quarta-feira, 14 de maio de 2025

O Prazer enquanto Estratégia de Dominação



Por Adu Verbis

Desde que me entendo como parte do jogo do poder no mundo das ideias, passei a compreender o prazer como uma ideia. Portanto, passei a ver algo inquietante no fato de que tudo o que mais desejamos – o toque, o riso, o sexo, o gosto doce – tenha sido tantas vezes organizado, mapeado, regulado, autorizado ou negado por aqueles que detêm o domínio das ideias. O prazer é pensado tanto para se exercer a liberdade como também para operar a dominação.

Se olho para trás, bem para trás, encontro no silêncio das pedras da Babilônia um rei de rosto imóvel e olhos de bronze que sobe ao leito com uma sacerdotisa. Não se trata ali de amor, nem de prazer íntimo, mas de uma ideia. Um teatro. Um rito. A cópula encena a união com a deusa Inanna, e com ela, o direito de governar. O prazer do corpo se torna senha de legitimação política. O povo assiste. E aprende: o prazer é coisa dos deuses. E dos reis.

Na Mesopotâmia e no Egito, o prazer era uma engrenagem simbólica da ordem. Nos palácios egípcios, banquetes, perfumes e danças não eram meros luxos – eram sinais de que os deuses aprovavam quem governava. O deleite sensorial, mesmo quando vivido por poucos, criava a ideia de estabilidade para muitos. O faraó, ao viver rodeado de delícias, representava não apenas um homem poderoso, mas o próprio equilíbrio cósmico. O prazer, novamente, como linguagem do poder.

Na Grécia, o prazer se tornou assunto filosófico. Alguns o temiam, outros o celebravam, mas quase todos sabiam que ali havia mais do que carne – havia conceito. As festas dionisíacas eram válvulas de escape, sim, mas também forma de controle: a cidade permitia o excesso porque sabia que ele voltaria à ordem. O prazer era permitido desde que temporário, ritualizado, interpretável. O corpo que gozava sabia que, logo depois, teria de retornar ao silêncio da razão.

Roma, império do concreto, foi ainda mais direta. Ao pão se somaram os jogos. Ao prazer individual, o espetáculo coletivo. Gladiadores, banhos públicos, orgias – tudo visível, tudo permitido, mas tudo também funcional. O gozo romano era administração de tensões sociais. Quanto mais o povo gritava no coliseu, menos gritava nas ruas. O prazer, agora, era gestão. E os imperadores sabiam: não se governa só com medo, governa-se também com euforia.

A Idade Média empurrou o prazer para o campo do pecado, mas isso não o enfraqueceu – apenas o tornou mais útil ao poder. A Igreja transformou o desejo em algo a ser vigiado. Quem desejava, precisava confessar. Quem confessava, se tornava previsível. O prazer não desapareceu: foi recodificado como transgressão. O controle, então, não era só externo, mas internalizado. A culpa – essa sim – se tornou a verdadeira máquina de dominação.

Com a modernidade, o prazer começou a se emancipar – mas só até certo ponto. O discurso da liberdade sexual e da autonomia do corpo andou lado a lado com a emergência do consumo. Desejar tornou-se não apenas um direito, mas um dever. A felicidade virou meta. O prazer virou promessa de realização. Mas quem fabrica essa promessa? E quem lucra com ela?

É nesse cenário que entra a pornografia contemporânea – não como tabu, mas como tecnologia de desejo. Não a critico por existir, mas pela forma como foi apropriada. A pornografia deixou de ser subversiva para se tornar repetição. O que se vê ali não é exatamente o que se deseja – é o que foi previamente roteirizado para ser desejado. A liberdade aparente de escolher entre milhões de vídeos esconde a repetição dos mesmos gestos, das mesmas narrativas, dos mesmos corpos. O prazer virou algoritmo.

E não é só questão de imagem. É questão de tempo, atenção, adestramento. A pornografia como indústria não vende sexo, vende hábito. Ela captura o desejo para devolvê-lo em embalagens previsíveis. Nada mais distante da transgressão do que o desejo programado. A tela oferece liberdade, mas exige passividade. E nisso, como nos antigos impérios, o prazer continua servindo a lógica do controle, mas agora em forma de dopamina e distração.

Marcuse dizia que certos prazeres são liberados apenas para neutralizar sua potência. Um orgasmo solitário diante da tela pode ser revolucionário para o indivíduo, mas inofensivo para o sistema. Talvez seja esse o ponto: o prazer que mais domina é o que se apresenta como emancipação, mas que, na prática, só amplia o cerco.

O problema nunca foi o prazer. O problema é quando ele deixa de ser criação para virar obediência disfarçada. Quando ele deixa de ser encontro e vira desempenho. Quando ele deixa de ser território do corpo e passa a ser propriedade do mercado.

Por isso, sigo desconfiando de toda ideia de prazer, mesmo quando o busco, faço-o desconfiado da minha própria necessidade. Desconfio também de toda promessa de liberdade que venha acompanhada de um manual de uso. Se o prazer pode ser pensado, e pode, então também pode ser libertado das ideias que o aprisionam. E talvez, só talvez, aí resida sua verdadeira força. Mas aí, tudo se torna por demais abstrato.

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