sábado, 5 de abril de 2025

O laboratório das ideias predatórias: onde a verdade é um ratinho de laboratório

 



Por Adu Verbis

O pessoal antigo costumava dizer que o mundo não gira, que o mundo capota. E recentemente a ideia de que a Terra é plana tomou as mentes de assalto – uma ideia que nem na Idade Média seria levada a sério. Pois vivemos um tempo em que a verdade se tornou cobaia no laboratório das ideias predatórias. A verdade, desde tempos remotos, já era um bicho selvagem – mas um bicho que pode ser domesticado conforme os interesses do tutor, ou dos tutores.

E na era digital, a verdade se tornou líquida, e nem sempre conduz os debates à veracidade, pois se evapora com muita facilidade. Mas, não obstante, a verdade também é a imagem de um ratinho de laboratório – testada, distorcida, manipulada, colocada sob o foco da câmera em um experimento. Enquanto isso, ideias predatórias são soltas na arena pública como animais treinados para dominar território simbólico, sem qualquer consideração pelas consequências sociais, éticas ou coletivas. O que importa não é a verdade – a propriedade de estar conforme com os fatos ou com a realidade –, mas sim a ocupação do espaço político e econômico, onde a verdade vira um axioma que sustenta o princípio ou o julgamento aceito como autêntico dentro de um contexto político de grupos irracionais.

Temos dois episódios, aparentemente distintos, que revelaram o funcionamento do laboratório das ideias predatórias. De um lado, Felipe Neto, que, entre aspas, anunciou sua candidatura à presidência da República – uma jogada que se revelou uma encenação crítica. De outro, o deputado federal Nikolas Ferreira, apelidado nas redes como “Chupetinha”, que publicou um vídeo clamando por anistia, e teve a pachorra de se comparar a ativistas históricos, evocando um discurso de perseguição. Ambos performaram as verdades dos laboratórios de ideias predatórias – em contextos distintos – e ambos mostraram o quanto a noção de realidade pode ser sequestrada por estratégias que visam apenas dominar o espaço virtual e converter o resultado virtual dessas verdades em verdade real

Felipe Neto e o espelho invertido da mídia

No caso de Felipe Neto, que lançou a falsa candidatura como isca, ela funcionou. Em minutos, a “notícia” circulava como fato, sendo reproduzida por sites jornalísticos, páginas informais, grupos de WhatsApp e bolhas digitais. Só depois veio a revelação: tratava-se de uma encenação proposital, um experimento para mostrar como a mídia – mesmo a tradicional – muitas vezes opera sem verificação, movida pela urgência do clique e pela velocidade de sua verdade líquida.

A crítica de Felipe é legítima e toca numa ferida real. Mas, ao lançar mão da mentira como ferramenta, mesmo que com intenção crítica, o experimento acaba sendo absorvido pelo próprio ambiente que denuncia. A pegadinha expõe o colapso do jornalismo factual, mas também o reforça, pois participa do mesmo jogo em que a verdade virou apenas mais um dado volátil.

Nikolas Ferreira: domínio simbólico e vitimismo estratégico

No mesmo palco, mas com outra direção, Nikolas Ferreira interpretou seu papel. No vídeo em que clama por “anistia”, o deputado constrói a imagem do mártir contemporâneo: sobre trilhas sonoras grandiosas, se associa a lutas históricas por justiça e liberdade, se apropria de símbolos – Rosa Parks e Luther King – da luta por direitos para encenar uma narrativa de perseguição política e defender golpistas. 

Aqui, a tática é clara: ocupar o espaço simbólico  da luta – mesmo que com sinais invertidos. É o uso deliberado da estética da justiça para justificar ações que minam a própria noção de justiça. Trata-se de uma ideia predatória em sua forma pura: não há responsabilidade com o tecido social que se destrói no processo, apenas a ânsia por ampliar o próprio alcance, manter o público engajado e converter atenção em capital político, econômico e simbólico.

Quem é Débora?

Débora é a jovem que participou ativamente de atos golpistas, tramados por cientistas predatórios – e ela era apenas um ratinho de laboratório que, entre os crimes que cometeu, ficou conhecida pelo menor deles: pichar a estátua da estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Diferente de outros casos, sua ação foi direta, física, sem roteirização digital. O que ela fez não cabia no jogo dos algoritmos, mas foi construído com a ajuda deles – e pela prevaricação do poder. Não havia ironia performática nem edição de mártir no ato de pichar a estátua. Havia um gesto nu, frontal, que desafiava não apenas um símbolo, mas a própria estrutura da democracia, erguida num longo período de luta para reparar os desvios cometidos pelos militares durante todo o período da ditadura.

