Por Adu Verbis
O assunto aqui não é o livro The Female Man (O Homem-Fêmea – O Homem Feminino), de Joanna Russ, mas mulheres filósofas. No caso do livro de Russ, trata-se de um romance de ficção científica feminista. Nele, quatro mulheres vêm de realidades paralelas diferentes, e cada uma representa uma organização social distinta.
Uma vive em um mundo muito parecido com os Estados Unidos dos anos 1970. Outra vem de uma sociedade futurista onde os homens não existem e a reprodução ocorre por tecnologia. Uma terceira habita um mundo alternativo em que uma guerra entre homens e mulheres moldou a sociedade. Já a quarta vive em uma linha do tempo semelhante à nossa, mas com diferenças históricas.
Mas, como me proponho a falar de mulheres filósofas, a escritora Joanna Russ pode entrar como um prefácio, por sua ideia de luta e por suas propostas ao feminismo. Em seu romance há um trecho que considero emblemático por seu caráter simbólico, que invoca o conflito do sujeito diante do objeto. Em filosofia, podemos dizer que o objeto é qualquer realidade investigada em um ato cognitivo, apreendida pela percepção e/ou pelo pensamento, situada em uma dimensão exterior à subjetividade cognoscente.
"I didn’t and don’t want to be a ‘feminine’ version or a diluted version or a special version or a subsidiary version or an ancillary version, or an adapted version of the heroes I admire. I want to be the heroes themselves."
"Eu não quis – e não quero – ser uma versão ‘feminina’, nem uma versão diluída, nem uma versão especial, nem uma versão subsidiária, nem uma versão acessória, nem uma versão adaptada dos heróis que admiro. Eu quero ser os próprios heróis."
Ao pensar na história da filosofia, não posso deixar de lado que, durante muito tempo, ensinaram filosofia quase exclusivamente como algo feito por homens: Platão, Aristóteles, Immanuel Kant, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, entre outros. Como se o pensamento tivesse sido uma dádiva concedida apenas aos homens.
Entretanto, ao conhecer as mulheres filósofas que atravessam a Antiguidade até os dias de hoje, compreendo, apesar das minhas limitações, que não se trata apenas de incluir mulheres na história. Trata-se de reconhecer que elas mudaram as perguntas, os métodos e os próprios limites da filosofia: um espaço majoritariamente ocupado pelo homem que, como animal político, não concedia lugar às mulheres.
Portanto, quando entro na sala imaginária da filosofia, sento, presto atenção e interpreto os ecos. Eu as escuto. Sim, eu escuto as filósofas. Elas não são silenciosas; colocaram barreiras acústicas para vedar suas vozes. E quando percorro a história da filosofia, não caminho sozinho. Eu as escuto, não como notas de rodapé, mas como vozes que atravessam as barreiras acústicas dos séculos.
Escrever sobre elas é, para mim, um exercício de escuta e de memorização da subjetividade cognoscente. Cada palavra é como uma tautologia que busca uma teleologia.
Hipátia: "A razão também tem corpo"
Se me aproximo de Hipátia de Alexandria, eu a escuto dizer:
"A razão não pertence a um império, nem a uma religião. Ela é prática de liberdade."
Então interpreto que Hipátia quis dizer que a razão é a causa da liberdade. Ou seja, a razão fundamenta a liberdade. Com Hipátia aprendo que pensar é um ato voltado para a apreensão cognitiva da realidade.
Sua vida me lembra que a filosofia nunca foi neutra, que o corpo com as vestes da filósofa, exposto à violência, revela que o conhecimento sempre ameaça estruturas de poder. Hipátia não apenas ensinou matemática e neoplatonismo. Ela encarnou a ideia de que a racionalidade pode ser um ato de resistência.
Hildegard e Teresa: "A experiência também é pensamento"
Ao escutar Hildegard von Bingen e Teresa de Ávila, percebo que a filosofia não se limita à lógica argumentativa. Elas parecem dizer:
"O interior também é território filosófico."
Elas expandem o conceito de conhecimento. O corpo, a visão, o êxtase, a introspecção, tudo isso é forma de reflexão. Ensinam que a experiência vivida pode ser um modo rigoroso de pensar.
Wollstonecraft e Taylor: "Igualdade não é concessão"
Quando leio Mary Wollstonecraft e Harriet Taylor Mill, sinto a urgência política:
"Não pedimos favores. Exigimos justiça."
Elas deslocam o debate: se a razão é universal, por que a educação e os direitos não são? Ao escutá-las, entendo que o Iluminismo só pode ser coerente se incluir as mulheres. Elas tensionam a própria modernidade.
Beauvoir: "Tornar-se é político"
Com Simone de Beauvoir, algo se rompe dentro de mim. Sua voz ecoa como se dissesse que a mulher começa no momento em que se reconhece como tal, mediante seu posicionamento existencial:
"Não se nasce mulher, torna-se."
