Por Adu Verbis
Enquanto torcedor que sempre se decepciona com os jogadores que o meu time, o Santos, contrata ou sobe da base com a fama de mais um raio, passei a classificar esses jogadores como bagre ou meio-boca. Com o tempo, passei a classificar certos jogadores como cabeça de bagre, principalmente depois de entrevistas em que o jogador fala, fala e não diz coisa com coisa; ou diante de fatos envolvendo um jogador que me fizeram pensar sobre a condição cognitiva desse atleta.
Bem, existe algo que me deixa perplexo: não sei quando passei a chamar Neymar de cabeça de bagre, no sentido de falar, falar e não dizer coisa com coisa, e também em relação à postura dele enquanto jogador e ser humano, apesar de que, desde a estreia no futebol profissional, sempre o considerei um craque em campo.
Contudo, fora de campo, o cabeça de bagre do Neymar não só me incomoda, enquanto torcedor santista, como também incomoda um batalhão de gente por mil e um motivos. Ele é um dos jogadores cabeça de bagre que mais geram controvérsia, e jogador bagre e cabeça de bagre é o que não falta, mas parece que Neymar supera qualquer outro jogador cabeça de bagre nesse aspecto.
Tenho que assumir que cabeça de bagre no futebol não é uma exclusividade do Neymar. Mas penso que, talvez, o Neymar seja um dos jogadores cabeça de bagre mais estigmatizados da história do futebol. Posso dizer que Pelé tinha uma cabeça de bagre, da mesma maneira o Messi, assim como o Cristiano Ronaldo tem uma cabeça de bagre, e outros tantos jogadores também.
No entanto, o cabeça de bagre do Neymar é o mais estigmatizado, a ponto de ser criticado tanto dentro de campo, mesmo em seu auge como craque, quanto fora de campo, com sua cabeça vazia e muitas vezes sem nenhum sentido, como se sofresse de alguma desconexão interna ou que ainda vivesse num estado mental de um menino.
Penso, sem me aprofundar no conceito, que talvez o termo latino puer aeternus, expressão que significa menino eterno e que é um conceito que descreve um padrão de personalidade, não uma doença, possa ser aplicado ao Neymar.
Pois, a expressão tem origem na Roma Antiga: era um epíteto, uma alcunha, dado a divindades jovens, especialmente ao deus Dionísio, ou seja, uma figura que simbolizava a juventude eterna. Sem falar que Zeus gesta Dionísio na própria coxa, o que simbolicamente é bem interessante, por significar uma coisa feita sem precaução. O estudioso Carl Jung incorporou o conceito de juventude eterna à sua teoria dos arquétipos, entendidos como padrões psicológicos universais presentes no inconsciente coletivo.
Por isso acredito que, ao falar de celebridades na era da economia da atenção, como o Neymar, o termo puer aeternus faz sentido, e a alcunha Menino Ney reforça que ele se comporta sem precaução como uma divindade que tem o direito à juventude eterna e a amoralidade.
Como todos sabem, no futebol, o que a torcida preza é a vitória, não importa se ela veio por meio de um bagre ou de um cabeça de bagre e se o autor do gol é ético ou não. Talvez a torcida seja o maior cabeça de bagre na história do futebol, que briga como animais primitivos ou mata por pura diversão e demarca espaço como primatas.
Assim como também existe a torcida cabeça, que preza pela inteligência ou é reflexiva, principalmente a torcida de classe média, que gosta de jogadores que soam comprometidos com causas sociais e filosóficas, jogadores que herdaram o estilo do Sócrates ou do Tostão. Dois jogadores que vêm da classe média, muito diferente da maioria dos jogadores brasileiros, que vêm dos rincões da pobreza e que os descasos da elite e do Estado estruturalmente os deixaram na pobreza.
Bem, o assunto deste texto é o bagre mais estigmatizado do futebol, o Neymar, mas não posso deixar de falar dos outros cabeças de bagre. Pelé, por exemplo, foi um craque incomparável dentro de campo e um cabeça de bagre fora dele. A vida pública do Pelé sempre deu o que falar, principalmente por causa da relação meio ambígua com a ditadura militar no Brasil (1964 -1985). Isso numa época em que alguns artistas, intelectuais e até poucos atletas de classe média criticavam o regime, o Pelé quase sempre preferiu ficar num discurso mais neutro, evitando bater de frente com o governo militar. Isso fez muita gente enxergá-lo como alguém “acima da política”, meio que vivendo num espaço da dividade, onde o futebol estaria separado dos problemas da vida real. Só que, na prática, o futebol nunca esteve fora da realidade social, ele também faz parte dela e acaba refletindo a estrutura de uma sociedade.