Selvageria conceitual e ocupação simbólica

As ideias predatórias de que falamos aqui se aproximam de um conceito mais profundo: o da selvageria conceitual. Trata-se de uma forma de atuação discursiva em que não há freios morais nem preocupação com os danos causados ao ecossistema social. O objetivo é dominar: impor significados, ocupar territórios simbólicos, gerar reações em cadeia, neutralizar o contraditório não pelo argumento, mas pelo volume de ideias estruturadas no laboratório das ideias predatórias. A selvageria conceitual não é ignorância – é cálculo, e tem muito de má-fé. São ideias que sabem exatamente o que fazem: avançam sobre os espaços comuns com fúria retórica e emocional – e deixam para trás um rastro de confusão, ressentimento e descrença, e todo um povo alienado por não ser capaz de distinguir as coisas.

A verdade formatada nos laboratórios predatórios

O ambiente virtual virou um zoológico de bichos anônimos ou bichos célebres, todos em escaramuças estratégicas para ocupar espaços. E a mentira corre solta no zoológico, enquanto a verdade é mantida em jaulas – exibida como relíquia e, outras vezes, travestida de verdade, embora no fundo seja a mentira em essência.

No laboratório das ideias predatórias, quem sobrevive não é o argumento mais justo, mas o mais adaptável à lógica do engajamento. A arena está armada para o espetáculo, e os adestradores – que podemos chamar de enfluênciadores , com suas perversas epismologias (formas corrompidas de pensar o conhecimento), destroem mais do que propriamente constroem. A verdade é um bicho selvagem, porém frágil, e no laboratório, ela corre em círculos, sob o olhar entorpecido do público e dos cientistas predatórios.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O Ponto Cego Do Ponto De Vista


Por Adu Verbis

Dizer que todo olhar sobre o mundo carrega um filtro inevitável – a subjetividade – é, de certa forma, chover no molhado. Mas vou usar meu ponto cego e regar esse solo já encharcado.

O que enxergamos, interpretamos e concluímos está condicionado por nossas experiências, por camadas de valores e por limitações cognitivas que nem sempre percebemos. E é justamente essa falta de percepção que compõe nossa visão de mundo – uma visão moldada por um ponto cego. Assim, todo ponto de vista, por mais embasado que pareça, abriga uma zona de invisibilidade, onde aspectos da realidade se ocultam. Mas o ego sustenta que esse ponto de vista é legítimo, e é aí que mora o problema: insistimos em defendê-lo, mesmo quando está errado.

A subjetividade não só colore a percepção individual, mas também restringe o campo de visão. O filósofo Thomas Nagel, no clássico ensaio What Is It Like to Be a Bat? (Como é ser um morcego?), ilustra a impossibilidade de compreendermos plenamente a experiência de outro ser. Da mesma forma, ao adotarmos um ponto de vista, ganhamos uma perspectiva, mas perdemos outras. Só que adotar um ponto de vista é também um ato de posicionamento: pode ser uma forma de desafiar o mundo ou simplesmente de mantê-lo como está, sustentado por nossas crenças.

O peso da subjetividade se manifesta de várias formas, mas é na esfera emocional que ele mais se impõe. E quando molda o discurso político, cria narrativas que não necessariamente buscam a verdade, mas sim a manutenção do ponto de vista de quem as sustenta. No fundo, cada um defende aquilo que, emocionalmente, traz mais conforto – ou menos desconforto.

Na arte, o mesmo quadro pode inspirar leituras divergentes, dependendo do olhar do observador. No campo científico, a tentativa de objetividade esbarra nas hipóteses preexistentes que direcionam o olhar do pesquisador. Nenhuma dessas situações invalida a existência de um mundo externo, mas reforça a ideia de que o acesso a ele é sempre mediado por vieses interpretativos, que surgem através de um ponto cego, ou seja, do posicionamento cognitivo no mundo.

