quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O clientelismo ideológico no bolsonarismo




Não sou cientista político, assim como também não sou sociólogo. Não escrevo este texto na posição de quem pretende apresentar uma tese acabada, amparada por pesquisas sistemáticas ou por um lastro metodológico próprio das ciências sociais. Escrevo como alguém que observa o mundo e a política em seus movimentos contraditórios e procura compreender os caminhos que essas contradições podem tomar. É justamente dessa observação que percebo que há algo nas relações entre poder, ideologia e dependência política que nem sempre os conceitos tradicionais ou modernos das ciências sociais conseguem explicar ou antecipar em suas possíveis consequências.

Foi da intuição e da inquietação provocadas pelo conflito entre mim e o mundo, e entre o mundo e suas contradições, que nasceu a reflexão que passei a chamar de clientelismo ideológico no bolsonarismo. Procuro, neste texto, destrinchar essa ideia, de modo que ela se torne mais clara tanto para mim quanto para aqueles que eventualmente venham a lê-lo. Parto da hipótese de que o clientelismo, em determinadas circunstâncias, pode ultrapassar a dimensão da troca de favores e benefícios materiais, incorporando elementos ideológicos capazes de produzir identidade, fidelidade e dependência política. É a essa articulação entre clientelismo e ideologia que dou o nome de clientelismo ideológico.

O que pretendo traçar aqui é como determinadas relações políticas, historicamente associadas à troca de favores e à intermediação de benefícios, podem adquirir uma dimensão mais profunda quando passam a operar também por meio da construção de identidades, do pertencimento coletivo e da produção de antagonismos. Minha inquietação está justamente em compreender como uma relação de dependência política pode deixar de ser percebida como dependência e passar a ser reconhecida por seus próprios participantes como lealdade, proteção, identificação e até mesmo uma espécie de missão coletiva. É a partir dessa inquietação que proponho a tese, ou hipótese do clientelismo ideológico no bolsonarismo.

O termo clientelismo ideológico surgiu durante a leitura de um texto sobre violência ideológica. A ideia me pareceu promissora, mas também escorregadia, já que cada área do conhecimento pode compreender de maneira distinta aquilo que poderia ser definido como clientelismo ideológico. Sociologia, Filosofia, Educação e Ciência Política apresentam abordagens que se aproximam daquilo que procuro compreender, mas isso não significa necessariamente que exista convergência entre essas áreas. Decidi, então, buscar e distinguir os autores que efetivamente utilizaram a expressão violência ideológica daqueles que formularam conceitos que apresentam alguma semelhança com o que estou tentando definir como clientelismo ideológico no bolsonarismo.

A aproximação entre os dois conceitos não é casual. A violência ideológica me levou a pensar sobre a capacidade que determinadas narrativas possuem de legitimar relações de dominação, naturalizar desigualdades e produzir formas de consentimento que nem sempre são percebidas como imposições. Foi justamente nesse percurso que comecei a estabelecer uma relação entre a violência ideológica e o clientelismo. Se o clientelismo tradicional pode produzir dependência por meio da troca de favores, benefícios e proteção, a ideologia pode contribuir para transformar essa dependência em uma relação de pertencimento e fidelidade.

O que me interessa, portanto, não é simplesmente acrescentar a palavra ideologia ao conceito de clientelismo, mas compreender como a dimensão ideológica pode modificar a natureza e a capacidade de reprodução das relações clientelistas. A questão que passou a me acompanhar foi: o que acontece quando aquele que recebe um benefício deixa de reconhecer a relação como uma troca política e passa a enxergá-la como uma demonstração de proteção, compromisso moral ou pertencimento a uma causa? É nesse deslocamento que identifico o ponto de partida da minha hipótese.

A busca pelos autores me levou a nomes que eu já suspeitava que, em algum momento, haviam se referido à violência ideológica ou desenvolvido conceitos que poderiam ajudar a compreender suas manifestações. Parti de Louis Althusser, que analisa como instituições como a escola e os meios de comunicação reproduzem ideologias e relações de poder. Pierre Bourdieu, por sua vez, embora não tenha necessariamente utilizado a expressão violência ideológica, desenvolveu o conceito de violência simbólica, fundamental para compreender como determinadas percepções de mundo são impostas e naturalizadas, contribuindo para legitimar desigualdades e relações de poder. Também recorri a Hannah Arendt, especialmente às suas investigações sobre ideologia e totalitarismo.

