sexta-feira, 24 de abril de 2026

Nada é Pessoal - Quatro Histórias Quase Pessoal





Por Adu Verbis

PREFÁCIO 

   Antes de entrar nas novelas que compõem este romance, talvez valha a pena o leitor ter em mente alguns aspectos do processo de criação e o contexto em que foram escritas, sem antecipar seus desdobramentos. Nada é Pessoal é um livro composto por quatro novelas: O Ensaio, Nada é Pessoal, O Amor Não Vem de Vênus e Os Punheteiros. 

   Esses textos foram escritos entre 1999 e 2008, período em que a criação artística ainda se movia com relativa liberdade diante do que era considerado certo ou errado no contexto artístico e literário, e antes do que hoje se entende como cultura do cancelamento ou linchamento moral

   Naquele momento, as noções estéticas e políticas de certo e errado estavam mais associadas a diferentes visões de mundo do que a um patrulhamento estético e político, que era menos estruturado do que o que hoje se observa na cultura do cancelamento e no linchamento moral. Assim, indivíduos classificados como incorretos julgavam suas ações como legítimas ou como uma forma de liberdade de expressão, enquanto aqueles que se viam como corretos acreditavam que suas ações estéticas e políticas, tidas como corretas, contribuíam para a melhoria da sociedade e do mundo.

   Com a ampliação do espaço público, impulsionada pelas redes sociais, o debate se intensificou.Vozes antes silenciadas ganharam visibilidade, e abusos históricos, inclusive nas artes, passaram a ser revistos. Esse movimento não representa exatamente uma perda de liberdade artística, mas uma mudança nas regras do jogo. Hoje, obras e personagens são avaliados não só por sua força estética, mas também por sua relação com o contexto politicamente correto.

   O público se mostra mais atento a questões de representatividade, visibilidade e posicionamento. Com isso, literatura, cinema, teatro, música e artes visuais passaram a operar sob uma espécie de antecipação constante do julgamento. Não se trata propriamente de censura, mas de uma adaptação ao contexto politicamente correto. Nesse cenário, a experiência artística pode ser alvo de punição simbólica, ou até de silenciamento, caso não dialogue com os códigos que regem hoje a cultura do cancelamento e o linchamento moral. 

   Criar passa a exigir não só imaginação, mas também consciência do ambiente em que a obra circula. A liberdade de expressão não desaparece, mas se exerce dentro desse campo de tensões, entre o que é visto como certo e como incorreto. 

   As quatro novelas reunidas neste livro incorporam, sem cerimônia, tanto o que é considerado correto quanto o que é considerado incorreto. Elas exploram, sem pedir permissão, os limites entre o aceitável e o inaceitável, não como provocação gratuita, mas como forma de investigar a complexidade dos personagens. Lidas hoje, podem carregar o peso de um contraste: o de uma escrita que não se orienta pelo medo do julgamento imediato, mas pela tentativa de alcançar certa atemporalidade estética.

   Este prefácio não pretende defender nem justificar essas histórias, tampouco atualizá-las segundo critérios contemporâneos. Serve apenas como contexto. O que está aqui foi escrito quando ainda era possível errar artisticamente, experimentar sem garantias e aceitar que, na arte, nem tudo precisa estar certo ou errado para ser esteticamente verdadeiro. 

   A novela O Ensaio é uma recriação livre da obra Diálogos dos Mortos, de Luciano de Samósata, nascido no século III a.C. Os personagens vivem um conflito entre a própria realidade e aquela descrita por Luciano. O diálogo sarcástico e cínico de Luciano sustenta essas duas camadas, criando um contraponto que busca uma junção dramatúrgica. A novela O Ensaio se aproxima da dramaturgia colaborativa, na qual a criação coletiva costura fragmentos até formar um todo. Nesse processo, o texto nasce da pesquisa, do corpo e da voz. 

   Na novela que dá nome ao livro, Nada é Pessoal, um personagem é nomeado como Macabéa, em referência a A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, o que estabelece um diálogo direto com essa obra; assim como ocorre com os personagens Macbeth e Brutus. Esses nomes carregam um peso simbólico que não existiria se os personagens se chamassem A Dor, O Cara ou Fulano. Ao mesmo tempo, essa escolha envolve o risco do clichê e de não produzir novos sentidos que se sustentem dentro da proposta do autor.

