Por Adu Verbis
Quando penso na Bíblia, sempre penso como um mapa dialógico. E pensar a Bíblia como um mapa dialógico é vê-la como um espaço de encontro e desencontro. Entre o que o ser humano chama de Deus e o ser humano, entre o passado da humanidade e seu presente, entre textos ditos e interpretações que conduzem por caminhos nem sempre claros. A Bíblia talvez seja o espaço onde o ser humano sonha coletivamente e guarda as múltiplas vozes que constroem sentido em contexto com o que se chama fé e devoção. Portanto, o assunto aqui não é bem a Bíblia em sua integralidade, mas uma parte dela. Passei dias estudando quem foi Jacó e por que Jacó passa a se tornar Israel.
Jacó, figura central da narrativa bíblica, é frequentemente retratado como astuto, ambicioso e moralmente ambíguo. A transformação de Jacó em Israel não é apenas narrativa histórica ou mitológica; ela pode ser interpretada como processo psíquico profundo, refletindo o conflito entre medo, desejo de controle e busca de significado espiritual. Este texto propõe que o “nascimento” de Israel como entidade espiritual emerge das consequências traumáticas da vida de Jacó, configurando uma psique coletiva que se manifesta no povo israelita, em sua versão bíblica, que espelha a versão humana. Além disso, comparações com mitos de outras culturas ajudam a contextualizar e a entender os padrões psicológicos universais de luta, ambição e transformação.
Jacó apresenta padrões de comportamento marcados por insegurança e ambição. Família e rivalidade: o favoritismo parental e a competição com Esaú criam um trauma de rejeição e inferioridade, reforçando conflitos. Fuga e alienação de Jacó: ao fugir para Harã, ele enfrenta o medo da perseguição e a incerteza da sobrevivência. Nesse caso, há ligações com o mito universal de Rômulo e Remo.
Mas qual o propósito do filho (Jacó) astuto, marginalizado e em conflito com o irmão (Esaú)? O conflito entre irmãos é recorrente em muitas culturas, como, por exemplo, Rômulo e Remo em Roma ou Édipo na Grécia, mostrando padrões arquetípicos de rivalidade fraterna que levam a guerras por espaços simbólicos. O conflito entre Jacó e Esaú é embrionário; ou seja, como gêmeos, eles lutam por uma bênção. Podemos pensar que Esaú era o “calcanhar de Aquiles” de Jacó, mas foi Jacó quem nasceu segurando o calcanhar de Esaú, tentando impedir que o irmão nascesse primeiro e ganhasse o status de primogênito e assim a bênção.
Nesse ponto, a leitura simbólica encontra eco na psicanálise: Freud interpretaria esses eventos como expressão de complexo de inferioridade e conflitos edipianos. O trauma de Jacó em relação a Esaú e Isaque reflete desejos inconscientes reprimidos, que se expressam através de manipulação, ambição e superação. Já Lacan poderia analisar Jacó como alguém em busca do “Nome-do-Pai”, estruturando sua identidade através da apropriação simbólica da bênção roubada, refletindo a tensão entre realidade, desejo e lei simbólica, e ser um escolhido e amado pelo pai biológico, simbólico e espiritual. Essa tríade fundamenta, na narrativa bíblica, uma entidade espiritual que, simbolicamente, os israelitas projetam como núcleo de sua existência no mundo.
Contudo, Erich Fromm veria a ambição de Jacó como expressão de desejo de poder e segurança em um ambiente hostil, mostrando como traumas podem moldar a psique para criar estratégias de sobrevivência na aridez do mundo.
A ambição de Jacó funciona como defesa psíquica diante da insegurança e do medo: roubar a bênção de Esaú evidencia desejo de controle e autoafirmação. A ambição se torna mecanismo adaptativo, protegendo a psique contra traumas de rejeição e ameaças externas. Essa dinâmica é similar a arquétipos mitológicos, como a figura do herói que precisa superar obstáculos morais e físicos para transformar sua identidade por meio de uma jornada. Jung consideraria essa ambição parte do processo de individuação, em que Jacó precisa integrar aspectos reprimidos da personalidade para emergir como Israel, pessoa e símbolo espiritual.
