quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Literatura e o Feminicídio



Por Adu Verbis

Durante anos, como escritor, escrevi sobre a violência e, sobretudo, sobre a violência em que a mulher sempre fora o mote. Eu escrevia acreditando que nomear o horror fosse uma forma de interrompê-lo, como se cada palavra pudesse acender uma luz suficiente para afastar alguém do abismo da violência. Havia, nisso, uma ponta de denúncia e de esperança, talvez ingênua, mas era uma ingenuidade sincera: a de que escrever pudesse salvar.

Cada conto, cada romance carregava essa expectativa frágil. Eu escrevia imaginando que a literatura pudesse suspender o golpe, atrasar o grito, romper o silêncio que havia em torno da violência contra a mulher. Mas, enquanto escrevia, algo em mim remoía, alertando que o que eu fazia também podia ser uma forma de incentivar a violência. A escrita, então, transformava-se em culpa. Culpa por narrar a violência e, ao mesmo tempo, por transformá-la em literatura, por converter em forma estética uma dor real, cotidiana, irrecusável e de uma dimensão inenarrável.

No início, tentei acreditar que essa culpa fosse apenas o preço de quem decide olhar diretamente para o horror e aplicar nele a estética do distanciamento, de modo que pudesse tocar o leitor com a realidade da violência contra a mulher. Mas a culpa crescia em mim, não no leitor. Cresceu quando ficou evidente que os livros não interrompiam nada. Permaneciam nas prateleiras, intactos. Poucos eram lidos. E, fora da ficção, a violência contra a mulher só aumentava. Os números subiam, os nomes se acumulavam, os corpos viravam estatística, e nenhuma lei parecia suficiente para conter esse avanço.

Pois bem, nenhum dos contos ou livros que escrevi interrompeu um golpe de faca, estrangulamento ou um tiro. Nenhuma frase, mesmo romantizada, devolveu alguém à vida. A violência seguiu seu curso, brutal e autônomo, indiferente à denúncia literária e, sobretudo, indiferente à minha escrita, violenta e, ao mesmo tempo, ingênua.

Por um momento, pensei que, se quase ninguém lia meus livros, talvez não houvesse de minha parte responsabilidade alguma pela violência contra a mulher. Se os livros não produziam efeito, também não poderiam produzir dano. Mas essa ideia não trouxe alívio. Eu não escrevo do vazio. Não sou um escritor isolado do mundo. Sou parte de uma sociedade e um ser que também produz e gera violência.

O incômodo apenas mudou de lugar. A escrita não alimentava diretamente a violência contra a mulher, mas também não a enfrentava. Tornava-se irrelevante diante de uma realidade que se impunha sozinha e era mais forte do que qualquer literatura cheia de pretensões estéticas e políticas. Contudo, admitir isso foi difícil: talvez eu tivesse superestimado o alcance da literatura. Talvez tivesse confundido denúncia com transformação e, ao mesmo tempo, estivesse longe de denunciar e ainda mais distante da possibilidade de transformação.

A culpa, então, mudou de forma. Já não era apenas culpa por escrever mulheres mortas de modo banal e recorrente, mas culpa por ter acreditado, durante tanto tempo, que escrever já fosse um gesto político suficiente. Passei a me perguntar se a repetição constante da violência por meio estético não acabava por normalizar o horror. Se o excesso de imagens não diluía o choque. Se a familiaridade não tornava a violência mais suportável.

Às vezes, cheguei a pensar que o silêncio parecia mais ético. Em outras, o silêncio parecia cúmplice. Mas calar também assombra. O silêncio absoluto não protege ninguém; apenas deixa a violência sem testemunho. Ainda assim, escrever sobre o assassinato de mulheres começou a me parecer um gesto ambíguo, situado entre a tentativa de testemunhar o feminicídio cotidiano e o risco de estetizá-lo.

Hoje, esse paradoxo permanece em mim, sem solução. A escrita nasceu como denúncia, mas o sentimento é de falha. A intenção era gritar e pedir ajuda, mas ninguém foi salvo. A violência continuou a crescer, com ou sem os meus livros. O que mais dói não é o fracasso literário, mas a consciência de que olhar para o abismo cria uma responsabilidade que não se sustenta sozinha. Talvez o erro tenha sido acreditar que a forma, por si só, fosse enfrentamento.

Enquanto isso, o feminicídio atinge patamares cada vez mais altos. Não por causa da literatura, mas apesar dela. A denúncia circula por outros meios, mais diretos, mais urgentes, mais políticos e mais organizados. Ainda assim, a violência não diminui. Isso sugere que o problema não está apenas na maneira de denunciar, mas na ausência de um compromisso real com a transformação. Denunciar não basta quando a estrutura social que produz a violência permanece intacta, protegida, funcional.

As mulheres têm o direito absoluto de denunciar, de narrar, de escrever, de transformar a própria experiência em palavra, literária, política ou íntima. A denúncia pode ser sobrevivência, memória, resistência. O que não pode existir é a exigência de que essa tarefa recaia apenas sobre as mulheres. A denúncia não tem resultado quando a omissão coletiva é quase absoluta.

Quando a violência é narrada e denunciada apenas pelas mulheres, a responsabilidade se desloca silenciosamente. O problema passa a parecer delas: íntimo, individual, quase privado. A denúncia é um direito. A transformação, não. A transformação é uma responsabilidade coletiva. Sem isso, cada relato permanece solitário diante de um sistema que continua intacto, produzindo violência com regularidade, enquanto a literatura, a política e a lei orbitam o dano sem conseguir, de fato, interrompê-lo.

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