E, claro, dois autores me ofereceram uma ancoragem teórica mais direta: Slavoj Žižek, que trabalha explicitamente a noção de violência ideológica em suas reflexões sobre violência, racismo e incitação ao ódio, e Ignacio Martín-Baró, cuja obra sobre a ideologização da violência no capitalismo se revelou especialmente importante para compreender como a ideologia pode legitimar, ocultar e naturalizar relações de dominação. Para dar sustentação à hipótese do clientelismo ideológico no bolsonarismo, procurei também estabelecer um diálogo com autores que ajudam a compreender as diferentes dimensões do clientelismo, da dependência política e da construção da hegemonia.

O historiador mineiro José Murilo de Carvalho oferece uma base importante ao distinguir mandonismo, coronelismo e clientelismo, evitando que conceitos historicamente diferentes sejam tratados como sinônimos ou produzam falsas equivalências. Essa contribuição está presente especialmente no artigo Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: uma discussão conceitual, assim como nos livros A construção da ordem: a elite política imperial e Teatro de sombras: a política imperial. Assim como o cientista político e antropólogo estadunidense James C. Scott me ajuda a ampliar a compreensão das relações entre agentes políticos, patronos e clientes, especialmente no que diz respeito à reciprocidade, à assimetria e à dependência política que vejo desenhadas no clientelismo ideológico.

Outro autor que ajuda a lapidar a hipótese é Antonio Gramsci. Talvez Gramsci seja uma das peças mais decisivas na elaboração desta reflexão. Sua concepção de hegemonia permite compreender que a permanência de um grupo no poder não depende exclusivamente da coerção ou da vitória eleitoral. Depende também da capacidade de produzir consentimento, construir valores compartilhados e fazer com que determinada visão de mundo seja percebida como legítima ou natural. Enquanto Bourdieu, também contribui para compreender como o discurso do favor pode transformar direitos em concessões pessoais, produzindo uma relação simbólica na qual o cidadão deixa de se reconhecer como titular de um direito e passa a se perceber como devedor de gratidão. Por fim, Martín-Baró ajuda a compreender como a ideologia pode legitimar e naturalizar relações violentas, especialmente por meio da construção de inimigos, da polarização e do fatalismo político, muito explorado no bolsonarismo.

É importante ressaltar que a síntese que faço desses autores constitui uma interpretação minha de seus textos e, portanto, está sujeita a exageros e erros interpretativos. Nenhum deles formulou literalmente o conceito de clientelismo ideológico tal como o proponho. José Murilo de Carvalho oferece uma contribuição fundamental para a compreensão histórica do clientelismo brasileiro, enquanto os demais autores permitem estabelecer aproximações teóricas com diferentes dimensões da hipótese. Não pretendo, portanto, atribuir a esses pensadores uma formulação que não fizeram. O que procuro é estabelecer um diálogo entre suas contribuições para construir uma categoria analítica própria.

No caso do termo clientelismo ideológico, ele reflete também a própria experiência brasileira. O clientelismo político é uma realidade historicamente consolidada no Brasil. Suas manifestações são conhecidas: a troca de favores, benefícios, proteção e acesso a determinados recursos em contrapartida à obtenção de apoio político ou eleitoral. A ideologia, por sua vez, sempre me pareceu ocupar outro campo, tomado por uma espécie de névoa romântica, frequentemente associado à disputa de ideias, valores, visões de mundo e projetos de sociedade. Como se a ideologia pudesse, por si só, estar imune aos males e às próprias contradições humanas. Mas não é dessa maneira que procuro compreender a ideologia.

Para delimitar o conceito, considero necessário separar o clientelismo ideológico das políticas públicas. Isso significa que uma política pública, assim como qualquer benefício social ou relação de apoio político, não constitui, por si só, uma prática clientelista. Receber um benefício público não significa estabelecer uma relação de dependência clientelista. Políticas universais, direitos sociais e programas institucionais não podem ser confundidos com a distribuição particularizada e condicionada de vantagens. São conquistas políticas e instrumentos de garantia de direitos, e, portanto, não necessariamente mecanismos de troca clientelista.

