sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A Moral Epistemológica do Jornalismo Progressista dianto do gol

 


Por Adu Verbis

Texto a partir do artigo de Guga Chacra: “O regime do Irã e a causa palestina” – 15/01/2026

Ao ler o artigo de Guga Chacra, publicado em 15 de janeiro de 2026, reconheço imediatamente um esforço, tanto em seus textos quanto no jornalismo contemporâneo: o de fazer malabarismo para evitar o maniqueísmo. Mas nem todos conseguem evitar o maniqueísmo. O autor critica o regime iraniano, mas não absolve Israel da ocupação da Cisjordânia; reconhece a legitimidade da causa palestina, mas separa essa causa da instrumentalização feita por grupos armados e por uma teocracia autoritária. Esse esforço em equilibrar o texto para não deixá-lo com cara maniqueísta é real e merece reconhecimento. O mérito está no esforço. Vamos ler um trecho do artigo escrito pelo jornalista Guga Chacra:

"A queda do regime do Irã seria uma das melhores notícias para palestinos, libaneses e israelenses. As ações da ditadura iraniana afetaram a soberania libanesa através do Hezbollah, prejudicaram a justa causa palestina e apavoraram Israel com ameaças de destruição do país. Pode parecer um contrassenso quando falo do Líbano e da Palestina para quem acompanha pouco o cenário geopolítico do Oriente Médio e imagina equivocadamente que os aiatolás ajudaram essas duas nações árabes."

Ainda assim, é justamente nesse ponto, entre esforço e equilíbrio, que identifico o que considero o problema central do texto. Não se trata de erro factual, nem de alinhamento ideológico grosseiro, mas de algo mais profundo: o artigo está contaminado pelo que chamo de moral epistemológica, muito comum no jornalismo que deixa transparecer uma veia progressista, como se ser progressista fosse coisa de seres especiais, cujas percepções estariam além do tempo e do espaço. Pois bem, contei a piada, e agora preciso explicá-la.

Entendo por moral epistemológica o regime de conhecimento no qual valores morais previamente definidos, como civilidade, progresso, direitos humanos e democracia liberal, passam a organizar quais fatos históricos são considerados relevantes, quais experiências são relativizadas e quais consequências são tratadas como aceitáveis ou temporárias. Trata-se da ética de quem acredita que possuir a resposta moral correta autoriza antecipar o futuro, mesmo quando o passado insiste em demonstrar que essa moral epistemológica não é capaz de produzir um mundo maravilhoso.

Voltemos ao artigo de Guga Chacra. O texto parte de uma tese sedutora, muito peculiar ao jornalismo dito progressista: a queda do regime iraniano seria uma boa notícia para palestinos, libaneses, israelenses e, sobretudo, para os próprios iranianos. A crítica ao papel do Irã no apoio ao Hamas e ao Hezbollah é consistente. O regime iraniano, de fato, não promove soberania palestina nem estabilidade libanesa; instrumentaliza causas legítimas para fins ideológicos e geopolíticos, frequentemente à custa das populações. Até aqui, acompanho o argumento sem reservas, mas não posso deixar de acrescentar que o mundo árabe também não promove soberania palestina nem estabilidade para os palestinos.

Veja este trecho do artigo, que carrega toda uma aura de neutralidade analítica, mas que, no fundo, revela apenas um alinhamento com ideias de civilidade do Ocidente:

"Não houve nenhuma ação da ditadura de Teerã que tenha beneficiado os palestinos. Aliás, a teocracia dos aiatolás nunca quis ajudar a construir uma nação palestina e, sim, teve como objetivo pregar a destruição de Israel, muitas vezes adotando tons antissemitas."

Vejo, então, que o problema do artigo surge quando essa crítica flutua no vácuo de ideias e de histórico. Em nenhum momento o texto confronta, de maneira central, a pergunta que deveria ser incontornável para qualquer jornalismo progressista: quando a queda de regimes ditos hostis aos Estados Unidos e a Israel trouxe benefícios reais aos povos do Oriente Médio?

A Líbia não é um exemplo isolado, mas uma evidência estrutural. Antes de 2011, não era uma democracia, mas era um Estado funcional, com indicadores sociais elevados para os padrões regionais. Após a intervenção liderada pelos Estados Unidos e pela OTAN, o país foi reduzido a um território fragmentado, dominado por milícias, tráfico humano e guerra civil permanente. Não houve liberdade, não houve democracia, não houve reconstrução institucional. Houve colapso.

O mesmo padrão se repete no Iraque, no Afeganistão e, em graus diferentes, na Síria. Em todos esses casos, a retórica da libertação conviveu com a destruição do Estado, a erosão da soberania e a multiplicação do sofrimento humano. Quando esse padrão se repete de forma tão consistente, deixa de ser contingência e passa a ser aprendizado histórico. Ignorá-lo não é neutralidade analítica; é uma escolha epistemológica com implicações morais profundas.

É aqui que aparece a contradição do jornalismo progressista (seja de esquerda ou de direita): ele é corretamente implacável com ditaduras não alinhadas ao Ocidente, mas estranhamente indulgente com o histórico destrutivo das democracias liberais quando estas projetam poder fora de suas fronteiras. O autor menciona, de passagem, o risco de guerra civil ou de caos no Irã pós-regime, mas trata esse risco como nota de rodapé, não como centro da análise. No entanto, defende o Líbano de modo simplista e atribui as causas do colapso libanês quase exclusivamente a Teerã.

"O Líbano, única democracia do mundo árabe, também sofreu enorme impacto negativo de ações do regime de Teerã em seu território."

