quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Ubuntuzar: o meio enquanto consciência do que somos e do que podemos ser


Por Adu Verbis

Escrevo este texto movido por um desejo antigo: o de unir dois mundos que me habitam, o mundo da filosofia africana e o da crítica social ocidental; e o escrevo no mês no qual temos o que passamos a chamar de mês da Consciência Negra. Pois, quando penso em Ubuntu e em Marxismo, penso em Consciência Negra e em consciência humana, assim como deslumbro dois metafóricos rios diferentes que nascem em montanhas distantes, mas que correm em direção ao mesmo oceano, o oceano utópico da humanidade partilhada. 

E, nesse oceano, surge um verbo que não somente leva a refletir o mundo, mas também faz emergir da reflexão a necessidade de ubuntuzar. Ubuntuzar, enquanto sentido de agir de modo a partilhar o meio e os meios.

Mas, afinal, o que é Ubuntu, termo que dá origem ao neologismo ubuntuzar? Ubuntu é uma filosofia originária de diversas tradições culturais do sul da África que expressa uma visão de mundo centrada na interdependência humana. Mais do que um conceito moral, é uma ontologia relacional que afirma que a pessoa só se torna plenamente humana através dos outros.

Seu princípio mais conhecido, “eu sou porque nós somos”, não é apenas uma frase poética, mas a base de uma ética comunitária que valoriza o cuidado mútuo, a responsabilidade partilhada e a construção coletiva do viver. Ubuntu compreende a humanidade como um tecido de relações no qual o bem-estar individual está intrinsecamente ligado ao bem-estar do coletivo. Assim, ser humano é participar, reconhecer-se no outro e agir de modo a fortalecer os laços que sustentam a vida comum no mundo.

Como podemos notar, o verbo ubuntuzar é mais do que uma invenção linguística. É um gesto de partilhamento comum. Uma tentativa de transformar Ubuntu, o conceito que verseja o coletivo e a essencialidade de um lugar partilhado e que transcende o ego quando diz: “eu sou porque nós somos”.

Quando digo que quero ubuntuzar o mundo, quero dizer que quero torná-lo consciente da sua interdependência. Poderia dizer torná-lo mais humano, mais justo, mais solidário, mas toda vez que uso os termos humanizar, justo e solidário, me sinto ingênuo, e a minha ingenuidade não ubuntuza o mundo. Porém, de forma intuitiva, proponho que a interdependência seja justa, humanizada e solidária.

Portanto, quando atribuo ao verbo ubuntuzar a ideia de que eu sou porque nós somos, estou a propor uma ação e uma prática do Ubuntu. No verbo ubuntuzar há uma recusa e uma aposta. Recuso a lógica da indiferença, da competição e do isolamento que o capitalismo transformou em virtude. E aposto na potência do encontro, na força do comum, na possibilidade de reconstruir o meio não como instrumento, mas como condição de existência. Ubuntuzar é entender que o meio é o que somos e que o meio reflete o estado de espírito das nossas ações e práticas enquanto seres interdependentes.

Marx dizia que o ser social determina a consciência. Os pensadores de Ubuntu afirmam que o ser humano é humano apenas por meio dos outros. Através dessas duas visões, percebo uma convergência profunda: somos moldados pelas relações que construímos e pelas estruturas que nos sustentam. Isso é óbvio, e todos, em certa medida, percebem isso de alguma maneira. Se o capitalismo separa e mercantiliza o vínculo, ubuntuzar é um ato de desconstrução e ressignificação e uma maneira de trazer o mundo para o meio.

Quando ubuntuzamos, desafiamos o dogma do sujeito autônomo. Reconhecemos que nossa humanidade é interdependente e que a liberdade só é possível no acordo com o meio no qual estamos inseridos. O meio não é um simples contexto, mas a teia viva que nos forma e informa, de forma certa ou errada, o que gera consequências futuras ao próprio meio. Portanto, a transformação do meio é também a transformação de nós mesmos e do mundo.

Ao ler Marx com olhos africanos, percebo que sua crítica à alienação não está tão distante do chamado de Ubuntu. Ambos se insurgem contra o esquecimento do outro e contra o apagamento da historiografia do meio. Ambos denunciam a desumanização que nasce quando o trabalho, a propriedade e o poder são organizados para dividir o meio, e não para partilhar o fruto da interdependência.

