Por Adu Verbis
Quando penso nas horas que passei e passo acompanhando a rotina de criadores de conteúdo, celebridades e influenciadores, percebo que algo mais profundo foi surgindo além do simples entretenimento. Não é só observar ou consumir. É sentir. É quase como uma sensação estranha de proximidade, de intimidade, mesmo sabendo, racionalmente, que aquela relação nunca seria recíproca e até pode ser perigosa, porque muitas vezes eu nem entendo direito o que essas celebridades e influenciadores querem dizer ou se realmente compreendo a concepção de mundo dessa gente com quem, de algum jeito, me sinto próximo por meio de algum meio mediático.
Descobri, tarde, que participo de uma relação parasocial que gera causa e efeito, e as causas e os efeitos disso eu acabei chamando de parapáthos do ego. Mas o que seria esse parapáthos do ego? É como um sofrimento, ou um impacto emocional, que vem de um lugar meio deslocado, desviado, não direto. Um páthos que não nasce da relação real, mas de uma via lateral: imaginária, projetada, meio borrada.
E aí eu penso de onde vem esse termo parasocial, que hoje está em toda parte. Horton e Wohl, dois pesquisadores norte-americanos de 1956, já tinham identificado esse fenômeno que hoje ficou tão comum. O público desenvolve vínculos afetivos com figuras mediáticas como se fossem amigos ou familiares, mesmo quando a figura nunca vai saber que essas pessoas existem.
Hoje, no mundo das redes sociais, das lives, dos stories, tudo isso fica ainda mais intenso. A imersão é constante. É como se o mundo inteiro coubesse em uma tela e cada interação fosse um fio invisível ligando minha vida à vida do outro, às vezes por sentimentos confusos, fuga da minha própria realidade social ou até por um desejo quieto de ser igual a essas figuras mediáticas.
Minha própria experiência revela o que chamo de parapáthos: a paixão do ego pela identificação com alguém que existe basicamente como imagem projetada. Chamo assim porque é um estado emocional que vive ao lado de um páthos pleno, uma espécie de afecção limítrofe, um sentir que quase vira sofrimento, quase vira paixão, quase vira uma identificação profunda — mas fica sempre no quase.
E não chega a ser um transtorno, nem um laço real. É um movimento afetivo marginal, suave, que nasce do contato constante com imagens e presenças mediáticas que parecem próximas, mas não são. É o sentir “quase”, aquele afeto que encosta, mas não atravessa, que aparece como uma sombra de vínculo que chamamos de parasocial.
Cada like, cada comentário, cada story assistido funciona como um pequeno ritual de autoafirmação. Meu ego se reconhece nessa percepção de intimidade com alguém que, na prática, não oferece reciprocidade. A parasocialidade não é neutra. Ela se mistura com minha necessidade de afirmação e transforma o vínculo numa espécie de intimidade de mundo compartilhado, ilusória ou forjada, para me fazer sentir parte de alguma coisa que o mundo oferece como socialização.
David Giles, psicólogo e pesquisador britânico especializado em psicologia da mídia, celebridades e comportamento do público, afirma em sua revisão da literatura que essa relação pode ser tão intensa quanto vínculos sociais reais, embora continue unilateral.
Mas é impossível não se perguntar: o que significa sentir amizade, confiança ou proximidade emocional por alguém que nem sabe que eu existo? O mundo digital sabe esconder seus caninos, e mostra esses caninos na hora certa, porque influenciadores, desde streamers até YouTubers e TikTokers, cultivam conscientemente essas conexões, muitas vezes compartilhando vulnerabilidades e detalhes íntimos da rotina. Isso reforça a ilusão de reciprocidade e repete padrões que, sinceramente, não são nada saudáveis.
O parapáthos surge quando essa percepção de intimidade é internalizada como realidade. A figura parasocial vira uma extensão de mim. E, de certa forma, não só ocupa minha atenção e meu tempo, mas passa a servir como um espelho emocional, refletindo desejos, medos e aspirações. É fascinante e inquietante perceber que minha felicidade, em alguns momentos, depende da performance mediática e digital de outra pessoa.