Costumo usar o conceito de Selvageria Conceitual, que sugere que construções teóricas podem se expandir e ocupar espaços de maneira predatória, dominando visões de mundo sem necessariamente estarem ancoradas em uma verdade objetiva, mas sim em uma vontade objetiva. Esse conceito se contrapõe à Selvageria Animal, que possui limites físicos e biológicos, enquanto a Selvageria Conceitual não se restringe por barreiras naturais, podendo se propagar indefinidamente na cultura e na política. Dessa forma, certas ideias se tornam dominantes não por sua veracidade, mas por sua capacidade de se multiplicar e silenciar outras perspectivas.

Além disso, também utilizo o conceito de Biocritério para apontar os diferentes princípios que estruturam a avaliação da realidade. Trata-se do modo como se determinam juízos de valor – o que é verdadeiro, belo ou justo. Argumento que esses critérios não são absolutos, mas construídos dentro de contextos culturais e históricos específicos. Assim, cada sociedade ou indivíduo adota um biocritério próprio para julgar o mundo e se posicionar nele, o que reforça a impossibilidade de uma visão completamente objetiva. No fim, o que se sustenta não é a verdade, mas uma vontade amparada pelo biocritério e propagada pela Selvageria Conceitual.

A consciência de que enxergamos o mundo a partir de um ponto cego não torna nada melhor, mas ao menos ajuda a não piorar, já que nos lembra da importância de exercitar a reflexão crítica sobre a própria subjetividade. Reconhecer a existência desse ponto cego é o primeiro passo para ampliar a própria perspectiva sobre o mundo e o lugar que ocupamos nele. Isso não significa aderir a um relativismo absoluto, onde toda opinião se equivale, mas sim cultivar uma abertura para questionar o próprio ponto de vista e explorar diferentes formas de ver o mundo.

No fim, o desafio não é escapar da subjetividade – uma tarefa inalcançável –, mas aprender a navegar por ela, tornando o invisível menos opaco e o desconhecido menos distante. Ou, ao menos, evitando encharcar ainda mais o solo já saturado da subjetividade.

segunda-feira, 24 de março de 2025

O Negro na Argentina




Por Adu Verbis

A Argentina, que normalmente é associada à imigração europeia e à identidade branca, carrega uma história negra que é invisível e muitas vezes negligenciada nos relatos oficiais do país. A presença de afrodescendentes no país foi importante nos primeiros séculos da colonização, mas foi gradualmente reduzida por uma série de fatores históricos, sociais e políticos. Esse apagamento também foi refletido no futebol argentino, onde, ao longo da história, poucos jogadores negros se destacaram e no esporte em geral.

O futebol, sendo o esporte popular na Argentina, teria tudo para ter mais negros representando a seleção, mas isso nunca aconteceu. O exemplo mais conhecido de um jogador de ascendência africana foi o goleiro Héctor Baley, que fez parte do elenco campeão da Copa do Mundo de 1978, embora não tenha sido titular.

Na Argentina, o termo "morocho" é comumente usado para descrever pessoas de pele escura, mas sem uma identificação explícita como negras. Maradona, por exemplo, tinha características que poderiam ser associadas ao termo "morocho" – como pele morena e um semblante que, em certos contextos, poderia ser relacionado a essa classificação popular – mas, por se tornar um ídolo, o termo poucas vezes foram aplicado a Maradona – El Pibe de Oro –, pois ele era visto como branco e não como morocho. Algo similar aconteceu no Brasil, onde Pelé sendo negro, era visto como uma pessoa de "alma branca".

O "morocho", no entanto, tem um significado diferente do que se entende no Brasil, onde a identidade racial negra foi mais afirmada e reconhecida. Na Argentina, esse termo acabou contribuindo para diluir e invisibilizar os afrodescendentes ao longo da história. O termo "morocho" pode englobar pessoas com ascendência indígena, mestiça ou afrodescendente, sendo muitas vezes usado como um eufemismo que evita reconhecer a presença de negros no país.

Além disso, em algumas situações, o termo "morocho" fora é usado de forma pejorativa, reforçando conotações de inferioridade ou exclusão social, e alimentando o racismo estrutural na sociedade argentina. E falando sobre racismo estrutural, na série argentina "Envidiosa", com a atriz Griselda Siciliani, a forma como uma personagem brasileira é retratada chega a incomodar, reforçando certos estereótipos e preconceitos culturais ao apresentar o "brasileiro" de forma reducionista no imaginário argentino.

