O fato de eu enfatizar que o termo "americano" é recente, por mais óbvio que seja, é para ressaltar o antes e o depois da chegada do europeu ao Continente Americano, e que os contextos étnicos e históricos que formam o Continente Americano ultrapassam a América. E também para reforçar a ideia de que a construção da identidade norte-americana é marcada pelo branco, e não pelo negro ou pelo índio.
Portanto, o termo "afro-americano" reforça ainda mais essa divisão entre o americano puro, o construtor do poder simbólico, e o americano negro, que foi forçado a aceitar uma nova identidade, sendo assim inserido dentro do sistema moldado pela branquitude.
Um exemplo da doutrinação do racismo, que visa a supremacia cultural do branco americano, encontramos no “Testemunho para a Igreja”, da escritora adventista Ellen White (1827-1915), Volume 9, página 214, parágrafo 3°, que diz: “As pessoas de cor não devem pressionar para serem colocadas em igualdade com os brancos.” E por que a premissa de que o negro não deve se colocar em pé de igualdade com o branco?
Eu poderia encerrar o texto aqui pela exaustão do tema, mas surgiu uma interrogação. Uma interrogação aparentemente irrelevante, mas que preciso fazer por uma questão de honestidade com minhas dúvidas.
Por que o negro busca igualdade política e jurídica dentro de um sistema que depauperou o negro no processo de escravidão? Por que o negro não busca construir um sistema onde tenha dignidade jurídica e política? Claro que não tenho respostas para essas perguntas, e o ser humano é uma unidade complexa, que se estrutura mediante as ideias no tempo e espaço.
Mas vejo que, talvez, o negro se veja como parte do sistema que o escravizou. O que pode ser encarado como natural, pois o negro ajudou a construir o sistema, mesmo sofrendo com as intempéries no processo de sua construção.
Vejo que, no processo de diluição do poder da branquitude, através da luta existencial por uma afirmação política, jurídica e econômica, o negro não rompeu com a herança jurídica do poder branco. O negro ainda se encontra preso à cadeia jurídica do poder político e econômico do branco.
E talvez, por ainda estar preso à cadeia simbólica do poder branco, o negro alimenta a idiossincrasia da historicidade tóxica do poder branco. Quando falo em alimentar a cadeia simbólica do poder branco, refiro-me ao fato de que o negro acaba sendo, também, responsável pela manutenção das estruturas que o oprimem.
Portanto, vejo que nenhuma subjetividade sobrevive por si mesma sem que sua solidez seja dissipada. Refiro-me à subjetividade do poder branco sobre o negro, e essa subjetividade não se dissipa porque alguém a sustenta.
Quero dizer com isso que é na luta dialética entre o negro e o branco que o canibalismo cultural se estabelece e se mantém através da apropriação das circunstâncias criadas pelas conjunturas, que fortalecem as estruturas do poder branco.
Podemos dizer, de maneira irônica, que toda subjetividade tem um preço. Em suma, parece que a única coisa que o negro busca nessa luta dialética com o branco é por uma afirmação representativa, por respeito, pela igualdade de direitos e por romper com o discurso de superioridade racial branca.
E não obstante, a luta por uma afirmação também reforça a identidade de grupo social baseada na raça, compondo assim espaços de voz, mas não rompendo com a estrutura podre e tóxica do sistema que destruiu os bens simbólicos dos que foram escravizados, fortalecendo assim os bens simbólicos do poder branco.
Eu dei uma volta homérica para falar de mim, enquanto pardo, dentro da estrutura de poder do negro e do branco. Nessa estrutura sistemática, criada na luta entre o branco e o negro, sempre me pergunto se há uma relação de poder do negro ou do branco sobre mim, enquanto pardo.
Sempre me faço essa pergunta porque tanto o branco quanto o negro têm uma existência e uma essencialidade étnico-racial que garante aos dois um poder que privilegia seus espaços de voz e assim a constituição de um poder, por mais abstrato que seja.
Nesse processo de cotização étnico-racial, eu sou pardo, um termo que não diz nada por si só. Mas, para ser algo, preciso me ver como negro e ser aceito entre os negros, para não ficar abandonado no meio dos brancos, já que o branco me vê como negro, e o negro me vê como um órfão, etnicamente falando.
Ao ser adotado pelos negros, tenho a obrigação étnica e política de me ver como negro, e se me vejo como branco, estou traindo a boa-fé de quem me adotou. O branco também pode me adotar, já que ser pardo é ser órfão, antropologicamente falando; todavia, o branco me vê como negro e eu não posso me ver como branco, pois o estatuto jurídico da branquitude não permite que eu me veja como branco.
Eu poderia levantar a bandeira de uma luta dialética e subjetiva e sair gritando pelos quatro cantos do mundo que sou pardo, ou mestiço, com muito orgulho. Mas, ao buscar uma autoafirmação enquanto mestiço ou pardo, passo a viver existencialmente e essencialmente isolado, já que ser mestiço ou pardo carece de uma etnicidade própria.
Para ser o que sou, preciso usar a etnicidade negra. Ou uso a etnicidade negra como forma de autoafirmação, ou não tenho etnicidade. Minha voz, enquanto pardo, só tem alcance se me apropriar da etnicidade negra e fazer dela meu espaço simbólico, subjetivo e político.
Pois, enquanto pardo, estou sob a tutela étnica do negro. Ser pardo é ter que assumir um posicionamento simbólico e político por meio do negro. Se quiser ter uma voz, preciso me submeter às regras constituídas pelo poder negro.
Para afirmar minha parditude, primeiro, preciso assumir a negritude. Minha parditude só é reconhecida pela ancestralidade negra. Para me libertar da tutela étnica negra e do poder simbólico da branquitude, preciso fazer uma revolução. Preciso cortar a cabeça dos brancos e dos negros.
Para "pardizar" o mundo e declarar o fim das etnias negra e branca, preciso me desdoutrinar e me desconstruir pela linguagem e destruir o mundo simbólico do negro e do branco, acabando assim com a herança negra e branca da face da Terra.
Vejo que a única vantagem em ser pardo é relativa, no sentido de expressar uma relação simbólica; e também por não ter uma especificidade antropológica pura. Contudo, ser pardo é ser composto de uma especificidade antropofágica relacional, resultado da conjunção do canibalismo cultural do negro e do branco em seu processo dialético de apropriação do mundo.
Referências:
- "As pessoas de cor não devem pressionar para serem colocadas em igualdade com os brancos." Testemunho para a Igreja, autora Ellen White, Volume 9, página 214, parágrafo 3°.
- Wikipedia: A palavra é derivada de "América", um termo utilizado pela primeira vez em 1507 pelo cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, em referência a uma área atualmente correspondente ao Brasil, e que passou a ser utilizada a partir do século XVI como o nome do continente conhecido como "Novo Mundo" após seu descobrimento por europeus.
- A nova segregação – Michelle Alexander
- Crítica da Razão Negra – Sair da Grande Noite – Achille Mbembe
- As Armadilhas da Identidade – Asad Haider
- O Ser e o Nada – Jean Paul Sartre
- História da Consciência de Classe – György Lukács
- Silvo de Almeida – Racismo Estrutural