Seu livro mais conhecido é Here All Along. Ali, ela fala sobre o que as tradições judaicas ainda significam no mundo atual, como certas práticas podem ter um peso espiritual genuíno e por que a vida comunitária importa tanto. O livro também entra em temas como Israel, sionismo e a forma como os judeus nos Estados Unidos constroem sua identidade.
Pois bem, quando ouvi Sarah Hurwitz afirmar que estudantes judeus críticos de Israel seriam “irracionais”, “confusos” ou necessitados de “realinhamento”, senti emergir um reconhecimento imediato: aquele gesto não é novo. Ele ecoa, com impressionante precisão, uma tendência histórica do sionismo político de interpretar a crítica ética como falha pessoal e não como interrogação legítima.
Israel passou a ser apresentado não apenas como um país, mas como um componente indispensável à própria identidade judaica moderna. Contudo, nesse ambiente, críticas ao Estado israelense são tratadas como suspeitas, sinais de alienação ou sintomas de um problema psicológico. E a fala de Hurwitz reativa e reforça esse padrão, ou seja, politiza identidades e psicologiza discordâncias.
A rapidez com que Hurwitz transforma debate político em diagnóstico psicológico revela um mecanismo de defesa profundamente enraizado. É onde se nega que os estudantes são discordantes e se insiste que são “irracionais”. Não estão argumentando, estão “confusos”. Não propõem novas éticas, precisam ser “corrigidos”.
Do ponto de vista psicanalítico, esse gesto é uma clássica defesa narcísica: quando o sistema não suporta o espelho, desqualifica o observador. No plano político, essa estratégia também não é nova. Trata-se de um método de deslegitimação que desloca o foco. Em vez de discutir Israel ou as causas internas que adoecem Israel, busca passar por cima dessas causas e discute a sanidade do crítico.
É impossível separar essa reação da carga emocional que a história judaica carrega. Perseguições, expulsões, genocídios, tudo isso produz um arcabouço psíquico real, um estado de alerta constante que pode facilmente ser mobilizado e externado como trauma.
O sionismo político compreendeu perfeitamente essa vulnerabilidade e, ao longo do século XX, transformou o trauma coletivo em fundamento de Estado. Em vez de elaborar o trauma, instituiu-o como justificativa permanente.
Portanto, quando Hurwitz reage com perplexidade ao ver judeus distanciando-se do sionismo, ela não está apenas defendendo uma posição política. Ela está protegendo um arranjo emocional no qual Israel funciona como promessa de segurança absoluta. Qualquer crítica ameaça reinstalar a insegurança original. E o sionismo fica entre sua política colonizadora, sua gentrificação da Palestina e o judaísmo, que é diverso e que serve para justificar a política do sionismo.
A resposta de Hurwitz também manifesta uma fusão conceitual construída ao longo de décadas: ser judeu/ser sionista. Ser sionista/defender Israel incondicionalmente. Essa fusão cria um paradoxo filosófico. Se Israel faz parte da identidade judaica, criticar Israel é entendido como ferir a si mesmo. Daí a insistência de que jovens críticos estão “perdidos” ou “desconectados de sua identidade”. Se há judeus não sionistas, e sempre houve, então o sionismo não pode ser a essência do judaísmo. Essa é a ameaça real por trás da patologização.
Bem, o sionismo político, desde seus primórdios, buscou legitimidade externa. Herzl procurou o Kaiser alemão, o sultão otomano, diplomatas britânicos. A Declaração Balfour de 1917, emitida sem consulta à população palestina, então a esmagadora maioria do território, cristalizou essa dependência. A legitimidade veio de cima, nunca de dentro. Um projeto nascido assim tende a construir um regime simbólico que se protege a qualquer custo, inclusive desqualificando quem o questiona. Quero dizer com isso que a fala de Hurwitz, ao ignorar a perspectiva palestina e patologizar judeus que a reconhecem, repete esse padrão histórico.
Desde o início do século XX, propostas de coexistência paritária foram rejeitadas: o Estado binacional defendido por Buber e Magnes, os acordos de autonomia compartilhada e os mecanismos de representação conjunta. A necessidade de garantir uma maioria demográfica judaica tornou a exclusão quase inevitável. Expulsões, segregação e assimetrias nasceram dessa escolha fundacional.
O sionismo nunca se interessou em conversar com os palestinos, mas em desqualificá-los e tirar dessa desqualificação uma reação palestina que o sionismo pudesse usar como mote para rejeitar a coexistência paritária. Por isso, quando jovens hoje apontam desigualdades estruturais, a resposta frequentemente é moralmente escandalizada: “é irracional”. A crítica toca o ponto cego da história.
Quanto mais um sistema depende de narrativas externas para se sustentar, mais ele precisa controlar seu discurso interno. Por isso, patologizar opositores protege o mito fundador, a negação das dimensões coloniais, a recusa da pluralidade judaica, a dependência política e militar de potências e a imunidade à autocrítica. É um sistema que precisa dizer: “Se você critica Israel, o problema é você”, e assim colocar o sionismo como salvador.
Nenhuma fala como a de Hurwitz reconhece que o antissionismo judaico é tão antigo quanto o próprio sionismo. Filósofos, rabinos, socialistas, religiosos ortodoxos, judeus orientais, muitos se opuseram à ideia de um Estado-nação judaico territorializado porque desviaria o foco do judaísmo. A crítica não é anomalia juvenil; é uma linhagem histórica reprimida que patologiza quem se opõe à política sionista.
A irracionalidade não está nos estudantes que questionam Israel. Está na recusa sistemática de reconhecer fatos históricos: a expulsão de 1948, a ocupação militar, a desigualdade legal, o bloqueio e o controle territorial que tira o que é dos palestinos, a persistência da violência estrutural como forma de enfraquecer qualquer luta pró-Palestina. Portanto, chamar isso de “confusão” é evitar o confronto com a realidade e com a ética.
Críticas internas não são sinais de ódio nem de desorientação. São parte da própria tradição judaica, que sempre valorizou o debate, a autocrítica e a busca constante por justiça. Se Israel não pode sobreviver ao espelho, talvez o problema esteja na imagem, não no espelho. É preciso limpar o espelho para que se possa ver a própria imagem, seja ela sadia ou adoecida.
O que incomoda na fala de Sarah Hurwitz não é apenas sua posição política, mas o mecanismo que ela perpetua: transformar dissenso em desvio, crítica em confusão, discordância em patologia. Os jovens que ela tenta corrigir não são sinal de crise identitária. São sinal de vitalidade moral. Eles reabrem perguntas que foram interditadas por décadas e rompem com o monopólio discursivo do sionismo político.
A única irracionalidade seria acreditar que silenciar a crítica resolve o conflito. Já que, diante da intensa militância sionista nas redes e nos meios de comunicação, ainda assim não se consegue desenvolver um combate ao antissionismo de modo que não reforce o antissionismo.
Se há esperança para o futuro de Israel, do judaísmo e da convivência, ela nasce da recusa em aceitar explicações prontas. Nasce da coragem de revisitar a história. Nasce da busca por uma ética que sempre foi o coração pulsante da tradição judaica. E nasce, sobretudo, do reconhecimento de que nenhuma identidade pode ser construída sobre negação permanente. O que Hurwitz chama de “confusão” talvez seja clareza moral, a busca de uma ética. A crítica não é um erro. É, portanto, um começo para reparar o curso da trajetória do sionismo.

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