Desmond Tutu dizia que a reconciliação é a maior expressão de Ubuntu. Marx, por sua vez, acreditava que a emancipação humana só seria possível quando superássemos as condições de exploração, isso porque a exploração é uma forma de transformar a interdependência em controle e em manipulação da interdependência em benefício do agente explorador. Se coloco os dois para conversar dentro de mim, ouço um coro que diz: não basta mudar as teorias econômicas e aplicar modelos econômicos vazios; é preciso reconstruir o vínculo da interdependência. Não basta redistribuir; é preciso reumanizar o sentido de interdependência.

A relação entre Ubuntu e Marxismo é mais do que um encontro teórico, é uma aliança de sentidos. Marx oferece as ferramentas críticas para desmontar as estruturas de dominação; Ubuntu oferece o solo ético para reconstruir uma comunidade em ruína e remover o sedimento da exploração. O materialismo marxista pode dar densidade à espiritualidade comunitária africana, enquanto o humanismo de Ubuntu pode suavizar e humanizar a luta marxista, evitando que a revolução se transforme em mera inversão de poderes, quando a luta, na verdade, é por uma restauração da interdependência de forma mais justa, solidária e humana.

Essa fusão não é simples. Ubuntu busca harmonia e reconciliação, enquanto o marxismo nasce do conflito e da luta. Mas talvez a síntese esteja justamente em ubuntuzar o marxismo, tornando-o mais sensível ao cuidado do eu, já que o eu é feito de nós; e, ao mesmo tempo, marxizar o Ubuntu, dando uma base histórica e material capaz de enfrentar as injustiças estruturais. Assim, ética e política deixam de ser opostos e passam a ser expressões da interdependência.

Ubuntuzar é uma prática. É escolher ver o outro como espelho e não como obstáculo. É agir com empatia sadia e não contaminada pelos sedimentos da exploração, mas sim com solidariedade concreta, com coragem de agir e abrir mão de parte do próprio conforto em nome de uma dignidade comum. É reconstruir o laço social onde o mercado vende empatia, mas entrega repulsão. Ubuntuzar é um verbo que exige corpo/ético – Força de Vontade, Resiliência, Codisciplina –, e não só intenção decorativa e dissimulada como numa propaganda de refrigerante onde tudo parece lindo e no entanto nada ali existe.

Quando uso o termo codisciplina, não falo de disciplina dura ou autoritária. Falo de uma disciplina construída junto, onde a responsabilidade é partilhada e o cuidado é mútuo. É a disciplina que nasce da consciência da interdependência. Não é controle, é vínculo. Não é imposição, é compromisso. A codisciplina é o esforço comum que sustenta o meio e impede que a interdependência vire exploração.

No cotidiano, ubuntuzar pode significar ouvir de verdade, repartir tempo e recursos, resistir à lógica da indiferença que adoece e fragiliza e possibilita que o explorador seja o vitorioso. No plano político, é lutar por formas de produção e convivência que coloquem a vida no centro da codisciplina e da interdependência sadia. No plano filosófico, é reconhecer que não existe eu sem nós porque, antes do eu, existiram muitos nós e raízes que se ramificaram no presente e no futuro.

Mas ubuntuzar não é apenas uma ética de bondade; é também uma ética de resistência feita na codisciplina. É subverter a lógica da produtividade cega e relembrar que a cooperação é parte da interdependência, e que a revolução é uma maneira de reparar a completude fragmentada na divisão da competição. É transformar a ternura em força ética e política. Quando ubuntuzamos, materializamos a completude do encontro, fazendo da solidariedade o motor da história, porque a essência do tudo está na interdependência.

Ao escrever este texto, escrevo como quem constrói uma ponte. Sei que nem Ubuntu nem Marxismo são respostas definitivas, mas ambos me ajudam a perguntar melhor: o que é ser humano e o que nos torna humanos? E talvez a resposta esteja justamente nesse meio, nesse espaço entre o eu e o outro, entre o desejo que gera saúde ao meio.

Ubuntuzar a sociedade é um desejo. É acreditar que o caminho da luta é conhecer o inimigo e saber se é possível humanizar o inimigo, e saber que tudo isso passa pela empatia e pela partilha. É compreender que a humanidade não é um ponto de chegada, mas um processo coletivo, aberto e que gera consequências. E é, acima de tudo, reconhecer que só somos por meio do social, mas o social não pode ser cego às próprias doenças estruturantes – racismo, preconceito, xenofobia e outras tantas doenças que, de certa forma, destroem o social e o fragmenta como um zumbi dialético. Ou seja, o social existe, mas é semi-morto pela incapacidade de lidar com suas próprias contradições estruturais.



Referências

 

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