A População Negra na Argentina ao Longo dos Séculos

Durante o período colonial, a população negra na Argentina era expressiva, especialmente em Buenos Aires e outras cidades. Em 1778, o Censo de Vértiz – o primeiro censo oficial realizado na cidade de Buenos Aires em 1778, durante o governo do vice-rei Juan José de Vértiz y Salcedo – indicava que cerca de 30% da população de Buenos Aires era composta por negros e mulatos, muitos deles trazidos como escravizados. Esse percentual variava conforme a região, sendo mais alto em cidades como Córdoba e Santiago del Estero.

No entanto, no século XIX, a presença de negros começou a diminuir gradualmente. Em 1810, ainda havia uma presença significativa, mas eventos como as guerras de Independência, que recrutaram muitos soldados negros usados como bucha de canhão, e as epidemias de febre amarela, que reduziram drasticamente a população, afetaram a população negra na Argentina. Estudos apontam que, em 1838, cerca de 23,7% da população de Buenos Aires era negra.

O declínio continuou ao longo do século XIX, especialmente devido à política de imigração argentina. A Constituição de 1853 incentivou a chegada de europeus, enquanto a população negra, já enfraquecida, foi cada vez mais assimilada ou miscigenada. No Censo Nacional de 1887, a população negra representava menos de 2% do total. O fato de censos posteriores talvez não incluírem "negro" como uma categoria étnica também tenha ajudado a invisibilizar esse grupo.

O Apagamento e a Invisibilização da Identidade Negra

Com a drástica redução da população negra autodeclarada, sua presença na sociedade argentina foi se tornando cada vez mais diluída. Muitos afrodescendentes passaram a ser identificados como "morochos", categoria mais vaga que não indicava origem africana. Além disso, a narrativa histórica oficial focou na imigração europeia como a principal responsável pela formação da identidade nacional, apagando a contribuição negra e índigena.

No começo do século XX, ainda havia afrodescendentes visíveis em Buenos Aires, como mostram algumas fotografias da época. No entanto, o impacto do apagamento histórico fez com que a identidade afro-argentina se tornasse cada vez menos reconhecida. Somente no censo de 2010, depois de mais de um século sem registros, a Argentina voltou a incluir a categoria "afrodescendente", identificando 0,4% da população (cerca de 150 mil pessoas). Hoje, a população negra na Argentina corresponde a 0,65% da população total, segundo o Censo Nacional de 2022, e se identifica como afro-argentina.

O Negro no Futebol Argentino e na Seleção

A participação reduzida de jogadores negros na seleção argentina não se deve apenas à demografia, mas também ao processo de construção da identidade da nação, onde a imagem do branco é predominante, em detrimento de outras etnias. Com uma população afrodescendente pequena e historicamente marginalizada, o número de jogadores negros que se destacam no futebol profissional é quase inexistente.

O caso mais notável é o de Alejandro De Los Santos, que jogou entre as décadas de 1920 e 1930, e o goleiro Héctor Baley (o 'Chocolate'), que foi reserva na Copa do Mundo de 1978, integrando o elenco campeão, mas sem atuar como titular. Mesmo sem ser titular, Baley e De Los Santos são exemplos de atletas de ascendência africana que tiveram espaço na seleção argentina.

Diferente de países como o Brasil e o Uruguai, onde a população negra sempre teve grande participação no futebol, a Argentina tem um histórico distinto, com uma redução drástica da população afrodescendente ao longo dos séculos e a ideia de que a imagem do branco deve representar a nação argentina predomina até hoje.

A Origem da Expressão "Macaguitos"

A expressão "macaguitos", usada de forma pejorativa para se referir aos negros, especialmente aos brasileiros, tem raízes em uma construção histórica de estereótipos raciais, e hoje ainda aparece nos campos de futebol entre torcedores e dirigentes. O termo "macaco" foi amplamente utilizado durante o período colonial como uma forma de desumanizar os negros africanos trazidos como escravizados.

Na Argentina, essa comparação com o macaco passou a simbolizar "selvageria", "primitividade" e "inferioridade", além de ser associada à ideia de imitação, no sentido de copiar gestos. O uso da palavra "macaco" também refletia a tentativa da sociedade argentina de se distanciar da identidade negra, adotando valores europeus, considerados mais "civilizados" e "avançados". 

Como o Brasil sempre teve uma grande população negra e uma cultura afro-brasileira visível, os argentinos (não estou a generalizar), de forma rude e perversa, intensificaram essa associação negativa, criando um estereótipo de inferioridade. O termo "macaguitos" reflete não só o preconceito racial, mas também uma tentativa de impor uma falsa hierarquia racial e cultural na região sul-americana.