Quem criticava Pelé argumentava que sua enorme popularidade poderia ter sido utilizada para defender valores democráticos e denunciar violações de direitos humanos. Por outro lado, seus defensores lembram que ele era um atleta, não um líder político, e que pessoas negras e pobres que alcançavam projeção pública enfrentavam riscos concretos ao desafiar o sistema. O que não deixa de ser verdade.
Ao longo da vida, Pelé reforçou uma visão baseada no mérito individual, no trabalho duro e na disciplina, o que levou muitos a interpretar suas falas como conservadoras ou excessivamente otimistas em relação às oportunidades existentes no Brasil. Soma-se a isso a preocupação constante com a própria imagem pública - o caso do reconhecimento tardio de sua filha Sandra Regina reforçou essa impressão por muitos anos.
E o Messi? O jogador que muitos já colocam como o maior da história e acima de Pelé. Dentro de campo, é praticamente consensual como um dos maiores talentos de sua geração; mas sua atuação como figura pública fica muito aquém dessa dimensão. Messi nunca assumiu um papel intelectual ou político relevante, preferindo uma postura extremamente discreta diante dos grandes debates que cercam o futebol e a sociedade - o que, para mim, o coloca também na categoria de cabeça de bagre fora de campo.
Acredito que a ascensão de Messi ocorre em um momento em que o futebol passa por profundas transformações: preparação física, nutrição, medicina esportiva e análise de desempenho ganharam um peso muito maior do que em gerações anteriores. Posso até dizer que Ronaldinho Gaúcho marcou a fronteira entre o futebol lúdico e o futebol representado por Messi, no qual o que importa são as estatísticas, um esporte mais científico, no qual os talentos passaram a ser desenvolvidos em estruturas especializadas.
A personalidade de Messi sempre foi marcada pela discrição, e a discrição, em si, não é um problema. Mas vejo nisso também um certo narcisismo discreto: ele sempre se coloca acima dos outros, apesar da aparente humildade, e por trás dessa imagem há um sujeito complexo que não se revela por inteiro. No campo político, praticamente não construiu uma trajetória relevante - uma escolha pela neutralidade semelhante à de Pelé, ainda que desenvolva atividades filantrópicas por meio da Fundação Leo Messi, raramente acompanhadas de discursos políticos ou ideológicos.
Vale lembrar que Messi foi diagnosticado com deficiência do hormônio do crescimento na infância, e que o Barcelona assumiu os custos do tratamento em suas categorias de base, um acompanhamento fundamental para seu desenvolvimento físico. Isso não explica sozinho sua carreira, mas ajuda a entender o contexto científico que sustentou o talento. Já falei em outro texto meu que a expressão corporal de Messi em campo carece da elegância divina de um Pelé ou de um Maradona. Ele se move como uma pulga. E a torcida o chama assim: la pulga.
Saio do Messi e penso no Cristiano Ronaldo. Sei que classificá-lo como cabeça de bagre pode até parecer um contrassenso, mas eu o coloco também no rol dos craques cabeças de bagre.
Ele se comporta como um jogador que faz palestra motivacional em campo, uma espécie de versão melhorada de um coach falastrão e narciso, demonstrando aos seus colaboradores e à torcida o que devem fazer para superar limites.
Cristiano talvez seja o caso mais evidente de um atleta que transformou a própria imagem em uma marca global - o extremo da construção da personalidade esportiva como espetáculo permanente. Seus gestos, comemorações, entrevistas e presença nas redes sociais transmitem uma imagem de autoconfiança levada ao limite, com pitadas de arrogância e, ao mesmo tempo, de insegurança. Por isso, assim como Neymar e Messi, ele também entra na categoria do menino eterno, de celebridades que servem de produto simbólico para a economia da atenção.
Sua percepção de vida gira em torno da superação individual: talento, sozinho, não basta, é o esforço diário, o treinamento obsessivo, os sacrifícios pessoais. Uma ética meritocrática segundo a qual o sucesso depende fundamentalmente da dedicação de cada um. No campo político, praticamente não existe como personagem público, e suas campanhas humanitárias - saúde, combate à fome, doação de sangue -acabam sempre centralizadas em sua própria imagem, evitando qualquer posicionamento que possa dividir sua audiência global. Essa centralidade no culto pessoal, para mim, colabora para torná-lo um cabeça de bagre a serviço da exploração comercial da própria imagem. E o mundo não se torna melhor ao cultuar Cristiano Ronaldo, Neymar, o Messi, ou mesmo ao Rei Pelé.
