciona, de passagem, o risco de guerra civil ou de caos no Irã pós-regime, mas trata esse risco como nota de rodapé, não como centro da análise. No entanto, defende o Líbano de modo simplista e atribui as causas do colapso libanês quase exclusivamente a Teerã.

"O Líbano, única democracia do mundo árabe, também sofreu enorme impacto negativo de ações do regime de Teerã em seu território."

Essa assimetria não é casual. Ela decorre de uma confiança persistente naquilo que chamo de receita de civilidade: a crença de que, uma vez removido o obstáculo autoritário, sociedades caminham naturalmente em direção a um modelo normativo previamente definido. Quando isso não acontece, o erro nunca é da receita, mas da realidade, que talvez ainda não amadureceu, ou das alternativas, que teriam sido mal implementadas ou estruturalmente frágeis.

Essa é a falha central da moral epistemológica nos pregressistas: bons valores passam a substituir evidências históricas. O sofrimento previsível vira custo transitório, enquanto a intenção declarada ganha status de critério de verdade. O resultado é uma análise que parece equilibrada, mas repousa sobre uma esperança abstrata, não demonstrada empiricamente e que, no limite, cumpre apenas um papel representativo para progressistas que, quando o bicho pega, não viram bucha de canhão e permanecem seguros em seus territórios protegidos.

Aqui não se trata de defender o regime iraniano. Trata-se de reconhecer que o mundo real raramente oferece escolhas entre ditadura e liberdade, mas frequentemente entre ordem autoritária e caos violento. E, até agora, sempre que os Estados Unidos atuaram como agentes dessa transição no Oriente Médio, o caos venceu. Vence porque os EUA não conseguem criar um mundo progressista fora de suas fronteiras e, paradoxalmente, essa pretensão civilizatória começa a corroer o próprio projeto de poder americano. E o jornalista fecha o artigo desejando algo que, no fundo, é difícil acreditar que realmente deseje:

"E o ideal seria que essa queda ocorresse sem intervenção estrangeira e, sim, através de protestos pacíficos da população iraniana ou de uma transição política."

Portanto, a moral epistemológica, quando reduzida a boas intenções, frequentemente se volta contra o próprio rigor que deveria sustentar. Em nome de uma ética declarada, ela suspende a responsabilidade pelo que já se sabe. Contra isso, exige-se que a história recente não seja tratada como ruído, mas como evidência normativa. Exige-se que a crítica ao autoritarismo seja acompanhada do mesmo rigor na análise das alternativas oferecidas pelo poder hegemônico; alternativas que, na prática, não se apresentam senão como promessa abstrata seguida de caos, no qual as boas intenções acabam por se diluir.

Para fechar este papo estranho sobre gente normal, mas se comporta de maneira estranha, digo que o jornalismo progressista encena autonomia crítica em um campo onde não possui autonomia estrutural real. Sem esse ajuste de moral epistemológica, o jornalismo progressista não corrige a barbárie que denuncia; limita-se a reorganizá-la sob um vocabulário que promete civilidade, simulando uma autonomia crítica que não possui.

E, diante do gol, seguirá errando. Não por falta de chance, mas por insistir em falar como sujeito autônomo em um jogo cujas regras não controla. Erra o gol porque nunca foi ele quem escolheu onde as traves estariam. Autonomia discursiva sem autonomia estrutural é apenas performance moral.

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