A digitalização extrema deixa tudo mais intenso. Interações em tempo real, algoritmos que empurram conteúdos consumidos quase sem perceber e materiais emocionalmente envolventes criam essa sensação de proximidade e pertencimento, quase como um controle emocional terceirizado. No TikTok ou no Instagram, assim como em outro meios, vejo fragmentos de vidas cotidianas e penso que conheço aquelas pessoas profundamente. Talvez porque desejo ser reconhecido também, mas a intimidade ali é mediada, filtrada e cuidadosamente construída por propósitos que nem sempre são claros para mim, que consumo tudo de forma passiva.
O ego se alegra com essa sensação de conexão, mas a conexão é fabricada e unidirecional. Isso me consome e, às vezes, me deixa vazio e perdido existencialmente, porque, quando volto para mim, só vejo a solidão. E isso afeta meu emocional num mundo complexo, manipulado por algoritmos e sustentado de forma cada vez mais frágil. E é aí que mora a lição mais profunda: a parasocialidade não é um problema por si só. Ela é, antes de tudo, uma janela para mim mesmo, uma chance de reconhecer minhas necessidades, meus desejos e minhas vulnerabilidades existenciais.
O parapáthos se manisfesta quando confundo o reflexo com a presença, a projeção com o outro. A intimidade que sinto é real em emoção, mas ilusória em reciprocidade. Preciso reconhecer essa diferença e aprender a navegar entre percepção e realidade, entre imagem e essência, entre ego e esse mundo sempre em reconstrução.
No fim, a parasocialidade funciona como um espelho emocional mediático e digital. Ela permite sentir companhia, explorar afetos ilusórios e refletir sobre quem eu sou. Mas a celebração do ego do outro, com quem me sinto íntimo, precisa ser consciente para não ferir meu próprio ego quando mergulho no parapáthos. Caso contrário, corro o risco de viver em um mundo de intimidades simuladas, onde a sensação de conexão substitui o contato genuíno e a reciprocidade se dissolve em projeção doentia. E o resultado disso pode ser frustrante quando me encontro comigo mesmo e com a própria solidão existencial.
P.S.
O termo parasocial costuma ser definido como um tipo de relação unidirecional, no qual uma pessoa sente conexão, intimidade ou familiaridade com alguém, geralmente uma figura pública, celebridade ou criador de conteúdo, sem que essa pessoa conheça ou retribua a relação.
O termo parapáthos enquanto neologismo
Definição geral
Parapáthos designa uma afecção limítrofe que se encontra ao lado ou no limiar do páthos, sem se constituir plenamente como tal. É um estado intermediário entre normalidade e afecção: física, emocional ou existencial.
Dimensão Psicológica
Como páthos também é emoção intensa, parapáthos indica uma emoção fraca, marginal, quase paixão, ainda sob controle.
Sentimento tênue (proto-emoção)
Afecção emocional periférica
Estado que anuncia um páthos emocional mais forte
Exemplo: a inquietação leve que antecede o medo pleno; o entusiasmo discreto antes da paixão.
Dimensão Filosófica
Em contexto estoico, parapáthos poderia ser visto como a perturbação inicial ainda controlável pela razão, o primeiro movimento da alma antes do páthos propriamente dito; transição entre apatheia (não-perturbação) e páthos (perturbação).
Em fenomenologia, parapáthos seria uma afecção lateral, aquilo que toca o sujeito de modo indireto, sem envolvê-lo totalmente.
Definição sintética
Parapáthos é uma afecção marginal, incipiente ou prévia, que se situa ao lado do páthos, seja como pré-doença, pré-emoção ou pré-perturbação, e anuncia, sem ainda constituir, um estado patológico ou passional completo.
Referências:
Horton, D., & Wohl, R. R. (1956). Mass Communication and Para-Social Interaction: Observations on Intimacy at a Distance. Psychiatry, 19, 215–229.
Giles, D. C. (2002). Parasocial Interaction: A Review of the Literature and a Model for Future Research. Media Psychology, 4(3), 279–305.
Rubin, A. M., Perse, E. M., & Powell, R. A. (1985). Loneliness, parasocial interaction, and local television news viewing. Human Communication Research, 12(2), 155–180.
Kowert, R. (2021). Video Games and Social Competence. Routledge.

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