   O fato de um personagem adquirir esse peso simbólico, mesmo fora de seu contexto original, produz estranhamento. Ainda assim, a preocupação central está no diálogo com essas correntes estéticas e na tentativa de mostrar que o medieval, o moderno e o pós-moderno podem, no fundo, se aproximar mais do que se costuma admitir.

   O personagem Macbeth, em Nada é Pessoal, introduz uma dúvida sobre o próprio conteúdo dramático e ideológico da narrativa. Mesmo que a relação com o Macbeth de Shakespeare seja negada ou disfarçada, a associação é inevitável, como se o personagem estivesse na história errada. Isso não é necessariamente um problema, mas cria o risco de deslocar o texto para fora da realidade estética proposta. 

   Ao longo da narrativa, surgem outros personagens ligados ao teatro, como Wado e Neusa Suely, vindos de Navalha na Carne, de Plínio Marcos. Neusa Suely, inclusive, torna-se um apelido de Macabéa em determinado momento da novela. A novela incorpora a história do teatro como referência, mas preserva sua autonomia.
   
   O jogo entre o real e o fantástico não busca distorcer a realidade, mas fazer com que o fantástico produza uma realidade capaz de sustentar a narrativa. Para organizar o texto, a novela se ancora em um movimento voltado à resolução de conflitos. Diante da dificuldade de resolvê-los, aproxima-se do teatro épico de Bertolt Brecht, no qual os personagens assumem uma função mais intervencionista, sem que o texto perca seu caráter híbrido.

   Ao contrário do dadaísmo, que pretendia destruir o mundo para substituí-lo por outro vazio, a opção aqui é dar densidade psicológica aos personagens, permitindo que suas próprias identidades atuem como forças de destruição. Assim, a realidade se constrói a partir da voz. É nesse espaço paradoxal, entre o pessoal e o impessoal, que a narrativa se desenvolve.

   O título Nada é Pessoal vem de August Strindberg. Segundo a lenda, essas teriam sido suas últimas palavras. Strindberg foi um dramaturgo e romancista sueco, frequentemente associado às origens do teatro moderno e a correntes que antecipam o expressionismo. Ao dizer "nada é pessoal", parece negar a ideia de um mundo organizado a partir da experiência individual, recusando a tendência de transformar tudo em algo estritamente pessoal, já que o pessoal é um vestígio de estruturas coletivas. 

   Na novela O Amor Não Vem de Vênus, é apresentada uma relação virtual entre um homem e uma mulher, construída com um viés expressionista, ou seja, marcada pela interiorização de uma realidade cheia de lacunas, onde os personagens vivem um em função do outro dentro de um ambiente mediado pela tecnologia.  

   A relação se constrói no contraste entre o real e o virtual, numa tentativa de dar sentido à própria existência. O mundo virtual aparece ao mesmo tempo como um Olimpo e como um espaço em branco: uma tela ou uma página à espera de forma. A relação entre os personagens é atravessada pelo conflito entre proximidade e distância. Assim como o Olimpo é o chão dos deuses, a tecnologia passa a ser o chão de um ritual repetitivo e, por vezes, neurotizante, em que o indivíduo oscila entre o afastamento emocional e a entrega afetiva. Nesse processo, a tecnologia deixa de ser apenas meio e passa a ter um efeito alienante que estrutura enredos. 

   Já Os Punheteiros talvez seja a novela mais problemática do conjunto, do ponto de vista dramatúrgico, pelo uso insistente do politicamente incorreto e por uma temática que hoje tende a ser vista como excessiva ou inadequada. A narrativa acompanha seis homens que vivem em uma vaga para rapaz. São viciados em revistas pornográficas e lidam com o mundo por meio de uma forte carga de erotização, atravessada por machismo e por brincadeiras preconceituosas, dentro de um contexto de pobreza. 

   Eles vivem em condições insalubres e sem perspectiva de mudança. O que resta é um mundo reduzido, quase caricatural. A narrativa explora esse ambiente para falar de personagens que não escolheram sua condição, mas que a habitam como se fosse natural. Após diferentes leituras, torna-se possível aproximar a novela de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, ainda que haja um esforço de distanciamento em relação ao naturalismo da obra de Azevedo. 