Ela me obriga a perceber que identidade não é destino biológico, mas construção histórica. Beauvoir ensina que a opressão se infiltra na formação do sujeito. Ao dizer isso, altera a ontologia da diferença sexual. Retira o véu da naturalização.
Arendt: "Liberdade acontece entre nós"
Quando escuto Hannah Arendt, a filosofia se torna espaço público:
"A liberdade não é um estado interior. Ela surge quando agimos e falamos entre iguais."
Arendt lembra que pensar é responsabilidade. Que o mal pode nascer da ausência de reflexão. Que a política é condição de humanidade. Ela ensina que o mundo é algo que construímos juntos ou destruímos juntos.
Nussbaum e Butler: "Universalizar ou desconstruir?"
O debate contemporâneo coloca diante de duas vozes intensas.
Martha Nussbaum parece dizer:
"Sem princípios universais, não há justiça."
Ela insiste que precisamos de critérios objetivos para garantir dignidade. A liberdade, para ela, exige condições materiais reais.
Já Judith Butler sussurra, de forma incisiva:
"Cuidado com o universal. Ele pode excluir silenciosamente."
Butler ensina que o sujeito é produzido por normas. Que identidade é performativa. Ela desmonta aquilo que parecia sólido.
Entre elas, sinto a tensão: precisamos de fundamentos ou precisamos desconstruí-los?
No entanto, na América Latina "A modernidade tem feridas"
Quando volto o olhar para a América Latina, percebo algo fundamental: a modernidade é um corpo cheio de feridas.
Quando escuto Lélia Gonzalez, entro no território da representatividade:
"Não há gênero sem raça. Não há feminismo sem enfrentar o racismo."
María Lugones aprofunda:
"O próprio sistema de gênero é produto da colonização."
E Silvia Rivera Cusicanqui confronta:
"A epistemologia europeia não é o único modo de conhecer."
Por fim, Djamila Ribeiro lembra:
"Quem fala? De onde fala? Quem é silenciado?"
Mas também escuto Sueli Carneiro. Sua voz não pede licença, ela desvela. Ensina que o racismo não é um desvio moral, mas uma engrenagem estruturante da sociedade brasileira. Que a democracia racial foi uma narrativa conveniente para manter hierarquias intactas.
Com Sueli compreendo que não basta falar de opressão de forma abstrata. É preciso nomear o epistemicídio: a morte simbólica dos saberes negros. A exclusão não é apenas econômica ou política, mas também cognitiva. Quem não é reconhecido como sujeito de conhecimento é condenado ao silêncio antes mesmo de falar.
Com elas percebo que a filosofia não pode ignorar a colonialidade. Não pode fingir neutralidade. Elas ampliam a crítica: não basta questionar gênero; é preciso questionar a própria estrutura da modernidade e as hierarquias raciais que a sustentam.
O que mudou e o que muda em mim ao escutar essas filósofas, percebo que não se trata apenas de incluir nomes na história. Elas mudaram:
Mas, sobretudo, mudaram a mim. Ensinaram que a filosofia não é apenas busca por uma verdade abstrata; é disputa sobre quem pode existir plenamente como humano.
Muitas vezes não queremos ser versões adaptadas dos heróis que admiramos. Queremos ser os próprios heróis. Porque, no ato de ser o herói, existe a possibilidade de mudar o jogo por meio da epistemicidade do sujeito em conflito com o objeto.
Hoje, quando penso na filosofia, não escuto apenas uma tradição linear. Eu escuto um coro. Às vezes em harmonia, às vezes em dissonância e contraponto. E é justamente nesse conflito que a filosofia continua viva, dizendo muito, inclusive quando tantas foram silenciadas e ainda continuam a ser silenciadas. Isso porque o social não gera equilíbrio e sim desequilíbrios.
No fundo, o importante é gritar, falar ou mesmo poetizar os dramas e as tragédias. O mundo, no fundo, é cego, mas tem ótima audição e boa dicção. Portanto, ver é um ato difuso, cujos contornos não estão nitidamente definidos. E, sobretudo, continuar ocupando os espaços, já que uma das frases mais sábias da filosofia diz que o ser humano é um animal político.
Podemos entender a frase de Aristóteles como a ideia de que o ser humano é, por natureza, um ser social, feito para viver em comunidade. Mas a frase vai além da obviedade de que o ser humano é um ser que vive em comunidade. A frase "o ser humano é um animal político" também se aproxima de Friedrich Nietzsche. Em Além do Bem e do Mal, onde ele diz:
"Quem combate monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro. E, se olhas longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti."
Aqui penso que o ato político é muitas vezes uma tomada narcísica diante do próprio reflexo: o meio e, portanto, a política e a filosofia acabam sendo espelhos cognoscentes, que tanto podem levar a uma razão que sirva de estrutura para a liberdade quanto a uma irracionalidade capaz de produzir aprisionamento. E a mulher, enquanto animal político, precisa cirandar, ou seja, dançar em roda, de mãos dadas, em movimentos coletivos e, se possível, harmoniosamente, talvez porque o social nunca produz equilíbrio.

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