Essa assimetria não é casual. Ela decorre de uma confiança persistente naquilo que chamo de receita de civilidade: a crença de que, uma vez removido o obstáculo autoritário, sociedades caminham naturalmente em direção a um modelo normativo previamente definido. Quando isso não acontece, o erro nunca é da receita, mas da realidade, que talvez ainda não amadureceu, ou das alternativas, que teriam sido mal implementadas ou estruturalmente frágeis.

Essa é a falha central da moral epistemológica nos pregressistas: bons valores passam a substituir evidências históricas. O sofrimento previsível vira custo transitório, enquanto a intenção declarada ganha status de critério de verdade. O resultado é uma análise que parece equilibrada, mas repousa sobre uma esperança abstrata, não demonstrada empiricamente e que, no limite, cumpre apenas um papel representativo para progressistas que, quando o bicho pega, não viram bucha de canhão e permanecem seguros em seus territórios protegidos.

Aqui não se trata de defender o regime iraniano. Trata-se de reconhecer que o mundo real raramente oferece escolhas entre ditadura e liberdade, mas frequentemente entre ordem autoritária e caos violento. E, até agora, sempre que os Estados Unidos atuaram como agentes dessa transição no Oriente Médio, o caos venceu. Vence porque os EUA não conseguem criar um mundo progressista fora de suas fronteiras e, paradoxalmente, essa pretensão civilizatória começa a corroer o próprio projeto de poder americano. E o jornalista fecha o artigo desejando algo que, no fundo, é difícil acreditar que realmente deseje:

"E o ideal seria que essa queda ocorresse sem intervenção estrangeira e, sim, através de protestos pacíficos da população iraniana ou de uma transição política."

Portanto, a moral epistemológica, quando reduzida a boas intenções, frequentemente se volta contra o próprio rigor que deveria sustentar. Em nome de uma ética declarada, ela suspende a responsabilidade pelo que já se sabe. Contra isso, exige-se que a história recente não seja tratada como ruído, mas como evidência normativa. Exige-se que a crítica ao autoritarismo seja acompanhada do mesmo rigor na análise das alternativas oferecidas pelo poder hegemônico; alternativas que, na prática, não se apresentam senão como promessa abstrata seguida de caos, no qual as boas intenções acabam por se diluir.

Para fechar este papo estranho sobre gente normal, mas se comporta de maneira estranha, digo que o jornalismo progressista encena autonomia crítica em um campo onde não possui autonomia estrutural real. Sem esse ajuste de moral epistemológica, o jornalismo progressista não corrige a barbárie que denuncia; limita-se a reorganizá-la sob um vocabulário que promete civilidade, simulando uma autonomia crítica que não possui.

E, diante do gol, seguirá errando. Não por falta de chance, mas por insistir em falar como sujeito autônomo em um jogo cujas regras não controla. Erra o gol porque nunca foi ele quem escolheu onde as traves estariam. Autonomia discursiva sem autonomia estrutural é apenas performance moral.


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Literatura e o Feminicídio



Por Adu Verbis

Durante anos, como escritor, escrevi sobre a violência e, sobretudo, sobre a violência em que a mulher sempre fora o mote. Eu escrevia acreditando que nomear o horror fosse uma forma de interrompê-lo, como se cada palavra pudesse acender uma luz suficiente para afastar alguém do abismo da violência. Havia, nisso, uma ponta de denúncia e de esperança, talvez ingênua, mas era uma ingenuidade sincera: a de que escrever pudesse salvar.

Cada conto, cada romance carregava essa expectativa frágil. Eu escrevia imaginando que a literatura pudesse suspender o golpe, atrasar o grito, romper o silêncio que havia em torno da violência contra a mulher. Mas, enquanto escrevia, algo em mim remoía, alertando que o que eu fazia também podia ser uma forma de incentivar a violência. A escrita, então, transformava-se em culpa. Culpa por narrar a violência e, ao mesmo tempo, por transformá-la em literatura, por converter em forma estética uma dor real, cotidiana, irrecusável e de uma dimensão inenarrável.

No início, tentei acreditar que essa culpa fosse apenas o preço de quem decide olhar diretamente para o horror e aplicar nele a estética do distanciamento, de modo que pudesse tocar o leitor com a realidade da violência contra a mulher. Mas a culpa crescia em mim, não no leitor. Cresceu quando ficou evidente que os livros não interrompiam nada. Permaneciam nas prateleiras, intactos. Poucos eram lidos. E, fora da ficção, a violência contra a mulher só aumentava. Os números subiam, os nomes se acumulavam, os corpos viravam estatística, e nenhuma lei parecia suficiente para conter esse avanço.

Pois bem, nenhum dos contos ou livros que escrevi interrompeu um golpe de faca, estrangulamento ou um tiro. Nenhuma frase, mesmo romantizada, devolveu alguém à vida. A violência seguiu seu curso, brutal e autônomo, indiferente à denúncia literária e, sobretudo, indiferente à minha escrita, violenta e, ao mesmo tempo, ingênua.

Por um momento, pensei que, se quase ninguém lia meus livros, talvez não houvesse de minha parte responsabilidade alguma pela violência contra a mulher. Se os livros não produziam efeito, também não poderiam produzir dano. Mas essa ideia não trouxe alívio. Eu não escrevo do vazio. Não sou um escritor isolado do mundo. Sou parte de uma sociedade e um ser que também produz e gera violência.

O incômodo apenas mudou de lugar. A escrita não alimentava diretamente a violência contra a mulher, mas também não a enfrentava. Tornava-se irrelevante diante de uma realidade que se impunha sozinha e era mais forte do que qualquer literatura cheia de pretensões estéticas e políticas. Contudo, admitir isso foi difícil: talvez eu tivesse superestimado o alcance da literatura. Talvez tivesse confundido denúncia com transformação e, ao mesmo tempo, estivesse longe de denunciar e ainda mais distante da possibilidade de transformação.