Voltando ao Neymar: eu o acompanho, esportivamente falando, desde que era moleque, ungido como “o novo Pelé” antes mesmo de completar a maioridade. Isso talvez já fosse uma sentença. Pelé carregou o peso de ser Pelé; Neymar recebeu, de saída, o peso de substituir um mito. Fomos nós, eu como torcedor, os jornalistas, os patrocinadores, que colocamos essa coroa na cabeça de Neymar antes do tempo, ansiosos por reviver uma glória. Quando o ídolo chega pronto na imaginação antes de chegar pronto no campo e para a vida, qualquer deslize deixa de ser apenas erro de jogador e passa a parecer traição a uma promessa, que não foi abortada, mas gestada na coxa.
Neymar foi o primeiro grande craque brasileiro formado sob a vigilância permanente das redes sociais. Pelé viveu sob o olhar dos jornais. Ronaldo Fenômeno, sob o da televisão. Neymar viveu sob o olhar incessante da internet. Cada queda virou meme. Cada festa virou debate internacional. Cada relacionamento virou julgamento e linchamento virtual. Cada declaração virou manchete antes mesmo de virar contexto e as circunstâncias reveladas.
Ao longo da carreira, Neymar falou sobre dinheiro, sobre fé, muitas vezes de modo dúbio. Falou sobre a importância da família, sobre aproveitar a vida e sobre a dificuldade de lidar com a pressão permanente. Ao fazer isso, deixou de ser apenas um atacante e passou a ser tratado como um personagem político e cultural. Para alguns, é autenticidade; para outros, sinal de imaturidade. Mas talvez seja simplesmente a forma como ele escolheu viver.
Não sei o que se esperava de Neymar. Talvez se esperasse que envelhecesse como um líder maduro, quase solene, à maneira de outros capitães históricos. Em vez disso, continuou parecendo um garoto que teve talento, tentando sobreviver a um mundo que exigia dele uma postura que ele não é capaz de sustentar plenamente. Quando sorri demais, é acusado de não levar o futebol a sério. Quando reclama, é visto como mimado. Quando responde às críticas, é considerado arrogante. Quando se cala, talvez revele sua verdadeira essência, intelectualmente vazia.
O que me intriga é: por que as falhas de Neymar ganharam um peso tão maior do que falhas semelhantes de outros grandes jogadores? Em que momento deixei de criticar o atleta Neymar para transformá-lo na personificação de tudo aquilo que considero errado? Não sei. Talvez porque nunca tenha julgado Neymar apenas pelo que fazia com a bola nos pés, e via nele o que não era para ser visto, porque não havia nada a esperar dele. Talvez tenha esperado mais do que, de fato, deveria.
Em torno de Neymar, o debate quase sempre deixou de ser sobre futebol e passou a ser sobre um ideal. Esperava-se não apenas um craque, mas um modelo de cidadão, de líder, de homem maduro. E Neymar jamais pareceu interessado em representar esse papel, mas isso porque ele não era e não é capaz, e nunca teve estrutura para isso. Talvez seja justamente aí que esteja a origem da régua implacável com que sempre escolhemos medi-lo.
Mas não quero terminar fingindo que toda a cobrança é injusta. Existe, sim, uma diferença real de postura: Neymar reclamou de forma mais visível, caiu mais vezes, se machucou em momentos decisivos e pareceu menos blindado emocionalmente em jogos de Copa do que outros jogadores. Isso é fato, não é só perseguição. A questão não é dizer que ele nunca errou; é perguntar por que o erro dele pesa mais do que o erro de outros, craques em campo e cabeças de bagre fora dele.
Ainda que pareça haver uma diferença entre criticar um jogador e transformar esse jogador em símbolo de tudo o que deu errado. Com Neymar, muitas vezes fiz a segunda coisa: o tornei símbolo de tudo o que deu errado. E, por isso, talvez nenhum jogador brasileiro tenha carregado uma expectativa tão pesada quanto ele, a ponto de se tornar um dos jogadores mais estigmatizados da história do futebol, quem sabe até mais estigmatizado do que Barbosa, o goleiro da Seleção Brasileira na final do Maracanãço, em 1950, que viveu injustamente responsabilizado por aquele resultado durante décadas. Mas Barbosa foi esquecido, e talvez Neymar, e Cristiano também, sejam esquecidos um dia. Enquanto isso, Pelé e Messi possam permanecer eternos.

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