Vamos fechar o texto. Uma amiga argentina, que mora no Brasil, toda vez que ela ouve falar de casos de racismo no futebol, especialmente com argentinos envolvidos, costuma contar essa piada:"Qual a diferença entre um argentino e uma pizza? A pizza não acha que o mundo gira em torno dela, não é racista, e sabe quando parar de crescer!"


sexta-feira, 21 de março de 2025

Demétrio Magnoli e sua desonestidade intelectual




Por Adu verbis

Demétrio Magnoli é um sociólogo, escritor e jornalista brasileiro, reconhecido por suas análises sobre política, sociedade e questões internacionais em especial na GloboNews. Nascido em São Paulo, Magnoli tornou-se um importante comentarista e intelectual no cenário público brasileiro, notável por suas visões conservadoras sobre temas como economia, segurança pública e relações internacionais.

Bem, no dia 21/03/25, Demétrio Magnoli fez um comentário sobre a relação entre pobreza e criminalidade que causou estranhamento, ao afirmar que "não há ligação entre pobreza e criminalidade" e usa o Brasil como exemplo de que essa conexão "não existe". No entanto, seu comentário revela não apenas falácias retóricas, mas também uma abordagem simplista e desonesta de um problema social complexo, pelo qual os setores conservadores nunca demonstraram real interesse, e quando se posicionam sobre ele, o fazem de maneira arrogante. Seu argumento carece de uma análise profunda e ignora as múltiplas variáveis que influenciam a criminalidade, além de lançar mão de comparações falaciosas que prejudicam o debate.

Comentário do Demétrio:

“Não há ligação entre pobreza e criminalidade. O Brasil é uma prova de que essa ligação não existe. A pobreza era muito maior nos anos 60, 70, mesmo 80, e a criminalidade era muito menor”.

Continua:

“O discurso que teria mais sentido é o discurso de que a criminalidade é um problema desligado do problema social. As soluções são outras. Não tem nada a ver com Bolsa Família, Pé de Meia, Farmácia Popular.”

Fonte: GloboNews

Primeiramente, Magnoli afirma que, nos anos 60, 70 e 80, a pobreza era muito maior, mas a criminalidade era "muito menor". Essa comparação é falaciosa, pois atribui uma relação causal sem levar em conta os diversos fatores que poderiam ter influenciado a criminalidade nessas décadas, como mudanças na estrutura social, no sistema de justiça, e no papel das políticas públicas de segurança. A ideia de que a pobreza maior nos anos 60, por exemplo, teria gerado menos criminalidade é uma simplificação grosseira que desconsidera essas variáveis. O que Magnoli faz, na verdade, é jogar a responsabilidade de entender essa relação nas costas do leitor, sugerindo que a correlação é óbvia, quando na realidade é um tema que exige uma análise multidisciplinar e contextual.

Além disso, a afirmação de que "não há ligação entre pobreza e criminalidade" é uma generalização excessiva, que ignora as evidências acumuladas por décadas de estudos em sociologia, criminologia e economia. A pobreza é um dos fatores que pode contribuir para a criminalidade, embora não seja o único, e qualquer análise honesta da questão deve levar em conta essa complexidade. Ao desconsiderar essa conexão, Magnoli se utiliza de um raciocínio falacioso e reducionista, que exclui a realidade de milhões de brasileiros que vivem em situação de vulnerabilidade social e enfrentam a marginalização e a falta de oportunidades.

Sua proposta de que "a criminalidade é um problema desligado do problema social" é não apenas irresponsável, mas também desonesta intelectualmente. Ignorar o papel das desigualdades sociais na formação de um ambiente propenso à criminalidade é negar a realidade das causas estruturais da violência. Esse tipo de discurso desvia a atenção do que realmente deve ser feito, como políticas públicas de inclusão social, educação e saúde, e ao mesmo tempo minimiza a importância de programas como o Bolsa Família, que, ao tentar diminuir as desigualdades econômicas, também contribuem para a redução da criminalidade em várias regiões.