A culpa, então, mudou de forma. Já não era apenas culpa por escrever mulheres mortas de modo banal e recorrente, mas culpa por ter acreditado, durante tanto tempo, que escrever já fosse um gesto político suficiente. Passei a me perguntar se a repetição constante da violência por meio estético não acabava por normalizar o horror. Se o excesso de imagens não diluía o choque. Se a familiaridade não tornava a violência mais suportável.

Às vezes, cheguei a pensar que o silêncio parecia mais ético. Em outras, o silêncio parecia cúmplice. Mas calar também assombra. O silêncio absoluto não protege ninguém; apenas deixa a violência sem testemunho. Ainda assim, escrever sobre o assassinato de mulheres começou a me parecer um gesto ambíguo, situado entre a tentativa de testemunhar o feminicídio cotidiano e o risco de estetizá-lo.

Hoje, esse paradoxo permanece em mim, sem solução. A escrita nasceu como denúncia, mas o sentimento é de falha. A intenção era gritar e pedir ajuda, mas ninguém foi salvo. A violência continuou a crescer, com ou sem os meus livros. O que mais dói não é o fracasso literário, mas a consciência de que olhar para o abismo cria uma responsabilidade que não se sustenta sozinha. Talvez o erro tenha sido acreditar que a forma, por si só, fosse enfrentamento.

Enquanto isso, o feminicídio atinge patamares cada vez mais altos. Não por causa da literatura, mas apesar dela. A denúncia circula por outros meios, mais diretos, mais urgentes, mais políticos e mais organizados. Ainda assim, a violência não diminui. Isso sugere que o problema não está apenas na maneira de denunciar, mas na ausência de um compromisso real com a transformação. Denunciar não basta quando a estrutura social que produz a violência permanece intacta, protegida, funcional.

As mulheres têm o direito absoluto de denunciar, de narrar, de escrever, de transformar a própria experiência em palavra, literária, política ou íntima. A denúncia pode ser sobrevivência, memória, resistência. O que não pode existir é a exigência de que essa tarefa recaia apenas sobre as mulheres. A denúncia não tem resultado quando a omissão coletiva é quase absoluta.

Quando a violência é narrada e denunciada apenas pelas mulheres, a responsabilidade se desloca silenciosamente. O problema passa a parecer delas: íntimo, individual, quase privado. A denúncia é um direito. A transformação, não. A transformação é uma responsabilidade coletiva. Sem isso, cada relato permanece solitário diante de um sistema que continua intacto, produzindo violência com regularidade, enquanto a literatura, a política e a lei orbitam o dano sem conseguir, de fato, interrompê-lo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

O que é soberania diante da geopolítica realista com viés imperialista?


Por Adu Verbis

Escrevo este texto movido por uma constatação óbvia e incômoda: a distância entre o que o Direito Internacional promete e o que a política internacional efetivamente pratica. Basta observar o sequestro de Maduro realizado pelos EUA. A soberania é apresentada como um princípio fundamental, quase sagrado, mas, na realidade concreta do sistema internacional, ela se mostra frágil, condicional e profundamente assimétrica. Questionar o significado da soberania diante da geopolítica realista do imperialismo é, portanto, questionar os limites do próprio direito em um mundo estruturado pelo poder.

No plano jurídico, a soberania ocupa o eixo central do sistema internacional moderno. A Carta das Nações Unidas consagra a igualdade soberana dos Estados, a autodeterminação dos povos e a proibição da intervenção externa. Em teoria, nenhum Estado deveria se sobrepor a outro; todos seriam formalmente iguais perante o direito.

Essa concepção cria a expectativa de um sistema regulado por normas, no qual conflitos seriam resolvidos por meios institucionais, e não pela força. A soberania, nesse sentido, funciona como uma garantia: delimita fronteiras, protege escolhas políticas internas e assegura autonomia econômica e social. Contudo, essa promessa normativa começa a ruir quando confrontada com a prática das relações internacionais, especialmente diante de doutrinas que buscam manter Estados periféricos sob controle.

A geopolítica realista parte de um pressuposto distinto: os Estados não agem prioritariamente de acordo com normas, mas conforme interesses estratégicos. Segurança, acesso a recursos, estabilidade econômica e projeção de poder moldam as decisões centrais da política externa.

Nesse cenário, a soberania deixa de ser um direito absoluto e passa a representar uma capacidade desigual. Estados que concentram poder militar, econômico e financeiro exercem soberania plena e são os primeiros a violar leis que impõem limites a seus interesses. Estados periféricos, por sua vez, desfrutam de uma soberania condicionada, respeitada apenas enquanto não colide com os interesses centrais das grandes potências que concentram esse poder.

A Doutrina Monroe ilustra bem essa lógica. Embora nunca tenha sido reconhecida como norma jurídica internacional, ela operou por décadas como princípio orientador da política externa dos Estados Unidos nas Américas. Sua eficácia não derivou da legalidade, mas da capacidade material de imposição. A Doutrina Monroe nunca deixou de operar para garantir e assegurar os interesses geopolíticos dos EUA.

A Organização das Nações Unidas simboliza a tentativa de submeter a política internacional ao direito. No entanto, sua própria estrutura revela os limites desse projeto. O Conselho de Segurança concede poder de veto a cinco Estados, criando uma hierarquia formal dentro de um sistema que proclama a igualdade soberana.

Na prática, isso significa que a maioria dos países pode reconhecer uma violação do Direito Internacional sem que isso produza consequências concretas. O veto transforma a legalidade em algo seletivo, subordinado à vontade das grandes potências.