É na luta com Deus que Jacó encontra seu mote como herói que tem que cumprir uma jornada. Ao mesmo tempo, essa narrativa poética reflete um processo psíquico profundo: no episódio da luta noturna (Gênesis 32:22-32), Jung interpretaria o confronto com a própria sombra, enfrentando aspectos reprimidos como medo, egoísmo e insegurança. A mudança de nome de Jacó para Israel simboliza a integração da psique: ambição e medo são transformados em propósito espiritual, de modo que o propósito espiritual o levasse a uma aceitação e a um acolhimento por seu Deus, que o experimenta em seu propósito espiritual.
Não podemos esquecer que há comparações mitológicas na jornada de Jacó: a luta simbólica com o divino ou com forças superiores aparece em diversas culturas, como Hércules enfrentando desafios impossíveis ou Moisés confrontando o Faraó, representando a tensão entre humano, medo e transcendência. Ricoeur poderia interpretar a jornada de Jacó como formação de identidade através da memória e narrativa coletiva, transformando experiências traumáticas individuais em símbolos culturais duradouros.
Israel, como resultado da transformação de Jacó, apresenta a consciência do conflito humano com o divino e o reconhecimento da tensão entre desejo pessoal e coletivo, e ética pessoal e coletiva. Por isso, a transformação de trauma em missão: experiências traumáticas individuais são incorporadas à psique coletiva do povo que descende de Israel (Israel, o personagem bíblico e não o Estado de Israel), moldando assim resiliência, ética e a identidade de um povo que cultua a superioridade espiritual por ter uma jornada divina. Contudo, a gênese da ambição de Jacó é equilibrada pelo medo: o medo é um mote e é canalizado em disciplina e propósito espiritual.
Podemos expandir a perspectiva psicanalítica do mito, do personagem, do ser humano Jacó/Israel. Na visão de Freud, Jacó/Israel pode representar a tensão entre id, ego e superego, onde ambição e desejo são regulados por experiências traumáticas. Enquanto que para Jung, Israel pode simbolizar individuação e integração da sombra. Da mesma forma que para Lacan, a luta de Jacó representaria o confronto com a lei simbólica do pai, Isaque, que também tinha conflito com o pai Abraão (o Deus do avô de Jacó, Abraão, ordena que o avô sacrifique o filho Isaque, pai de Jacó). Do mesmo modo, podemos pensar que Jacó inconscientemente herda os traumas de seu pai, Isaque, que vive um processo traumático ao ser quase sacrificado pela fé e devoção de Abraão a seu deus.
Portanto, é no confronto que há a busca por identidade, no campo do desejo e na ambição por uma autoafirmação, desde Abraão a Israel. Da mesma maneira, Fromm veria que ambição e sobrevivência refletem a psique moldada por forças sociais e familiares. E Ricoeur focaria que a narrativa e o mito transformam traumas individuais em identidade coletiva. É no trauma e no conflito entre humano e divindade que a família de Jacó, desde Abraão, passa a construir uma entidade espiritual, como diria Jung, feita de sombra.
Para não me alongar no texto, vamos fechar a jornada. A trajetória de Jacó para Israel exemplifica como trauma, ambição e medo podem catalisar a formação de identidade espiritual coletiva. Israel nasce não apenas como descendência física, mas como entidade psíquica e simbólica, cuja força emerge da superação de conflitos internos profundos. Comparações com outros mitos e análise psicanalítica podem mostrar que a espiritualidade e identidade de um povo podem emergir diretamente das experiências traumáticas de seus ancestrais, integradas à narrativa mítica, à consciência coletiva e à transformação psíquica, e nessa transformação o estabelecimento de uma concepção que molda a humanidade, e portanto, a força psíquica não está na luz, mas sim na sombra.

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