O que caracteriza minha hipótese de clientelismo ideológico é justamente a articulação entre a troca política, a construção de relações de dependência e a produção de narrativas ideológicas, frequentemente associadas a elementos religiosos e identitários, capazes de conferir legitimidade a determinadas relações de poder. Nesse sentido, considero importante distinguir três configurações: competição predominantemente programática: aquela em que propostas, compromissos públicos e projetos de governo organizam a adesão política. Clientelismo tradicional: baseado na intermediação de recursos, favores, proteção e vantagens particularizadas em troca de apoio ou fidelidade política. Clientelismo ideológico: aquele em que a troca política se articula a uma narrativa de identidade, proteção e pertencimento, incorporando também a produção sistemática do antagonismo como divisa política.

A diferença fundamental está na maneira como a relação política é percebida e reproduzida. No clientelismo tradicional, a dependência pode se estabelecer em torno do benefício recebido e da expectativa de sua continuidade. No clientelismo ideológico, minha hipótese é que essa relação pode adquirir uma dimensão mais duradoura, porque a dependência passa a ser acompanhada por uma narrativa que confere a ela significado moral, político e identitário.

O agente político deixa de ser percebido apenas como alguém que oferece um benefício ou intermedeia o acesso a determinado recurso material. Passa a ser representado como protetor, benfeitor, defensor de valores e representante exclusivo dos interesses de um grupo. A relação política, portanto, deixa de se limitar à expectativa de uma vantagem fugaz e passa a incorporar elementos morais, emocionais, afetivos e identitários duradouros.

E aqui entra a hipótese central do clientelismo ideológico no bolsonarismo. Minha interpretação é que o bolsonarismo não apresenta necessariamente um refinamento intelectual ou uma formulação ideológica coerente e sistematizada que permita compreender suas práticas como parte de um projeto conscientemente elaborado de clientelismo ideológico. O que observo é uma composição pragmática de interesses, narrativas e relações políticas que utiliza práticas clientelistas historicamente estabelecidas e incorpora a elas elementos ideológicos de naturezas diversas. O que expõe a falta de coerência interna do bolsonarismo, mesmo quando aparenta constituir uma ideológica sólida e pensada nos mínimos detalhes.

O bolsonarismo estabelece relações com setores da direita e da extrema-direita, com as milícias, com segmentos do pentecostalismo e do universo evangélico, com neoliberais e, ainda, com parcelas dos militares que veem nesse movimento um espaço de acolhimento de suas aflições e de acomodação de suas percepções de mundo. Essa composição reúne grupos com interesses, valores e expectativas diferentes, mas que encontram no bolsonarismo uma possibilidade de identificação política e de participação em um projeto comum.

Nesse sentido, o conservadorismo mobilizado pelo bolsonarismo não corresponde necessariamente a uma tradição conservadora coerente e homogênea. Trata-se, antes, de uma composição pragmática de diferentes percepções e interesses políticos que se amalgamam, embora essa liga também revele fragilidades e contradições. Minha hipótese é que o bolsonarismo oferece diferentes formas de reconhecimento, proteção e vantagens políticas a setores sociais distintos, articulando essas relações a uma narrativa de poder que se apresenta como capaz de representar interesses coletivos e conduzir seus seguidores a uma espécie de salvação política e moral.

Vende-se a ideia de que aquilo que o movimento tem a oferecer é bom para todos, inclusive para aqueles que o repudiam. Aqueles que se colocam contra, por sua vez, passam a ser representados como adversários de uma causa que se apresenta como redentora. O messianismo bolsonarista promete conduzir seus seguidores a uma espécie de paraíso político, enquanto atribui aos seus adversários a responsabilidade pelos males que ameaçam essa promessa.

E, portanto, assim surgiu a hipótese do clientelismo ideológico. A ideia central é relativamente simples, embora suas consequências políticas possam ser complexas: o clientelismo ideológico não opera exclusivamente por meio de vantagens materiais. Ele também pode se apoiar em narrativas ideológicas que transformam a dependência em lealdade, a lealdade em identidade política e essa identidade em justificativa para a permanência de determinado grupo no poder.

O que pretendo acrescentar é justamente a ideia de que o clientelismo ideológico no bolsonarismo envolve as condições em que a troca política, a produção de sentido ideológico e a reprodução de uma hegemonia passam a funcionar de maneira articulada, criando maneiras de vínculo político que não dependem apenas daquilo que se recebe, mas também daquilo em que se acredita e da identidade que se constrói a partir dessa relação, por assim dizer, seguindo um método um tanto reacionário. Minha proposição central é que relações clientelistas podem adquirir maior capacidade de reprodução política quando associadas a narrativas ideológicas que conferem legitimidade moral, identitária ou coletiva às trocas políticas e à distribuição de benefícios ou concessões.