As normas contra intervenção, uso da força e coerção existem. O problema não reside na ausência de leis, mas na falta de mecanismos eficazes para aplicar essas normas contra aqueles que detêm poder suficiente para bloqueá-las e, assim, manter interesses próprios, mesmo quando esses interesses violam o Direito Internacional.

O imperialismo contemporâneo raramente se apresenta de forma explícita. Diferente do colonialismo clássico, não exige ocupação territorial permanente. Opera por meios mais sofisticados: sanções econômicas, controle financeiro, dependência tecnológica, pressão diplomática e, quando considerado necessário, intervenção militar.

Nesse contexto, a soberania torna-se seletiva. Estados são reconhecidos como soberanos no discurso, mas tratados como subordinados na prática. Quando um país tenta exercer autonomia econômica, controlar recursos naturais ou buscar alternativas fora da ordem dominante, sua soberania passa a ser questionada.

A retórica que acompanha essas ações costuma invocar valores universais, como democracia, direitos humanos e segurança internacional, mas frequentemente encobre disputas geopolíticas e econômicas concretas, disputadas por blocos e seus respectivos interesses.

A soberania econômica revela-se um dos campos mais sensíveis dessa disputa. Controlar a moeda, definir parceiros comerciais e administrar recursos estratégicos são atos formalmente soberanos, mas politicamente arriscados para Estados periféricos.

O sistema financeiro internacional, estruturado em torno de centros de poder específicos, impõe limites práticos à autonomia nacional. Quando essas estruturas são desafiadas, a reação raramente ocorre no plano jurídico; manifesta-se por meio de coerção econômica, isolamento político ou ação militar.

Isso não significa que toda intervenção decorra de um único fator econômico, mas evidencia que interesses estruturais pesam mais do que normas quando entram em jogo questões consideradas vitais pelas grandes potências.

Concluo, portanto, que a soberania, no mundo contemporâneo, não constitui uma condição garantida, mas uma disputa constante. O Direito Internacional fornece uma linguagem de contenção, legitimação e resistência, mas não elimina a centralidade do poder.

A geopolítica realista expõe os limites das normas diante de interesses estratégicos. Enquanto o sistema internacional permanecer estruturado em torno do veto, da assimetria de poder e da seletividade jurídica, a soberania plena continuará sendo privilégio de poucos.

Reconhecer essa realidade não implica abandonar o Direito Internacional, mas compreendê-lo como parte da luta por mudanças. Ele não funciona como escudo absoluto contra o imperialismo, mas como um campo de disputa simbólica e política em um mundo ainda governado, em última instância, pela força dos Estados militarmente fortes.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Enquanto houver conflito de classe, o Estado será o responsável por encontrar um equilíbrio possível



Por Adu Verbis

Eu já não compro mais a ideia de que o Estado é um erro que pode simplesmente ser desligado, nem a noção de que ele deve, ou vai, desaparecer quando a humanidade amadurecer. Essa ideia pressupõe um ser humano utópico que nunca existiu e nunca existirá. Hoje, não consigo mais pensar o Estado nem como um simples erro histórico, nem como uma entidade redentora. 

Quanto mais avanço na leitura de Marx, dos liberais e de seus críticos, mais me parece que o Estado é menos uma escolha moral e mais uma consequência estrutural de um conflito social que precisa ser administrado. Ou seja, o Estado impõe limites porque a humanidade não é capaz de se auto-organizar em prol de um bem comum coletivo, mas sim em prol de grupos que definem quem é digno de pertencer e quem deve ser excluído.

Marx estava certo em um ponto fundamental: o Estado não é natural. Ele não cai do céu, não nasce de um instinto moral, não é neutro. Ele surge do conflito. É uma máquina histórica criada para organizar a violência social e dar forma legal ao que, sem isso, seria puro confronto. No capitalismo, o Estado vira o balcão da burguesia, segundo Marx. Já no comunismo, parece que o Estado se perde diante da complexidade dos conflitos e acaba não conseguindo resolvê-los.

Talvez Marx acreditasse demais no ser humano. Assim, pensava que, resolvida a questão material, a contradição desapareceria junto. Como se o desejo de poder, de controle e de hierarquia fosse apenas um subproduto da economia, e bastasse uma direção ética para lapidar o lado ruim do homem e fazer emergir o seu lado bom por meio da consciência política, resolvendo, então, os conflitos e contradições. Marx era um grande teórico, mas sabia pouco sobre o ser humano.

Porque o ser humano não é apenas explorado; ele também explora. Não é só vítima; também é abusador e gosta do poder. Existe um prazer real no controle, no domínio, em estar acima, e isso atravessa classes, ideologias e discursos morais. Marx desmonta o Estado como forma histórica, mas subestima o quanto a brutalidade humana é reciclável e duradoura, justamente porque o ser humano é essencialmente contraditório. Portanto, a frase “faça o que eu mando, não faça o que eu faço” veste muito bem a alma humana e revela que o conflito começa no sujeito antes de se expandir para a luta de classes.

Adorno enxergou esse conflito com mais clareza. Quando fala do Falso, não se refere apenas à ideologia econômica, mas a algo mais profundo: uma sociedade inteira organizada para produzir sujeitos adaptados, conformados e obedientes, que ao mesmo tempo desejam mandar quando têm a chance de exercer poder. Como diria Nietzsche, seguem o desejo de outros desejosos de poder. O Falso não é apenas a mentira que a burguesia conta e que se institucionaliza como prática. É a mentira que as pessoas aceitam porque ela organiza o caos interno: a ideia de que a própria vez vai chegar e de que o poder e a fortuna virão por mérito. O Falso é a matéria-prima da sociedade dividida em classes ideológicas e religiosas.

