sexta-feira, 19 de junho de 2026

Polarização ou o Terrorismo Intelectual da direita domina o século XXI?




No Brasil, teremos mais uma eleição para presidente da República em 2026, e o que mais se ouve é sobre a tal polarização. No debate público, frequentemente se associa esse fenômeno ao embate entre Lula/Petismo e o bolsonarismo, mas suas raízes antecedem a disputa entre os dois líderes, Lula e Bolsonaro. Ainda assim, foi a partir da eleição de 2018 e, sobretudo, da acirrada disputa de 2022 que a divisão entre petistas e bolsonaristas passou a ocupar o centro da vida política no Brasil, influenciando debates, relações sociais e a forma como grande parte do eleitorado enxerga o país. O termo polarização não somente tomou conta das pessoas mais simples, como também passou a fazer parte do discurso do jornalismo e dos especialistas em política.

Geralmente, a explicação mais difundida para definir a crise política e cultural do nosso tempo é a de que vivemos em uma era de polarização. A palavra polarização se tornou onipresente. Ela aparece para explicar eleições, conflitos ideológicos, disputas culturais, discussões familiares e até a forma como nos relacionamos nas redes sociais. Dessa forma, a polarização tornou-se um mote na narrativa do século XXI. Isso não quer dizer que, em séculos anteriores, não tenha havido polarizações. Porém, não existiam as redes sociais, que potencializam ideias inúteis.

Eu observo o mundo contemporâneo como um baiacu que reage a qualquer estímulo, e tudo diante desse baiacu parece ser polarizável. Contudo, não me convenço de que a polarização seja a explicação para o problema do século XXI. Talvez ela descreva uma parte do fenômeno, mas não sua essência. Penso que a polarização pressupõe a existência de dois polos radicais em disputa. E, no caso do Brasil, há uma questão relacionada ao bolsonarismo, que considero essencialmente contraditório: defende a liberdade, mas viola direitos, o que revela uma contradição interna. Já o petismo trabalha para que os direitos sejam mantidos e para que a liberdade seja coerente com as leis constitucionais. Logo, no caso da disputa política entre bolsonarismo e petismo, não caberia o termo polarização, mas os conceitos de coerência interna e falta de coerência interna.

O que vejo, porém, não é apenas a coexistência de opiniões opostas. O que vejo é uma disputa permanente para definir quais opiniões podem existir legitimamente no espaço público e quais devem ser excluídas dele. Por isso, penso que o verdadeiro fenômeno político e cultural do nosso tempo não seja a polarização, mas algo mais profundo: uma luta contínua pelo controle do discurso, seja ele coerente ou não. Por isso, acredito que o conceito de terrorismo intelectual oferece uma chave de interpretação mais apurada e adequada para compreender a realidade que o Brasil enfrenta com o fenômeno do bolsonarismo.

A expressão terrorismo intelectual se tornou conhecida graças ao jornalista francês Jean Sévillia, autor do livro "O Terrorismo Intelectual", publicado em 2000. Mas a ideia é muito mais antiga do que o livro. Sévillia foi herdeiro de uma tradição intelectual que remonta aos conflitos do pós-guerra e que procurava compreender como sociedades formalmente livres poderiam produzir formas de conformismo tão eficazes quanto aquelas encontradas em regimes considerados autoritários.

Nos anos 1940, George Orwell demonstrava preocupação com aquilo que chamava de ortodoxia intelectual. O problema não era apenas a censura estatal. O problema era a existência de ambientes culturais nos quais determinadas ideias se tornavam impensáveis. Orwell observava que a liberdade de expressão não desaparece apenas quando o Estado proíbe uma opinião. Ela também desaparece quando o custo social de expressar essa opinião se torna excessivo.

Essa preocupação também foi explorada por Hannah Arendt. Ao analisar os totalitarismos do século XX, ela mostrou que a dominação política não depende exclusivamente da violência física. Ela também depende da capacidade de moldar a percepção da realidade. O poder mais profundo não é aquele que controla corpos, mas aquele que controla as categorias por meio das quais as pessoas interpretam o mundo.

O tempo passa, e a voz pode continuar a mesma, mas os cabelos e as ideias não. Nos anos 1950, Raymond Aron aprofundou essa reflexão no livro "O Ópio dos Intelectuais". Ele observava que parte significativa da intelectualidade francesa aplicava critérios morais diferentes a regimes políticos diferentes. Para ele, muitos intelectuais denunciavam, com razão, os crimes do fascismo, mas demonstravam uma tolerância surpreendente diante dos crimes cometidos por regimes comunistas. O problema identificado por Aron não era apenas político. Era intelectual. Certas ideias eram submetidas ao escrutínio constante, enquanto outras eram protegidas por uma espécie de imunidade moral, como hoje vemos nas ações de Israel na Palestina. Israel, nesse contexto, seria protegido por uma imunidade moral que vai além do campo intelectual.