Há, contudo, uma distinção que considero indispensável: reprodução eleitoral, hegemonia política e dominação simbólica não são necessariamente a mesma coisa. Uma relação clientelista pode produzir apoio eleitoral sem alcançar uma hegemonia duradoura. Da mesma forma, a existência de uma narrativa ideológica não significa, por si só, que esteja ocorrendo violência ideológica. São dimensões que podem se relacionar entre si, mas precisam ser demonstradas separadamente, até porque a própria democracia também envolve disputas por hegemonia.

Separando o joio do trigo, quero dizer que o bolsonarismo não formulou conscientemente o clientelismo ideológico enquanto estratégia de dominação. Minha interpretação é que ele se manifesta por meio de práticas culturalmente estabelecidas no clientelismo histórico, às quais se incorporam elementos ideológicos em um contexto de retórica política que explora o conservadorismo de modo pragmático, mas também se alimenta de percepções, por vezes equivocadas, de seus valores, princípios e tradições, que acabam sendo instrumentalizados dentro de um baleio de gatos.

Nesse sentido, considero o clientelismo ideológico uma categoria analítica que proponho para interpretar a articulação entre práticas clientelistas historicamente constituídas e a mobilização de narrativas ideológicas no bolsonarismo. Não se trata, portanto, de afirmar que o movimento tenha formulado conscientemente essa estratégia, mas de compreender como práticas políticas preexistentes passaram a incorporar elementos ideológicos em sua dinâmica de produção de sentido e legitimação política.

Aqui está, talvez, o ponto mais delicado da minha hipótese: quando a identidade pesa mais que o programatismo. Por programatismo, compreendo a organização da competição política em torno de programas, propostas, compromissos públicos e projetos de governo. Não se trata de afirmar que a política programática seja superior em todas as circunstâncias, mas de reconhecer que ela estabelece uma forma de relação entre representantes e representados na qual a avaliação das propostas, dos compromissos assumidos e dos resultados alcançados ocupa papel central. Quero dizer, com isso, que o clientelismo ideológico não exige o desaparecimento da dimensão programática. Ao contrário, ele pode utilizar uma retórica programática, apresentar programas e assumir compromissos públicos como parte de sua própria legitimação.

Aqui utilizo um termo que pode parecer um tanto pomposo: sobreposição ao programatismo. O que quero dizer com isso é que, no caso do bolsonarismo, essa sobreposição programáticas acontece quando a identidade política e as relações de dependência podem acabar pensando mais na manutenção do apoio do que a avaliação das promessas e dos resultados efetivamente alcançados. Em outras palavras, a sobreposição ao programatismo pode se observado, por exemplo, nos eleitores bolsonaristas que continuam apoiando representantes mesmo quando eles não cumprem o que prometeram durante a campanha. Ou naqueles que, mesmo reconhecendo problemas na atuação do bolsonarismo, mantém sua identificação com o líder e com o grupo político.

Nesse caso, a avaliação do desempenho programático deixa de ser o único, ou mesmo o principal, critério para sustentar o apoio. Portanto, a identificação, o sentimento de pertencimento e a percepção de que o bolsonarismo os representa e protege determinados valores e interesses também entram nessa conta do clientelismo ideológico. Não quero ser repetitivo, mas, às vezes, é preciso. É importante deixar claro que não estou dizendo que a dimensão programática desaparece no bolsonarismo, nem que a presença das identidades políticas seja uma novidade na competição partidária. O que me interessa destacar é outra coisa: a mudança de peso entre esses elementos. A avaliação das propostas e dos resultados continua existindo, mas passa a dividir espaço com outros fatores que, em determinadas circunstâncias, podem se tornar mais importantes para a manutenção da adesão política. É nesse sentido que usei o pomposo termo sobreposição ao programatismo.

Diante desse panorama, podemos perguntar: afinal, o que o bolsonarismo fez de concreto em termos de políticas públicas para mobilizar tantos eleitores? A capacidade de mobilização do movimento não parece encontrar correspondência proporcional nos resultados programáticos apresentados. Ainda assim, conseguiu sustentar grupos identitários que encontram nele um lugar de pertencimento, reconhecimento e identificação política. É justamente essa relação que procuro compreender por meio do conceito de clientelismo ideológico.