Por isso, a ideia do definhamento do Estado, termo usado por Marx, soa bonita no papel, mas ingênua na prática. Não porque o Estado seja bom, mas porque o vazio que ele deixaria não seria preenchido por cooperação espontânea ou por uma milícia da boa vontade. Esse vazio seria ocupado por algo pior: o poder cru, sem mediação, sem limites, sem sequer o constrangimento da lei capaz de freá-lo.

O liberalismo radical também trabalha pelo definhamento do Estado, acreditando que sua retirada resolveria o problema. Não resolve. Apenas muda quem manda. O poder não desaparece; ele se privatiza. A violência não acaba; perde apenas o verniz institucional. O mercado não pacifica nada. Apenas organiza o conflito em favor dos mais fortes e de quem se dispõe a vender falsos benefícios.

O mais irônico é que esses liberais radicais acabam reutilizando ideias de Marx sem perceber. Também acreditam que o Estado não é natural. Também acham que ele pode desaparecer. Ignoram, porém, que sem mediação o conflito não some; transforma-se em sobrevivência. E a sobrevivência não gera liberdade, mas barbárie e genocídio.

O que Marx esquece, e Adorno lembra, é que a dominação não é apenas estrutural; ela é desejada e pensada. Há algo profundamente humano em querer controlar o outro, em impor ordem, em transformar insegurança em autoridade. O Estado não nasce apenas da economia, mas do medo, da agressividade e da necessidade de controle. Por isso, nunca definha de verdade, pois quem sustenta o Estado busca poder, não equilíbrio entre classes nem o fim da luta de classes.

Enquanto houver pessoas que se sentem seguras mandando e outras que aceitam obedecer em troca de estabilidade ou benefícios pessoais, o Estado continuará ali. Mudará de forma, de discurso e de ideologia, mas sempre organizará o conflito de maneira aceitável. Trata-se da administração de um falso equilíbrio em prol da manutenção do poder.

Talvez o erro não seja pensar o Estado como solução ou problema, mas reconhecê-lo como sintoma de uma essencialidade humana submetida a um processo de aculturação (processo de domesticação da selvageria humana)O Estado é esse sintoma, não sua superação. Por isso, ele não se estabiliza: bambeia, como um bêbado, entre um equilíbrio possível e a selvageria institucional. Enquanto sintoma, não é justo, não é neutro, nem bom; funciona apenas como mecanismo de organização e redistribuição da violência e da desigualdade que expressa. E toda teoria que ignora o quanto o ser humano é essencialmente contraditório, ressentido e sedento por poder termina por se converter exatamente naquilo que prometia superar: mais uma forma bem-intencionada de dominação.

No fim, talvez o mais honesto seja admitir: não somos racionais o suficiente para viver sem Estado, nem éticos o suficiente para torná-lo verdadeiramente emancipador. Enquanto isso não muda, se é que pode mudar, o Estado permanece, não porque deveria existir, mas porque somos exatamente quem somos: humanos predatórios. Precisamos e autorizamos a vigilância do Estado para conter uma selvageria que não suportamos, mas que utilizamos quando convém. A luta de classes nunca foi apenas por bens materiais, mas por poder simbólico, e é desse poder simbólico que emana a violência simbólica. Da luta de classes sempre podem nascer rosas de Hiroshima.

domingo, 21 de dezembro de 2025

O monologo de um ser no abandono epistemológico e no desencontro ontológico - absoluto teatro



Por Adu Verbis

Eu já falei para minha mãe que nem percebi quando deixei de confiar no que sabia. Em tudo o que ela e o mundo me ensinaram como certo e errado. Não houve um momento claro de ruptura entre o que eu sabia e o que deixei de saber, nem vivi algum gesto dramático. Foi mais parecido com um silêncio que se instala aos poucos, como um calçado apertado. Como se a minha experiência deixasse de ter peso. Como se aquilo que eu via, sentia e pensava precisasse sempre de validação externa para existir. Assim como a aprovação das roupas que eu vestia, porque todos vestiam as mesmas roupas que eu. Hoje chamo esse estado de abandono epistemológico: não é ausência de informação, mas a perda do direito íntimo de conhecer a partir de mim.

Então passei a repetir discursos com mais facilidade do que formular perguntas, porque as perguntas podem ser pedras no sapato ou o calcanhar de Aquiles. Então, adaptei as palavras que já vinham prontas. As explicações já estavam dadas, e eu apenas as vestia, como quem aceita um uniforme. Afinal, uniformes são respeitados. Vi que havia conforto nisso. Pensar por conta própria exigia enfrentar o risco do erro, do isolamento, da incompreensão. Pertencer, ao contrário, oferecia abrigo. Bastava concordar. Bastava alinhar tudo.

Nesse ponto, a imaginação simbólica coletiva tornou-se mais forte do que a minha própria capacidade de imaginar quem eu era e quem eu poderia ser. Ela oferecia imagens prontas de humanidade, de pertencimento, de valor resiliente. Eu só precisava escolher onde me encaixar. A escolha parecia liberdade, e eu até achava que era mesmo liberdade, mas era apenas seleção entre moldes. A imaginação individual, mais lenta, contraditória e incômoda, começou a parecer um risco e algo desnecessário.

Foi assim que me encontrei no que chamei de desencontro ontológico. Esse desencontro se instalou em mim não como uma crise explícita, mas como um deslocamento contínuo. Eu existia em narrativas que não tinham sido geradas a partir de mim, e nem mesmo sabia de onde vinham. Minha presença era real, mas minha existência era derivada de algo que, ontologicamente, formatava uma presença incognoscível. Eu era reconhecido, mas não era refletido enquanto razão. Olhava para as imagens que me representavam e sentia uma familiaridade estranha, por assim dizer. Como quem se vê em um espelho que devolve um rosto correto, mas vazio, como se fosse um reconhecimento facial que, no entanto, recusava a minha identidade. É assim, estranho, mas era isso mesmo.