Ao afirmar que "as soluções são outras", sem especificar com clareza quais seriam essas alternativas, Magnoli assume uma postura vazia e contraditória. Ele acusa o governo de Lula de fazer propostas ineficazes sem oferecer soluções concretas. Mas o que ele realmente propõe? A ausência de alternativas concretas transforma seu comentário em uma crítica rasa, incapaz de contribuir para um debate mais profundo e substancial sobre segurança pública e políticas sociais.

Essa tentativa de separar a questão da criminalidade da questão social reflete não só uma desonestidade intelectual, mas também uma postura que desvia a discussão das causas reais da violência. Ao fazer isso, Magnoli contribui para a desinformação e para a perpetuação de estigmas, ao invés de engajar em uma análise séria dos desafios enfrentados pela sociedade brasileira.

Em suma, Demétrio Magnoli se utiliza de falácias retóricas e argumentações semânticas frágeis, como a falsa causalidade e a generalização excessiva, para tentar invalidar uma discussão importante sobre as causas da criminalidade, sendo seu real alvo o presidente Lula. Seu discurso não apenas falha ao ignorar a complexidade das questões sociais e econômicas, mas também mina a possibilidade de se avançar em soluções efetivas para a violência no Brasil.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Jean Wyllys X Eduardo Bolsonaro: Um Conflito em Dois Contextos



Por Adu Verbis

O Brasil é um país onde, a cada troca de governo, as políticas – já frágeis – não são aprimoradas, e as que funcionam são destruídas pelo capricho ideológico de quem recebeu do povo o poder de representá-lo. O Estado brasileiro, falho por natureza, se torna ainda mais vulnerável pelas mãos dos próprios políticos, abrindo espaço para predadores e oportunistas que jogam contra o país com suas falas – às vezes burras, outras vezes fantasiosas e carregada de uma dialogia que força a barra para fazer algum sentido. 

É nesse jogo de ruínas que se insere a burrice dialógica de Eduardo Bolsonaro e a decisão de Jean Wyllys de se exilar. Por mais que houvesse razões para Wyllys deixar o Brasil, mas a sua atitude, assim como a de Eduardo Bolsonaro, também carregava um histerismo retórico. Pois bem, vamos analisar os contextos de Jean Wyllys e Eduardo Bolsonaro.

Jean Wyllys (2019):

Jean Wyllys, deputado federal pelo PSOL e ativista dos direitos LGBTQIA+, anunciou em janeiro de 2019 que não assumiria seu terceiro mandato e que deixaria o Brasil devido a ameaças de morte. Essas ameaças se intensificaram após o assassinato da vereadora Marielle Franco, sua colega de partido, em março de 2018. Segundo Wyllys, o aumento da violência e a ascensão de grupos ultraconservadores após a eleição de Jair Bolsonaro contribuíram para sua decisão de se exilar. Ele também mencionou que a suposta ligação da família Bolsonaro com milícias pesou em sua escolha de deixar o país.

Eduardo Bolsonaro (2025):

Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e deputado federal, anunciou em março de 2025 sua licença temporária do cargo e sua mudança para os Estados Unidos. Seu objetivo declarado é buscar apoio internacional contra o que considera perseguição à sua família e aliados, além de pressionar por sanções contra autoridades brasileiras que investigam seu pai por suposta tentativa de golpe de Estado. Eduardo também pretende articular uma possível anistia para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro invadiram prédios governamentais em Brasília.

Motivações:

Jean Wyllys deixou o Brasil devido a ameaças diretas à sua vida, refletindo o clima de violência política e intolerância, especialmente contra minorias e defensores de direitos humanos. Em contrapartida, Eduardo Bolsonaro saiu para buscar apoio internacional em defesa de seu pai e aliados, que enfrentam investigações e acusações de tentativa de golpe.

Contexto Político:

Wyllys saiu durante o início do governo Bolsonaro, um período marcado por forte polarização política e crescimento de discursos conservadores. Eduardo, por sua vez, deixou o Brasil após a derrota de seu pai nas eleições de 2022 e em meio a investigações sobre possíveis ações antidemocráticas ligadas ao ex-presidente.

Destino e Objetivos:

Jean Wyllys buscou segurança pessoal no exterior, inicialmente na Alemanha, recusando asilo político da França, e posteriormente se estabelecendo na Espanha para continuar seus estudos e atividades acadêmicas. Eduardo Bolsonaro mudou-se para os EUA com a intenção de mobilizar apoio político e pressionar contra as investigações que envolvem sua família no Brasil.