Não posso esquecer Karl Popper, que alertou para os perigos das sociedades intelectualmente fechadas, incapazes de submeter suas próprias crenças à crítica. Esses alertas de Popper se aproximam, na minha interpretação, do sionismo, que não toleraria ser submetido à crítica. Jean-François Revel, por sua vez, retomaria essa tradição ao denunciar a complacência de parte das elites intelectuais ocidentais com regimes autoritários de esquerda. Contudo, hoje, a direita também é vista por muitos como complacente com ações sionistas e com o fascismo. Portanto, em todos esses autores existe uma preocupação comum: o desaparecimento gradual do livre debate, não por meio da força, mas através da pressão cultural, moral e simbólica.

Foi nesse contexto que Sévillia utilizou a expressão "terrorismo intelectual". Seu argumento era relativamente simples. Na França do pós-guerra, uma determinada elite intelectual teria adquirido o poder de definir quais opiniões eram respeitáveis e quais deveriam ser marginalizadas. Não era necessário prender dissidentes. Bastava ridicularizá-los, desqualificá-los ou expulsá-los simbolicamente da comunidade dos interlocutores legítimos. Nesse sentido, podemos encontrar, na expulsão simbólica, alguma semelhança com a cultura do cancelamento ou do linchamento virtual.

Portanto, entendo terrorismo intelectual como a utilização de mecanismos simbólicos, morais, reputacionais ou institucionais destinados a elevar o custo da discordância até o ponto em que a autocensura se torne mais racional do que o debate. Trata-se de um fenômeno que não elimina formalmente a liberdade de expressão, mas reduz seu exercício prático ao transformar a divergência em risco e em tensões políticas, que hoje passaram a ser chamadas de polarização.

Durante décadas, a crítica ao que se chamava de terrorismo intelectual esteve associada principalmente à direita. Segundo os intelectuais de direita, o terrorismo intelectual consistia em uma prática exercida por intelectuais de esquerda, jornalistas, professores universitários e produtores culturais para constranger ou silenciar opiniões divergentes. Talvez essa descrição tenha capturado parte da realidade daquele período histórico. Não obstante, a própria direita frequentemente relativizava ou ignorava os elementos opressivos presentes em suas próprias demandas e práticas políticas e intelectuais.

Mas o problema é que, passado aquele período de predominância intelectual da esquerda, muitos dos intelectuais de direita que denunciaram esse mecanismo, e o denominaram terrorismo intelectual, passaram a reproduzi-lo quando conquistaram poder cultural e influência intelectual.

É aqui que vejo que a discussão se torna particularmente relevante para compreender o presente por meio do termo polarização. Pois existe uma diferença fundamental entre o mundo analisado por Aron, Revel e Sévillia e o mundo em que vivemos hoje.

Os autores do pós-guerra observavam formas de conformidade intelectual produzidas por instituições relativamente delimitadas. Universidades, editoras, jornais e círculos intelectuais funcionavam como filtros de legitimidade. O poder de definir quais ideias seriam pautadas e consideradas respeitáveis encontrava-se concentrado em grupos relativamente pequenos, mas suas ideias reverberavam para além dos próprios grupos, o que servia de combustível para a guerra cultural.

Mas o século XXI alterou radicalmente essa estrutura. As redes sociais não destruíram os mecanismos descritos por esses autores. Ao contrário, multiplicaram sua escala e sua velocidade. O que antes dependia da autoridade de um professor, de um editor, de um jornalista ou de um intelectual midiático passou a ser exercido por milhões de indivíduos simultaneamente conectados. A coerção simbólica deixou de ser um monopólio das elites intelectuais para se tornar uma prática distribuída em massa, que alimenta o que se chama de polarização, que, no fundo, é o velho terrorismo intelectual.

Essa transformação produziu um fenômeno paradoxal. Nunca houve tanta liberdade formal de expressão. Nunca foi tão fácil publicar uma opinião, alcançar uma audiência global ou contestar uma narrativa dominante, mesmo sem se ter um conhecimento profundo. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil organizar campanhas de constrangimento, linchamentos reputacionais, boicotes ou processos coletivos de estigmatização, que se assemelham ao que a direita chamava de terrorismo intelectual. Hoje, é possível chamar isso de linchamento intelectual ou cancelamento cultural, sem falar no poder dos algoritmos, que podem favorecer sicrano ou beltrano.

Hoje vivemos sob uma forma de vigilância difusa. As opiniões são registradas, arquivadas e permanecem acessíveis. Qualquer declaração pode ser retirada de contexto, reinterpretada e utilizada como evidência moral contra seu autor. O julgamento deixou de ser episódico e tornou-se contínuo. Muitas vezes, ideias intelectualmente frágeis tornam-se perigosas pela falta de aprofundamento dos interlocutores quanto aos riscos das próprias ideias.