A política identitária, articulada às relações de dependência e às narrativas de pertencimento, pode, assim, sobrepor-se às dimensões programáticas. O eleitor deixa de avaliar exclusivamente aquilo que um governo entrega e passa a avaliar também aquilo que acredita que o governo representa. E talvez seja justamente nesse deslocamento que resida uma das maiores forças políticas do bolsonarismo: a capacidade de fazer com que a identificação com o grupo sobreviva às contradições entre o discurso, as promessas e os resultados.

Poderia fechar o texto por aqui, mas vou me alongar um pouco mais, porque quero falar do Coliseu político do clientelismo ideológico no bolsonarismo. Afinal, é nesse Coliseu político que a produção permanente do inimigo assume um papel muito importante para o funcionamento do clientelismo ideológico: a necessidade de alimentar continuamente a fidelidade dos seguidores.

No teatro do clientelismo ideológico, a adesão dos devotos não se mantém apenas pela convergência de ideias ou pela promessa de realização de um programa. Ela precisa ser constantemente estimulada pelos agentes políticos, mediante a produção de antagonismos, a dramatização permanente de ameaças, a encenação de combates morais de cunho religioso e a promoção de uma política de hostilidade ao inimigo interno - um inimigo frequentemente construído pela própria narrativa política, ainda que as ameaças apresentadas não correspondam necessariamente à realidade.

A política passa, assim, a adquirir características de um espetáculo permanente, no qual a mobilização emocional dos seguidores depende da construção e da atualização contínua de antagonismos. O debate público deixa de ser prioritariamente um espaço de confronto entre propostas e projetos de sociedade e se transforma, em determinadas circunstâncias, em uma arena de mobilização emocional e adesão midiática. Nela, o adversário não é apenas alguém que pensa diferente ou disputa legitimamente o poder: passa a ser representado como uma ameaça aos valores, à religião, à família, à pátria ou à própria existência do grupo político.

Trata-se, portanto, de uma construção que se sustenta muito mais pela retórica política do que pela existência concreta das ameaças apresentadas. Contudo, não posso deixar de pontuar que o bolsonarismo ultrapassou o campo da retórica política e investiu em uma tentativa de golpe de Estado, que foi abortada e cujos responsáveis foram julgados.

A analogia com o Coliseu romano ajuda a ilustrar essa dinâmica. Assim como no espetáculo da arena, a mobilização depende da excitação permanente da plateia. Os seguidores não são convocados apenas a assistir, mas a torcer, vibrar, odiar, combater simbolicamente o inimigo e, sobretudo, reafirmar sua fidelidade ao grupo que se apresenta como seu protetor. A produção do antagonismo cumpre, na perspectiva do clientelismo ideológico no bolsonarismo, uma função política: desloca a atenção das contradições internas, das promessas não cumpridas e das dificuldades de realização de um programa para uma ameaça de um inimigo interno que exige unidade e fidelidade dos bolsonaristas.

A crítica deixa de ser interpretada como parte legítima da democracia e pode passar a ser apresentada como traição, conspiração ou colaboração com o inimigo. É nesse ponto que vejo a violência ideológica entrando com a gasolina conceitual para apagar o fogo. A imagem pode parecer contraditória, mas é justamente essa a intenção: a violência ideológica não elimina o conflito; ela o alimenta, transforma-o em combustível político e contribui para que a necessidade de um inimigo permaneça. Nessas circunstâncias, a fidelidade política pode ser sustentada por uma tríade particularmente significativa: ideologia, religião e aquilo que chamo de pragmatismo desavergonhado do bolsonarismo.

Portanto, nesse cenário, o cidadão corre o risco de deixar de avaliar o poder a partir dos direitos que possui e dos compromissos que foram a ele apresentados, passando a defender o próprio poder como parte de sua identidade. E, quando isso acontece, a política deixa de ser apenas uma disputa pela conquista do poder. Passa a ser também uma disputa pela capacidade de definir aquilo em que as pessoas acreditam, quem reconhecem como seus protetores e, sobretudo, quem aprendem a considerar seus inimigos. Nesse contexto e processo, o bolsonarista abandona a razão e subordina o julgamento político à fidelidade identitária do bolsonarismo.