   Em Os Punheteiros, o humor é central. Trata-se de um humor que nasce da percepção de uma classe que se vê como vítima de um sistema que não compreende como funciona, um humor que hoje pode ser considerado violento ou equivocado, mas que estrutura a comunicação entre os personagens. Esse humor pode tanto incomodar quanto provocar risos. Pode também causar desconforto por sua resignação e por acreditar, de forma ingênua, que o riso seja uma forma de alívio ou sabedoria. Para Freud, o humor seria uma maneira de driblar a censura e, assim, produzir alívio e riso. 

   Afinal, o que faz algo ser engraçado? O que quer dizer não ter senso de humor? Por que algo faz uns rirem e outros não? Por que o humor não tem uma uniformidade universal? Até que ponto o riso depende de contexto, repertório ou posição social? Existe um limite para o que pode ser objeto de humor? E quem define esse limite? 

   O humor, como forma de contornar a censura, faz sentido dentro de certos contextos. Pode ser entendido como uma forma de percepção, e cada grupo social desenvolve a sua, rejeitando aquilo que não corresponde à sua visão de mundo. Assim, o humor também sofre pressão do meio e tende a se adaptar ao seu tempo e às visões de mundo dos diferentes grupos sociais. Talvez nada seja realmente pessoal como parece.

   É isso: o desafio de encarar as novelas está aberto. Boa leitura, e não desista, porque rapadura é doce, mas não podemos esquecer que não é mole.

domingo, 5 de abril de 2026

Nietzsche tinha razão: “Não existem fatos, apenas interpretações.”



Por Adu Verbis

Como leitor de frases soltas, que muitas vezes me soam estranhas, encontro frases como esta: “Não existem fatos, apenas interpretações.” Pois bem, durante um bom tempo, a frase de Nietzsche me pareceu exagerada. Soava como uma provocação filosófica distante da vida comum, como se ele estivesse mais interessado em desmontar certezas do que em descrever o mundo real. Eu dizia para mim mesmo: afinal, os fatos não estão aí o tempo todo, acontecendo diante de nós?

Eu pensava que sim, até começar a perceber, por meio da frase “Não existem fatos, apenas interpretações”, como esses fatos chegam até mim e como eu peneiro o que é fato e o que é interpretação.

A mudança não veio de um grande acontecimento, mas de algo banal, quase engraçado: um vídeo que eu já tinha visto há um tempo reapareceu na minha timeline como se fosse novo. Não era. Eu sabia que não era. Mas, por algum motivo, parecia ser.

Nos comentários, pessoas reagiam como se aquilo estivesse acontecendo naquele momento. Indignação fresca. Surpresa recente. Humor renovado. E ali, diante de mim, estava o mesmo conteúdo, deslocado no tempo, mas revestido de presente. Foi aí que algo começou a me incomodar.

Entre o momento em que um fato acontece e o momento em que eu o vejo, existe sempre um intervalo. Um pequeno atraso. Mas, nas redes sociais, esse atraso não é um simples detalhe técnico; ele é parte da própria experiência, algo que posso chamar de um presente sempre atrasado. Eu nunca vejo o agora. Eu vejo um agora que já passou e foi reeditado. E, mesmo assim, ele se apresenta como presente.

Com o tempo, percebi que não era só atraso. Era algo mais radical: o mesmo fato podia reaparecer várias vezes, em momentos diferentes, cada vez com uma nova carga de sentido. Um corte diferente, uma legenda diferente, um contexto diferente. O que voltava não era o fato, era uma nova versão dele, como diz a frase de Nietzsche: interpretações.

E cada versão competia com as outras. Nesse ponto, comecei a entender que o tempo ali já não funcionava mais como antes. Passado, presente e futuro deixavam de ser uma sequência clara. Tudo se misturava em uma espécie de fluxo contínuo, em que o que importa não é quando algo aconteceu, mas quando aquilo está circulando.

O presente deixou de ser um momento vivido. Virou uma superfície onde pedaços do passado são constantemente reposicionados. Eu não acompanho mais o desenrolar dos acontecimentos. Eu acompanho a distribuição deles. E então, quase sem perceber, a frase de Nietzsche deixou de soar como exagero e começou a funcionar como o diagnóstico de um tempo.

O que eu vejo nunca é o acontecimento em si. É sempre uma construção. Um recorte. Uma escolha. Uma edição. E, nas redes, isso não acontece uma única vez, acontece o tempo todo, em níveis sucessivos, com diferentes dimensões e enredos.

