Por Adu Verbis
O pessoal antigo costumava dizer que o mundo não gira, que o mundo capota. E recentemente a ideia de que a Terra é plana tomou as mentes de assalto – uma ideia que nem na Idade Média seria levada a sério. Pois vivemos um tempo em que a verdade se tornou cobaia no laboratório das ideias predatórias. A verdade, desde tempos remotos, já era um bicho selvagem – mas um bicho que pode ser domesticado conforme os interesses do tutor, ou dos tutores.
E na era digital, a verdade se tornou líquida, e nem sempre conduz os debates à veracidade, pois se evapora com muita facilidade. Mas, não obstante, a verdade também é a imagem de um ratinho de laboratório – testada, distorcida, manipulada, colocada sob o foco da câmera em um experimento. Enquanto isso, ideias predatórias são soltas na arena pública como animais treinados para dominar território simbólico, sem qualquer consideração pelas consequências sociais, éticas ou coletivas. O que importa não é a verdade – a propriedade de estar conforme com os fatos ou com a realidade –, mas sim a ocupação do espaço político e econômico, onde a verdade vira um axioma que sustenta o princípio ou o julgamento aceito como autêntico dentro de um contexto político de grupos irracionais.
Temos dois episódios, aparentemente distintos, que revelaram o funcionamento do laboratório das ideias predatórias. De um lado, Felipe Neto, que, entre aspas, anunciou sua candidatura à presidência da República – uma jogada que se revelou uma encenação crítica. De outro, o deputado federal Nikolas Ferreira, apelidado nas redes como “Chupetinha”, que publicou um vídeo clamando por anistia, e teve a pachorra de se comparar a ativistas históricos, evocando um discurso de perseguição. Ambos performaram as verdades dos laboratórios de ideias predatórias – em contextos distintos – e ambos mostraram o quanto a noção de realidade pode ser sequestrada por estratégias que visam apenas dominar o espaço virtual e converter o resultado virtual dessas verdades em verdade real
Felipe Neto e o espelho invertido da mídia
No caso de Felipe Neto, que lançou a falsa candidatura como isca, ela funcionou. Em minutos, a “notícia” circulava como fato, sendo reproduzida por sites jornalísticos, páginas informais, grupos de WhatsApp e bolhas digitais. Só depois veio a revelação: tratava-se de uma encenação proposital, um experimento para mostrar como a mídia – mesmo a tradicional – muitas vezes opera sem verificação, movida pela urgência do clique e pela velocidade de sua verdade líquida.
A crítica de Felipe é legítima e toca numa ferida real. Mas, ao lançar mão da mentira como ferramenta, mesmo que com intenção crítica, o experimento acaba sendo absorvido pelo próprio ambiente que denuncia. A pegadinha expõe o colapso do jornalismo factual, mas também o reforça, pois participa do mesmo jogo em que a verdade virou apenas mais um dado volátil.
Nikolas Ferreira: domínio simbólico e vitimismo estratégico
No mesmo palco, mas com outra direção, Nikolas Ferreira interpretou seu papel. No vídeo em que clama por “anistia”, o deputado constrói a imagem do mártir contemporâneo: sobre trilhas sonoras grandiosas, se associa a lutas históricas por justiça e liberdade, se apropria de símbolos – Rosa Parks e Luther King – da luta por direitos para encenar uma narrativa de perseguição política e defender golpistas.
Aqui, a tática é clara: ocupar o espaço simbólico da luta – mesmo que com sinais invertidos. É o uso deliberado da estética da justiça para justificar ações que minam a própria noção de justiça. Trata-se de uma ideia predatória em sua forma pura: não há responsabilidade com o tecido social que se destrói no processo, apenas a ânsia por ampliar o próprio alcance, manter o público engajado e converter atenção em capital político, econômico e simbólico.
Quem é Débora?
Débora é a jovem que participou ativamente de atos golpistas, tramados por cientistas predatórios – e ela era apenas um ratinho de laboratório que, entre os crimes que cometeu, ficou conhecida pelo menor deles: pichar a estátua da estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Diferente de outros casos, sua ação foi direta, física, sem roteirização digital. O que ela fez não cabia no jogo dos algoritmos, mas foi construído com a ajuda deles – e pela prevaricação do poder. Não havia ironia performática nem edição de mártir no ato de pichar a estátua. Havia um gesto nu, frontal, que desafiava não apenas um símbolo, mas a própria estrutura da democracia, erguida num longo período de luta para reparar os desvios cometidos pelos militares durante todo o período da ditadura.
Selvageria conceitual e ocupação simbólica
As ideias predatórias de que falamos aqui se aproximam de um conceito mais profundo: o da selvageria conceitual. Trata-se de uma forma de atuação discursiva em que não há freios morais nem preocupação com os danos causados ao ecossistema social. O objetivo é dominar: impor significados, ocupar territórios simbólicos, gerar reações em cadeia, neutralizar o contraditório não pelo argumento, mas pelo volume de ideias estruturadas no laboratório das ideias predatórias. A selvageria conceitual não é ignorância – é cálculo, e tem muito de má-fé. São ideias que sabem exatamente o que fazem: avançam sobre os espaços comuns com fúria retórica e emocional – e deixam para trás um rastro de confusão, ressentimento e descrença, e todo um povo alienado por não ser capaz de distinguir as coisas.
A verdade formatada nos laboratórios predatórios
O ambiente virtual virou um zoológico de bichos anônimos ou bichos célebres, todos em escaramuças estratégicas para ocupar espaços. E a mentira corre solta no zoológico, enquanto a verdade é mantida em jaulas – exibida como relíquia e, outras vezes, travestida de verdade, embora no fundo seja a mentira em essência.
No laboratório das ideias predatórias, quem sobrevive não é o argumento mais justo, mas o mais adaptável à lógica do engajamento. A arena está armada para o espetáculo, e os adestradores – que podemos chamar de enfluênciadores –, com suas perversas epismologias (formas corrompidas de pensar o conhecimento), destroem mais do que propriamente constroem. A verdade é um bicho selvagem, porém frágil, e no laboratório, ela corre em círculos, sob o olhar entorpecido do público e dos cientistas predatórios.