Vamos fechar: 

Enquanto Jean Wyllys deixou o Brasil por questões de segurança pessoal diante de ameaças, Eduardo Bolsonaro saiu com a intenção de articular apoio político internacional para defender seu grupo, que enfrenta acusações graves no país. Em ambos os casos, suas saídas refletem não apenas trajetórias individuais, mas também o contexto político conturbado do Brasil nos últimos anos.

No entanto, as razões de Wyllys estão ancoradas em fatos, enquanto Eduardo Bolsonaro constrói enredos para sustentar a ideia de perseguição por parte das mesmas instituições que sua família quis – e tentou — destruir. Ironicamente, são essas instituições que têm a obrigação de preservar a Constituição e a democracia.

sexta-feira, 14 de março de 2025

A Luta Deve Ser Contra a Violência, o Machismo e a Desigualdade, Não Contra o Sinônimo Feminino: Bonita.


Por Adu Verbis

No mundo mediático e político, o que mais sabem fazer é distorcer contextos e fatos para tirar proveito político das distorções, sob o pretexto de ser progressista ou conservador. Os polos progressista e conservador acabam, de certa forma, sendo faces da mesma moeda. E quando o assunto é distorcer conceitos e contextos, tanto progressistas quanto conservadores têm um time de plantão, já que a vida nas redes sociais funciona 24/7 e, portanto, qualquer sinônimo, pode acabar se tornando uma arma contra a fulano e/ou a favor de beltrano.

Pois, a luta feminista tem como eixo central a erradicação do machismo, da violência contra a mulher e a superação das desigualdades estruturais que persistem em diversas esferas da sociedade. Reduzir esse debate a uma disputa sobre se chamar uma mulher de bonita é misógino ou machista, de fato, desvia o foco das verdadeiras urgências: combater a violência, a desigualdade e a misoginia institucionalizada em todos os setores.

A violência de gênero, em suas múltiplas formas — física, psicológica, sexual e econômica —, continua sendo um dos principais desafios enfrentados pelas mulheres. Dados da ONU Mulheres apontam que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência de gênero. No Brasil, os índices de feminicídio são alarmantes, evidenciando a necessidade de políticas públicas eficazes e do fortalecimento das redes de apoio, e tudo isso está longe de ser bonito.

Além da violência direta, a desigualdade econômica é outro pilar da opressão. A disparidade salarial entre homens e mulheres persiste, assim como a sobrecarga do trabalho doméstico não remunerado. Mulheres enfrentam mais dificuldades para ascender profissionalmente e, em muitas ocasiões, são submetidas a condições de trabalho mais precárias, o que também não é bonito, nem bonito de forma alguma.

Enquanto isso, setores conservadores, misóginos e violentos, e setores progressistas com seus vícios epistêmicos (disposições intelectuais que distorcem o entendimento por meio de arrogância intelectual ou parcialidade ideológica) tentam reduzir o debate feminista a uma fala de Lula, na qual ele diz: "Essa mulher bonita", referindo-se a Gleisi Hoffmann. Isso desvia o foco das questões essenciais e urgentes, desviando a atenção da violência diária que as mulheres sofrem. No entanto, a fala de Lula tem um contexto, o de combater uma fala misógina de Bolsonaro, que afirmou que "mulheres petistas são ‘feias’ e ‘incomíveis’". Ora, o feminismo não se opõe à beleza ou à vaidade, mas sim à imposição de padrões que limitam a autonomia e perpetuam a objetificação das mulheres.

O combate à violência e à desigualdade exige comprometimento coletivo, mudanças estruturais e a desconstrução de discursos que desviam a atenção das reais necessidades das mulheres. A luta não é contra a beleza, mas contra um sistema que subjuga e silencia. Mais do que nunca, é preciso reafirmar que a prioridade é garantir dignidade, segurança e equidade para todas.

Além disso, não se deve instrumentalizar a figura feminina para fazer ataques políticos oportunistas. Críticas ao governo devem ser feitas com base em questões estruturais e fatos, não por meio de discursos que, contraditoriamente, acabam reproduzindo o machismo que se pretende combater. Fazer política é essencial, mas cair em contradições que enfraquecem a luta não é uma opção e não é bonito nem bonita.



https://www.huellasmag.com/en-blog/kahlo-and-amaral-artistic-renderings-of-white-feminism-in-latin-america

segunda-feira, 10 de março de 2025

A Triáde de um Processo Histórico-Social

 

Por Adu Verbis

Em um país onde o racismo estrutural ainda molda as relações sociais, a história de três homens – o agressor, a vítima e o advogado – vai muito além de um simples conflito. Reflete um processo histórico de opressão, onde as fronteiras entre agressor e vítima ficam bem nítidas, já que o próprio sistema de justiça, muitas vezes, acaba se tornando cúmplice das desigualdades que deveria corrigir. E não é por acaso que estamos falando de três homens negros.