Comecei também a perceber que a fragmentação do ser não acontece do nada, nem apenas quando somos violentamente negados, mas também quando somos excessivamente integrados, a ponto de escoar o ser pela medula óssea. Contraditoriamente, cada pertencimento exigia pequenas renúncias: uma dúvida que não deveria ser formulada, uma pergunta considerada nada a ver, uma experiência pessoal desqualificada por não caber na gramática coletiva. Essas renúncias, isoladamente, podiam não parecer graves, mas juntas formavam um padrão de autoapagamento de tudo o que eu era. Eu era tudo e nada ao mesmo tempo, uma mistura que enlouquecia, porque o ser é frágil, como sangue que corre nas veias e pode ser contaminado por nanos perigos da essencialidade.

E, enquanto me aprofundava no abandono epistemológico, esse processo se intensificava porque eu já não confiava na minha experiência como fonte legítima. Eu sentia, mas precisava confirmar nos paradigmas que me compunham e me desconstruíam. Eu intuía, mas precisava traduzir tudo em uma linguagem autorizada pela episteme que supunha o que era verdade. Aos poucos, aprendi a desconfiar de mim antes mesmo de qualquer questionamento externo. A censura tornou-se interna, elegante até certo ponto, e eficiente em roer as unhas que cresciam sem autorização. Eu mesmo filtrava o que podia ou não existir em mim, já moldado por um valor resiliente líquido que sempre acabava em enxurrada.

Nesse estágio, por assim dizer, atávico e errático, em um êxodo do não-ser nos não-lugares, a busca por pertencimento se intensificou. Enquanto isso, deixei que o ser desejoso se tornasse apenas uma necessidade ontológica. Pertencer não era só estar com os outros, mas garantir alguma continuidade do ser errático no meio de uma emoção que parecia enxurrada. O grupo oferecia aquilo que eu havia perdido: contorno, nome, estabilidade. Em troca, pedia coerência. Não a coerência viva do ser em processo, mas a coerência ideológica da imagem e da manutenção da ideologia. Eu aceitei, porque a alternativa parecia ser o vazio, e o vazio não gosta do ser, porque o ser já é vazio.

Mas o vazio nunca desapareceu. Ele apenas mudou de lugar. Em vez de estar fora, passou a habitar zonas silenciosas da minha existência, aquelas que não encontravam linguagem, reconhecimento ou utilidade no ser e no não-ser. Eu me tornava cada vez mais competente em sustentar uma identidade e cada vez menos capaz de escutar o que não cabia nela. O desencontro ontológico não gritava; ele se acumulava como uma erosão em um sítio íngreme.

Houve um momento, lento e sem epifania, em que compreendi que não se tratava de escolher entre o eu e o nós, mas de recusar um tipo específico de nós: aquele que só existe à custa do abandono epistemológico. Um nós que exige a suspensão da imaginação individual, que transforma pensamento em lealdade e identidade em trincheira ideológica que promete, mas não entrega.

Percebi também que recuperar a capacidade de conhecer a partir de mim não significava rejeitar o mundo, mas reaprender a habitá-lo, porque o mundo cobrava resiliência o tempo todo. Reivindicar a experiência como fonte de sentido é um gesto pequeno, quase imperceptível, mas com algo de subversivo. Passei a aceitar um ser pequeno e, ao mesmo tempo, excessivo. Um ser que não cabe inteiro em nenhuma imagem coletiva. Toda tentativa de fechamento do que se é produz mais fragmentação, porque o ser, em si, é excessivo na própria pequenez. Não a de Pequim, nem a do cachorro pequinês, mas a pequenez ontológica.

Hoje, quando penso em pertencimento, já não imagino fusão, mas vizinhança. Talvez porque minha vizinha me odeie, e eu juro que não fiz nada para isso acontecer. Estar junto sem desaparecer sempre foi um sonho. Compartilhar sem diluir também foi um ideal. Reconhecer sem capturar já soa abstrato demais. Isso não resolve definitivamente o abandono epistemológico nem o desencontro ontológico. Talvez nada resolva. Mas cria frestas de esperança, possibilidades de pertencimento e espaços onde o ser que sou pode respirar sem pedir permissão às praxes. A praxe é sempre habitual, já dizia minha vó.

Falo isso comigo mesmo porque falar consigo ainda é uma forma de resistência íntima. Um esforço de reunir o que foi separado, de dar linguagem ao que ficou à margem, de lembrar que existir não é apenas ocupar um lugar no mundo, mas poder dizer, mesmo com hesitação: isto é o que vejo, isto é o que sou, por enquanto. Por enquanto.

Hoje entendo que resistir ao abandono epistemológico é um ato de cuidado consigo. Enfrentar o desencontro ontológico é aceitar que o ser não cabe inteiro em nenhuma imagem ou ideia pronta, ou mesmo num lugar que não seja um não-lugar. Entre o desejo de pertencer e a necessidade de existir, sigo tentando construir um lugar onde seja possível, enfim, habitar o que sou, porque nem eu mesmo sei exatamente o que sou. Ainda não sei que sou... Mas também tenho dúvidas se saberei.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Por que os políticos não fazem exame de competência, assim como um médico ou como tirar carteira de motorista?