Um vídeo é gravado. Depois é editado. Depois é postado. Depois é comentado. Depois é repostado. Depois é transformado em meme. Depois volta dias depois com outro sentido. Em cada etapa, algo muda. Em cada retorno, algo se perde e algo se acrescenta. No fim, o que resta não é o fato original. É um rastro de versões. E eu estou sempre chegando depois.

Isso altera não só minha relação com o passado, mas também com o presente e o futuro. O passado não vai embora, ele retorna constantemente, reembalado. O presente não se fixa, ele escorre, sempre mediado, sempre atrasado. E o futuro… o futuro parece perder força, como se fosse apenas o conjunto de coisas que ainda não chegaram até mim. Eu não espero mais o que vai acontecer. Eu espero o que vai aparecer como interpretação.

Talvez esse seja o ponto mais inquietante: eu já não tenho a sensação de estar vivendo o tempo, mas de estar consumindo versões dele. Versões que chegam prontas, organizadas, destacadas, empurradas até mim por uma lógica que não é a do acontecimento, mas a da circulação. Nesse cenário, a ideia de fato se dissolve, e o mundo das ideias perde sua nobreza, sua perfeição, e se torna conflituoso.

Não porque nada aconteça no mundo, mas porque o que chega até mim já não tem a estabilidade de um acontecimento, e sim o peso dos conflitos das ideias com a noção de tempo e espaço. Tudo é atravessado por perspectivas, interesses, recortes. Tudo é, de algum modo, interpretação. E, ainda assim, tudo isso remete ao mundo platônico da alegoria da caverna, onde as sombras – o mundo sensível, das ilusões – e o mundo fora da caverna – o mundo das ideias, da verdade – estão em constante atraso e conflito.

E quando essas interpretações são aceleradas, repetidas e deslocadas no tempo, elas ganham uma aparência estranha: parecem atuais, mesmo quando não são; parecem verdadeiras, mesmo quando são apenas uma entre muitas possíveis. Eu passo a viver não em meio a fatos, mas em meio a disputas de sentido.

Talvez Nietzsche não imaginasse vídeos virais, algoritmos ou timelines infinitas. Mas ele percebeu algo que hoje se torna quase impossível de ignorar: a realidade, para nós, nunca é direta. Ela sempre chega mediada por filtros que alteram a percepção do que é real e do que é edição.

Outros pensadores parecem prolongar esse diagnóstico. Jean Baudrillard sugeriria que já não lidamos apenas com representações da realidade, mas com algo ainda mais radical: simulações que passam a valer como o próprio real. O que circula não é apenas uma interpretação de um fato, mas uma versão que substitui o fato na experiência cotidiana.

Paul Virilio, por sua vez, apontaria para a velocidade. Para ele, não é só o conteúdo que importa, mas a rapidez com que ele se desloca. Quando tudo circula em tempo quase instantâneo, o intervalo entre acontecimento e percepção se torna quase imperceptível, mas não desaparece. Ele se multiplica em pequenos atrasos, microdefasagens que reorganizam nossa percepção do tempo.

É nesse ponto que começo a sentir algo mais difuso, mas constante: uma espécie de ansiedade leve, quase automática. Como se eu estivesse sempre um passo atrás de alguma coisa que já aconteceu. Como se o presente estivesse sempre escapando.

Talvez seja isso que hoje se chama de FOMO: o medo de estar perdendo algo. Mas não se trata apenas de perder eventos ou informações. É a sensação de não estar vivendo no tempo em que as coisas acontecem, mas em um tempo mediado, atrasado e reconfigurado.

Eu não estou atrasado em relação ao mundo. Eu estou inserido em um sistema em que o próprio tempo já chega atrasado. E, quanto mais eu tento acompanhar, mais percebo que não existe um “agora” acessível. Existe apenas um fluxo contínuo de atualizações, em que tudo parece urgente e recente, mesmo quando já não é. A diferença é que agora essa mediação é constante, automatizada e invisível.

E assim, sem que eu perceba exatamente quando isso aconteceu, o tempo deixou de ser uma linha e virou um fluxo de interpretações. Um fluxo em que o passado retorna como presente, o presente já nasce como passado, e o futuro é apenas o que ainda não foi entregue.

Nietzsche tinha razão. Mas talvez nem ele imaginasse o quanto.