O agressor (Carlos Alberto de Jesus), um policial militar negro reformado , é um reflexo de um sistema que, embora o tenha colocado em uma posição de poder, não o liberta das amarras de um racismo que, muitas vezes, ele mesmo perpetua. Como parte da máquina repressiva, o policial é vítima de uma estrutura que ensina a violência como resposta, mas ao mesmo tempo, é exigido a controlar e submeter os próprios semelhantes. Ele não age por impulso isolado, mas como peça de uma engrenagem que o condiciona a tratar os negros com a mesma brutalidade com que foi ensinado a se submeter a esse sistema. Sua violência não é um acidente, mas parte de um ciclo cruel que prende tanto o opressor quanto o oprimido. O "calor da emoção" alegado na sua defesa não justifica a violência, mas revela a falha de um sistema que não só permite, mas às vezes até incentiva, a perpetuação de um modelo de controle violento que sacrifica a dignidade do próprio negro.

A vítima ( Igor de Melo Carvalho), por sua vez, é um trabalhador e estudante negro, que carrega sobre si o peso de uma sociedade que, além de racista, muitas vezes vê sua própria dor com indiferença. Sua posição de vulnerabilidade não se limita ao simples fato de ser negro, mas se expande pela complexidade de sua luta diária – no trabalho, na educação, na própria sobrevivência. A brutalidade sofrida pelas mãos do agressor é uma consequência direta do racismo estrutural, mas também da falta de solidariedade, muitas vezes, entre os próprios negros. A discriminação que enfrenta não vem apenas do sistema branco, mas, em certos momentos, também de dentro da própria comunidade negra, que, acossada por séculos de opressão, reproduz os mesmos preconceitos que deveria combater. Sua dor, então, se amplia pela falta de reconhecimento, não só do racismo externo, mas da própria falta de empatia entre aqueles que compartilham da mesma cor de pele.

O advogado (André Rios), parte da lei, é o elo entre o agressor e a justiça. Um negro, defensor do agressor, alegando que ele agiu "no calor da emoção". Sua defesa não é apenas uma estratégia legal, mas uma reflexão do sistema que, mesmo ao se dizer imparcial, reforça e legitima as desigualdades estruturais. O advogado, ao justificar o ato do agressor dessa maneira, não só isenta o policial de responsabilidade direta, mas também normaliza a violência como algo que pode ser "entendido" ou "perdoado" em momentos de tensão. Ele não defende apenas um cliente, mas um sistema que, no fundo, é o grande responsável pela perpetuação das desigualdades. Ao mesmo tempo, carrega consigo a ambiguidade de ser negro em um sistema jurídico que, muitas vezes, não reconhece as profundezas das desigualdades raciais. Sua posição é um reflexo de um dilema: sabe que, para prosperar, precisa se alinhar a um sistema que, no fundo, ainda é racista, e, ao fazê-lo, acaba sendo cúmplice de uma estrutura que prejudica os mais vulneráveis.

Essa triade – o agressor, a vítima e o advogado – não é apenas um episódio isolado, mas um reflexo de um Brasil onde o racismo estrutural ainda define as relações sociais. O agressor, embora negro, se vê preso a um sistema que o coloca no papel de opressor. A vítima, com suas múltiplas identidades de trabalhador e estudante, é quem paga o preço da desigualdade. E o advogado, defensor de um sistema que perpetua a injustiça, acaba sendo a face da manutenção de um ciclo que precisa ser rompido. 

Cada um desses homens é um reflexo do Brasil profundo, aquele que ainda vive as marcas de um passado que não consegue se desfazer, e, ao mesmo tempo, é a promessa de um futuro em que a luta por justiça e igualdade não seja apenas uma busca formal, mas um movimento profundo e transformador. O racismo, ao contrário de ser um fenômeno distante, ainda é um fator ativo e moldador das ações e das vidas daqueles que, por mais que se esforcem, não conseguem escapar do peso da história.