Por Adu Verbis

O Brasil, em 2026, entra em mais um processo eleitoral, e o povo vai ter que escolher novos representantes ou votar nos que já estão no poder. Mas tem uma coisa que sempre causou estranhamento: o fato de que, em praticamente todas as áreas da vida pública e privada, algum tipo de qualificação mínima é exigido, menos, justamente, para quem exerce uma das funções que considero super sensível, que é legislar.

Acompanhe a minha tese e veja o que você pensa sobre. Para dirigir um carro, é preciso passar por provas teóricas e práticas. Para exercer a medicina, exige-se uma formação longa e a validação por conselhos profissionais. Para advogar, é necessário passar pelo exame da OAB. Até mesmo para ocupar cargos técnicos no serviço público, o candidato precisa demonstrar conhecimento por meio de concursos.

No entanto, para tornar-se deputado, senador ou vereador, pessoas responsáveis por criar leis, alterar direitos e moldar o funcionamento do Estado, não é exigido absolutamente nenhum exame de competência mínima, nem mesmo sobre a Constituição do país. Ao legislar, nada é feito do nada. Legislar exige a Constituição como referência do que é possível e do que não é possível, porque a Constituição é a partitura jurídica. Ainda assim, boa parte dos políticos desconhece a Constituição que serve de base para a legislação. Um político, muitas vezes, conhece mais da Bíblia do que da Constituição do país que rege toda uma nação e preserva os direitos dessa mesma nação.

Isso não significa defesa de uma tecnocracia nem negação do princípio democrático. O voto popular continua sendo central. Mas há uma diferença importante entre escolher representantes e aceitar que esses representantes desconheçam os limites legais do próprio cargo. A Constituição não é um detalhe, ela é o fundamento de tudo o que um político pode ou não fazer. Legisladores que não conhecem a Constituição acabam legislando às cegas ou, pior, ficam dependentes de assessores, partidos e coligações, tornando-se, muitas vezes, o que popularmente se chama de políticos de aluguel ou partido de aluguel.

A ausência de um exame para o exercício dos cargos de vereador, deputado e senador abre uma incoerência difícil de ignorar. A própria legislação brasileira já exige que o candidato saiba ler e escrever, sob a justificativa de que isso garante condições mínimas para o exercício da cidadania política. No entanto, saber ler e escrever não garante conhecimento, muito menos compreensão constitucional.

Se o Estado aceita a alfabetização como critério de elegibilidade, parece intelectualmente honesto exigir o passo seguinte: verificar se essa capacidade básica resulta em compreensão real da Constituição. Um exame mínimo de conhecimento constitucional não cria um novo filtro cognitivo nem impõe erudição jurídica. Ele apenas verifica se o candidato compreende o texto que fundamenta, limita e legitima o poder que pretende exercer. Isso também permite que o próprio candidato tenha noção da sua percepção de mundo e reconheça se essa percepção entra em conflito com os princípios constitucionais e democráticos, podendo exercer o cargo com consciência das possíveis contradições entre suas ideias e as cláusulas pétreas do país.

Alguns países já reconhecem, ainda que timidamente, que algum nível de qualificação é necessário. O caso do Butão é ilustrativo. Lá, candidatos ao parlamento precisam atender a critérios educacionais mínimos, como possuir diploma universitário. Não é um exame constitucional formal, mas o princípio é claro: governar exige preparo. A democracia não enfraquece ao reconhecer isso, pelo contrário, fortalece-se quando um político entende que não pode criar leis inconstitucionais. A falta de conhecimento constitucional acaba judicializando a política, pois os órgãos responsáveis por zelar pela Constituição precisam interferir judicialmente para garantir parâmetros constitucionais.

Trazer essa discussão para o Brasil não significa copiar modelos estrangeiros, mas enfrentar uma incoerência interna e o conflito entre os poderes, que se tornou cansativo e repetitivo. Pense comigo, se um motorista precisa conhecer as leis de trânsito pra não colocar vidas em risco, por que um político não precisa demonstrar conhecimento da Constituição antes de propor leis que afetam milhões de pessoas? Se um médico pode ser impedido de exercer a profissão por falta de competência técnica ou por falta de ética médica, por que um político que vai legislar para um pais pode assumir o cargo sem sequer entender e compreender os direitos fundamentais que rege a nação?

Por isso, considero importante a existência de um exame básico de competência constitucional: público, gratuito, objetivo e eliminatório. Um exame assim não serviria para ranquear candidatos nem para excluir grupos sociais, mas para garantir algo muito simples: que qualquer pessoa que ocupe um cargo político estude e saiba minimamente o que pode e o que não pode fazer. Não seria um exame de excelência nem elitista, mas uma forma de alfabetização cívica e política, evitando a criação de leis que distorçam direitos fundamentais ou resultem em aberrações que prejudiquem o país ou determinados grupos que não têm lóbi para lutar a seu favor.

Isso não resolveria todos os problemas da política brasileira. Não acabaria com o fisiologismo, nem com a corrupção, nem com o oportunismo. Mas ajudaria a reduzir a figura do político que apenas repete discursos prontos, vota conforme ordens partidárias, transfere sua responsabilidade constitucional a terceiros e deixa o povo de escanteio. Um político que conhece a Constituição tem mais condições de exercer autonomia, resistir a pressões indevidas, responder ao eleitor com responsabilidade e propor leis alinhadas à Constituição.

No fundo, a pergunta não é se essa proposta seria antidemocrática. A pergunta real é outra: por que tanta exigência de competência em todas as áreas, menos naquela que define as regras de todas as outras? Se a ideia de Estado de Direito for levada a sério, talvez seja hora de admitir que representar o povo também exige conhecimento do que a Constituição diz, para evitar decisões ruins em nome de interesses individuais ou de grupos poderosos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Gehry e Niemeyer: a arquitetura como morada do espírito do tempo


Por Adu Verbis


Quando caminho entre as formas inquietas do arquiteto Frank Gehry (1929-2025) ou sob as curvas líricas e luminosas da obra de Oscar Niemeyer (1907-2012), percebo algo que sempre me escapa a resposta: como dois arquitetos tão distantes no tempo, no território e na história da arquitetura podem tocar o mesmo gesto essencial, o de transformar o espaço em testemunho da alma, e ainda assim revelar mundo tão distintos?