A palavra terrorismo, utilizada por Sévillia em sentido metafórico, torna-se relevante justamente porque descreve um mecanismo baseado no medo e no perigo atribuído às ideias. O terrorismo clássico busca alterar comportamentos por meio do medo da violência física. O terrorismo intelectual busca alterar comportamentos por meio do medo da exclusão simbólica, da destruição reputacional, da marginalização profissional ou do ostracismo social. Em ambos os casos, o objetivo não é convencer, mas condicionar certas condutas em detrimento de outras.

Isso não significa que toda crítica pública constitua terrorismo intelectual. A crítica é parte essencial da democracia. A crítica não é polarização; é maturidade de quem a faz e de quem reconhece quando está errado. O problema surge quando a finalidade deixa de ser examinar ideias e passa a ser aumentar o custo de sustentá-las. A diferença é decisiva. Uma sociedade livre depende do confronto de argumentos. Uma sociedade dominada pelo terrorismo intelectual depende da produção de medo ou da disseminação de inverdades para manipular o debate e conduzi-lo de forma favorável àqueles que produzem medo e apresentam falsidades como verdades.

Talvez a maior ironia histórica seja que os mecanismos denunciados por Aron, Revel e Sévillia não permaneceram confinados ao campo ideológico que eles criticavam. A esquerda e a direita passaram a utilizar estratégias semelhantes. Ambas aprenderam a transformar adversários em categorias morais. Ambas aprenderam a substituir o debate pela rotulação. Ambas descobriram que controlar a linguagem é uma forma de controlar a realidade. E denominar a realidade como polarizada é uma forma intelectual e política de não explicar os próprios atos.

Quando um indivíduo deixa de ser refutado e passa a ser definido por um rótulo, o diálogo cede lugar à disciplina. A pergunta deixa de ser "o que você pensa?" e passa a ser "quem você é?". A consequência é que conceitos políticos deixam de funcionar como instrumentos de análise e passam a operar como mecanismos de exclusão, porque o objetivo passa a ser a ocupação de espaço político e cultural.

Vou tomar como exemplo o debate sobre a classificação de organizações criminosas como grupos terroristas. Independentemente da posição que cada um adote sobre a questão, é impossível ignorar que a disputa não é apenas jurídica. Ela é também política e simbólica. Quando uma categoria deixa de ser objeto de investigação e passa a funcionar como teste de lealdade ideológica, o debate se estreita. A questão deixa de ser "qual definição descreve melhor a realidade?" e passa a ser "de que lado você está?". Do lado do polo A ou do polo B? E assim se cria a atmosfera de polarização política sem a devida explicação dos atos e das ideias.

É exatamente nesse momento que o terrorismo intelectual se manifesta. O aspecto mais inquietante dessa transformação é que ela não pertence mais a uma ideologia específica. A crítica formulada por Aron, Revel e Sévillia contra determinados setores da esquerda tornou-se, paradoxalmente, uma crítica aplicável a qualquer grupo que consiga acumular poder cultural suficiente para transformar discordância em heresia e em capital político.

Penso que essa seja, talvez, a principal característica do nosso tempo. Não estamos apenas diante de uma sociedade polarizada. Estamos diante de uma sociedade que disputa incessantemente o monopólio da legitimidade moral. Uma sociedade em que diferentes grupos procuram determinar quais opiniões podem circular sem punição e quais devem ser punidas e excluídas do espaço público.

O verdadeiro conflito contemporâneo gira em torno do poder de definir a realidade. Quem controla as categorias controla os julgamentos. Quem controla os julgamentos controla os limites do discurso legítimo. E quem controla os limites do discurso legítimo exerce uma das formas mais sofisticadas de poder político.

Por isso, acredito que o conceito de terrorismo intelectual permanece atual. Mais do que isso: acredito que ele se tornou mais relevante hoje do que na época em que foi formulado. Os intelectuais do pós-guerra observavam mecanismos de conformidade presentes em círculos relativamente restritos. Nós vivemos em um ambiente em que esses mecanismos foram ampliados por tecnologias capazes de atingir bilhões de pessoas simultaneamente.

Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que estamos apenas polarizados. A polarização é apenas a manifestação superficial. O fenômeno mais profundo é a luta permanente pelo controle das categorias por meio das quais pensamos, julgamos e interpretamos a realidade, transformando-a em bem simbólico e cultural.

É possível pensar que o terrorismo intelectual talvez seja a essência do conflito político e cultural atual. Porém, o nome dado hoje é polarização. O que, por si só, demonstra uma perda da consciência das próprias ideias e dos próprios atos.