Ao me aproximar de uma obra de Frank Gehry, sinto como se estivesse adentrando um território onde a realidade é sonhada e perde o contorno fixo, talvez passando a oscilar entre sonho e realidade, vibrando como um quadro de Salvador Dalí, que se desfaz e se reconstrói diante de mim. Há algo na obra de Gehry que me inquieta e me deixa num estado quase claustrofóbico, que parece surgir não da falta de espaço, mas da presença excessiva de energia que me coloca em choque e me fragmenta. Pois tudo pulsa numa aleatoriedade, tudo se move sem recuo, tudo parece prestes a escapar do próprio espaço, como se cada peça sustentada pela estrutura tivesse um movimento nômade que nasce do instinto de recusar um estado fixo das coisas e, dessa forma, gera um conflito com a própria estrutura do edifício.


E, paradoxalmente, percebo que, enquanto observo suas superfícies metálicas refletindo a luz, nada disso nasce de uma dor explícita. Gehry, afinal, é um homem cuja alegria transparece, cuja leveza pessoal contrasta com a densidade de suas obras. Então, de onde vem esse drama espacial? Talvez de um mundo cultural marcado por tensões e rupturas, um mundo pós-guerra que aprendeu a desconfiar das formas sólidas, das certezas geométricas, das narrativas lineares. Talvez do fato de carregar, mesmo sem desejar expressá-lo diretamente, a memória subterrânea de uma herança judaica atravessada por deslocamentos, discriminações e reinvenções. Mas nada disso é declaração. É atmosfera. É o inconsciente cultural que encontra abrigo na arquitetura.


Quando volto meu olhar para Niemeyer, a vibração muda. As curvas continuam lá, mas respiram outro ar, outro clima, outra alegria. Niemeyer parece deixar a arquitetura dançar. Ela se dobra como o corpo, desliza como a água, balança como uma canção de praia. E, no entanto, quanto mais observo essa leveza solar, mais percebo a melancolia discreta que o próprio Niemeyer carregava. Um homem que tinha uma fala pausada, olhar reflexivo, convicções profundas e desencantadas sobre a sociedade cria espaços que desmentem sua tristeza: espaços abertos, luminosos, plenos de esperança, contudo, nas curvas que respiram a melancolia está presente.


O estilo de Oscar Niemeyer é reconhecido pela leveza das curvas, inspiradas na paisagem brasileira, no corpo humano e em sua visão poética do espaço e na visão política de um Brasil que busca seu lugar no mundo. No modernismo, Niemeyer absorveu princípios trazidos ao Brasil por Le Corbusier, como o uso expressivo do concreto armado, mas buscou no concreto suavidade e não brutalidade, além do plano livre e de uma arquitetura funcional e ao mesmo tempo monumental que não dialoga com o monumental clássico, mas o transforma em algo singular, marcado por curvas livres e grande força plástica. Suas obras apresentam formas amplas e fluidas que combinam simplicidade estrutural com expressão artística, reafirmando assim uma identidade brasileira profundamente espacial e sensorial, o que de certa forma reflete o olhar do brasileiro diante do espaço interétnico e das formas ainda por explorar da mistura sensorial entre conceito e natureza.


Não posso negar que Frank Gehry é produto de um meio cultural fragmentado e cosmopolita, com um estilo marcado por formas fluidas e inesperadas, associado ao desconstrutivismo, movimento que ganha força nos anos 1980, com raízes em influências como a crítica pós-moderna à estética modernista, pautada na filosofia de Jacques Derrida. Nessa colisão entre cidade e reinvenção constante é que Gehry encontra seu néctar.


Um néctar de natureza exuberante e tensões dialéticas e históricas profundas, onde a linha curva se torna metáfora da passagem de uma identidade que resiste mesmo quando não se explica ou quando encontra apenas uma explicação fugaz. As obras de Gehry utilizam materiais como titânio, aço e vidro para criar superfícies curvas e dinâmicas que permitem a fuga do olhar nômade numa paisagem cosmopolita onde tudo muda constantemente, desafiando a lógica tradicional. Gehry trata a arquitetura como uma escultura que nega a forma permanente e, assim, gera edifícios que relativizam a percepção do espaço urbano com viés desconstrutivista.


Portanto, no casulo modernista, é como se Niemeyer dissesse, com sua expressão séria e triste: "Sou triste, mas quero entregar ao mundo aquilo que me falta." Enquanto Gehry em seu casulo desconstrutivista, ao contrário, sempre parece dizer: "Sou leve, mas enxergo o caos que habita a modernidade." Percebo que a arquitetura de cada um nasce não apenas de suas almas, mas da alma do lugar que os formou.


Contudo, nunca deixo de pensar no que há em comum entre Gehry e Niemeyer. Talvez seja a coragem de transformar o espaço ou a convicção de que a arquitetura não é apenas um abrigo, e sim testemunho. É a casa onde guardamos nossos sonhos, nossas dúvidas, nossos medos e nossas esperanças pautadas pela forma como percebemos o mundo. E, enquanto caminho entre as obras desses dois arquitetos, compreendo que cada curva, cada volume, cada sombra e cada luz é, no fundo, uma forma de dizer que, na arquitetura, a alma encontra um lugar para guardar o seu existir.